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Artigos Educacionais

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AO JORNAL “TRIBUNA IMPRESSA”, O GRANDE SEMEADOR DE IDÉIAS

Izabel Sadalla Grispino *

Através do jornal “Tribuna Impressa”, deste valioso instrumento de comunicação que Araraquara aprendeu a admirar pelo alto profissionalismo, venho, há cerca de dois meses, publicando, semanalmente, artigos de fundo educacional. Este jornal amigo proporciona-me a oportunidade de contatar-me com a sociedade araraquarense, levando conhecimento, em temas educacionais, culturais, sociais, religiosos e outros. Estou me propondo, entre outros, a registrar os principais passos da reforma do ensino, na implantação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e a realidade educacional do ensino vigente.

Encontrei neste jornal, com afável acolhida, um livro aberto, de folhas em branco, para serem preenchidas, tendo em vista ilustrar a comunidade, nos mais variados assuntos. Já tive a oportunidade de passar alguns conceitos, ressaltando a idéia de que o bom professor faz a diferença do ensino e de que ele é capaz de compensar a falta de estruturas. Passei a idéia de que a formação, a dedicação e o salário do professor são alguns dos fatores que mais interferem no ensino e de que, sem um ensino de qualidade, jamais resolveremos a questão das desigualdades sociais. Ressaltei a necessidade de cursos de reciclagem para o professor, que, de um modo geral, não está absorvendo as Diretrizes Curriculares e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), emanados pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC). O professorado não está conseguindo ensinar os alunos dentro desses novos referenciais, que abargam, principalmente, a interdisciplinaridade e a contextualização, isto é, a aproximação do conteúdo ensinado com o cotidiano do aluno.

A escola não vem acompanhando as mudanças e tem demonstrado de que os fatores que favorecem o desempenho dos alunos estão mais relacionados ao dia-a-dia da escola do que com as diretrizes elaboradas pelo MEC. Daí a importância de se dar mais atenção ao professor, dar-lhe suporte profissional, porque ele é, sem dúvida, a mola-mestra, não só do progresso, mas da eqüidade social.

Neste novo ano que se inicia, continuarei, com o apoio do jornal “Tribuna Impressa” e com a proteção de Deus, a analisar situações de ensino, lutando para que a luz educacional prevaleça e clareie a consciência nacional de sua importância, lutando para que a vontade política se manifeste com mais verbas para a educação, cuidando melhor de nossos professores.

O jornal merece nossa reverência, porque ele é uma escola aberta, o mestre maior que bate à nossa porta para introduzir conhecimentos, para formar, de modo responsável, mente e corações. Em Araraquara, já vem se tornando habitual, nos festejos de fim de ano, saudar o jornal “Tribuna Impressa”, nas pessoas de seus digníssimos diretores e de todos os seus funcionários, que, com brilho e persistente idealismo, angariam, cada vez mais, a confiança da população.  O jornal “Tribuna Impressa” cresce com Araraquara, coloca-se na vanguarda jornalística. Muita saúde, muito vigor, aos seus dirigentes, para que possam continuar a receber as alegrias de seu jornalismo imparcial, competente, que vem se tornando marca consagrada. Pessoas que lutam por ideais salvaguardam a humanidade. Onde há uma vontade, há um caminho. Parabéns!

Formulo votos de um feliz Ano Novo a toda população de Araraquara. Que Deus lhe dê um ano de paz, de amor, de prosperidade. Quero também agradecer aos meus leitores pela atenção, pelas manifestações de apreço, a mim formuladas, durante a publicação dos artigos.

A todos vocês, queridos leitores,/ Que esse dois mil e um lhes seja risonho,/ Caminhos abertos, muitos amores,/ Que se realize seu mais lindo sonho.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em dezembro/2000)

CONFLITOS ENTRE ESCOLARES

Izabel Sadalla Grispino *

A presença dos pais na vida escolar tem significativo valor para os estudos dos filhos e para a vitalidade das instituições. Crianças e jovens que freqüentam a escola têm, como é natural, temperamentos diferentes, o que provocam constantes conflitos. Muitas vezes eles mesmos conseguem administrar o problema, sem interferência externa, mas há os que apelam para os pais.

Desentendimentos entre alunos são comuns e variam de intensidade de acordo com a faixa etária. Entre os pequenos, na faixa de 1 a 6 anos, o que mais surge são apelidos maldosos, puxões de cabelo ou brinquedos quebrados.

O período mais crítico fica por volta dos 12 aos 17 anos e, entre estes, dos 13 aos 16 anos, quando a sexualidade dos meninos está em ebulição. O jovem, para ser aceito no grupo, tem que se sujeitar às suas regras, ao seu modo de falar, de vestir. O grupo coloca à prova valores familiares e próprios e quem não se enquadrar na “tribo”, quem ousar ser diferente, é massacrado sem consideração.

Quando a intimidação, por parte de um colega ou do grupo, é sistemática, quando caminha para a violência física, pressão psicológica, ameaças freqüentes, ela provoca danos emocionais, baixa auto-estima, baixa autovalia, que é a capacidade de se avaliar em relação ao grupo, levando a problemas de rendimento escolar.

As agressões por causa de garotas são comuns e se restringem comumente ao próprio grupo. Mas, brigas também existem fora da escola, quando a convivência cria rixas. A intimidação é comum mesmo entre meninas. Cria-se competição no âmbito da aparência. Quem não estiver com a roupa da moda ou com o corpo esbelto pode ser excluída do grupo e vira alvo de gozação.

Casos mais graves, como brigas envolvendo drogas, roubos e discriminação, exigem intervenção imediata. Nessas circunstâncias, a escola atua com a família, junta pais e escolares envolvidos. Não é raro a escola perceber que o comportamento do estudante é reprodução do que aprendeu em casa. São os próprios pais que muitas vezes incentivam a intimidação, na filosofia do “bateu, levou”.

Um bom procedimento para a escola é professores e alunos elaborarem um texto em conjunto, propondo normas disciplinares. Escolas renomadas têm regras disciplinares bem definidas que constam na agenda dos alunos. Contudo, a escola pode intimidar o aluno ao ignorar sua cultura, sua bagagem social. Antes de punir, deve inteirar-se de sua origem, olhar a raiz. De onde vem esse aluno? Como é sua família? Daí a importância de uma gestão democrática, de uma participação efetiva dos pais na vida da escola.

É na fase em que a personalidade está se moldado que a escola precisa trabalhar na integração do grupo. Muitas escolas criam o “momento da roda”, quando toda a classe se reúne para conversar. Esse é um valioso momento para se educar: se um coleguinha é caçoado por causa de seus óculos, aparelho nos dentes ou jeito, aproveita-se para falar, por exemplo, da importância de respeitar o modo de ser das pessoas. Pais e professores devem fazer cada um a sua parte, ensinando a criança a respeitar o outro e acolher as diferenças.

No seio da família, também surgem conflitos, não acontece só no convívio escolar. As exigências do mundo moderno cresceram. A família tradicional vem passando por um processo de mudança. O papel dos pais começa a ser questionado. Pai e mãe trabalham fora e se sobrecarregam de atividades e, geralmente, não há tempo para criar um espaço comum, não há tempo para o diálogo. Uma convivência menor com a família reflete no rendimento escolar, no número de horas que a criança ou o adolescente passa em frente da televisão, criando ansiedade, deficiência de atenção, hiperatividade e atraso no desenvolvimento. Problemas emocionais, como depressão e estresse, acabam acontecendo e a grande receita é amor, carinho, atenção.

Os pais, num determinado período da existência, são as pessoas mais importantes na vida dos filhos. As crianças precisam de uma família, de relações afetivas. Isso traz segurança, fator fundamental ao bom desenvolvimento infanto-juvenil.

Tanto na escola quanto em casa, as crianças não podem ser tratadas todas da mesma maneira. Uma estratégia pode funcionar para uma e não para outra. A personalidade, a individualidade devem ser respeitadas. Por isso, nunca se deve fazer comparações. Deve-se dar meios para que as crianças desenvolvam o que têm de bom e para que sejam orientadas em relação aos defeitos. Perfeição não existe, portanto, dosar as exigências. As crianças precisam desenvolver experiências adequadas à sua idade. Olhar para elas em todas as suas dimensões: biológica, afetiva, emocional e moral de forma integrada para que todos os aspectos do desenvolvimento e comportamento infantil possam ser envolvidos.

As crianças precisam de disciplina, de limites que estruturem a sua vida e lhes tragam boas respostas às expectativas criadas. Educar não é bater, não é fazer prevalecer a vontade dos adultos. A criança precisa galgar experiência, ter segurança para fazer suas escolhas e ter responsabilidades sobre eles. Educar para a autonomia, não para a dependência.

Também é oportuno lembrar que não se deve sobrecarregar as crianças de atividades, para fazer uma série de cursos extracurriculares, como judô, balé, natação, inglês... Elas precisam ter tempo para ser crianças, brincar, aproveitar a infância, os melhores anos da vida.

São nos primeiros anos de vida que se constroem as bases do futuro e a criança precisa ter esperança no futuro. Pais e professores devem conviver com as crianças de modo a integrá-las no meio em que vivem, a criar com elas cumplicidade e fortalecer os laços afetivos.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2003)


ESCOLAS, PEQUENAS ILHAS DE EXCELÊNCIA

Izabel Sadalla Grispino *

O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) leva em consideração dois fatores que interferem na qualidade de ensino: o rendimento escolar, por meio das taxas de aprovação, reprovação e abandono, e as médias de desempenho dos alunos nas avaliações nacionais – Saeb e Prova Brasil. A combinação entre o fluxo e a aprendizagem resulta em uma média para cada Estado, município, escola e País, que varia numa escala de 0 a 10.

Países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), para qualidade de ensino, consideram como índice médio o igual ou maior que 6,0. De um total de mais de 55 mil escolas, apenas 160, de acordo com a classificação do Ministério da Educação (MEC), ou seja, apenas 0,2% das escolas públicas brasileiras chega a este índice.

A comparação com nações da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é possível, levando em conta a participação em avaliações internacionais, como o Pisa – que mede conhecimentos de leitura, matemática e ciências, e a criação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que considera o desempenho dos alunos na Prova Brasil, exame realizado por todas as crianças de 4.ª à 8.ª série do País, e o Sistema de Avaliação Básica (Saeb), feito por amostragem.

A média dos países da OCDE é de 6,0 (a Holanda ficou com Ideb 7,0 e o Reino Unido, com 6,5), valor que também foi considerado como meta a ser atingida pelo Brasil até 2021. Hoje, o Ideb médio nacional é de 3,8 nas séries iniciais do ensino fundamental.

Contudo, nem todas as escolas ou municípios, segundo o MEC, precisam de ter esse valor de índice. Cada escola tem uma meta diferente para 2021, de acordo com seu desenvolvimento. Mesmo escolas que tenham passado da média 6,0, hoje, terão de melhorar. O Ideb vai de 0 a 10.

Como sói acontecer, pouquíssimas escolas brasileiras atingiram a média 6,0 e, excepcionalmente, uma escola chegou a suplantar países com educação de excelência, como a Coréia do Sul e a Finlândia. A escola Professora Guiomar Gonçalves Neves, em Trajanos de Morais, no Estado do Rio de Janeiro, teve Ideb 8,5, o melhor índice do País.

Uma outra escola, municipal, Helena Borsetti, na cidade de Matão, interior do Estado de São Paulo, teve Ideb superior ao projetado para a Holanda, 7,8. Ficou classificada como a 3.ª do ranking das melhores do Brasil e a mis bem colocada de São Paulo. Uma escola que reflete a comunidade e o ambiente locais.

É na verdade muito pouco, mas é algo a se considerar, a se ir buscar como fonte, como elixir da boa aprendizagem. São escolas que vivem a sua realidade, que criam, da relação dos alunos com seu meio, estímulos para o aprender.

A escola de Matão está situada na zona rural e tem seu currículo adaptado às crianças desse meio, incorporando noções de agricultura e pesquisas da realidade vivida pelos alunos.

Firma-se, cada vez mais, o conceito de escola inserida em seu meio. Os rankings mostram que as escolas do interior do Brasil são as mais bem colocadas, quando se fala das séries iniciais do ensino fundamental. São escolas que têm um trabalho mais próximo da comunidade, comunidade que valoriza a atuação do professor, a sua atitude em sala de aula

Dentre as 55.967 escolas que fazem parte do índice, apenas, 0,01%, ou seja, 9 delas, tem Ideb, como a de Matão. Outras 33 unidades de ensino, o que representa 0,05% do total, chegam a 6,5 e se equiparam ao Reino Unido.

É ponto significativo, mas é ponto mínimo. Daria para dizer: “Vá em frente, sacode a poeira e dá a volta por cima”?

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em agosto/2007)

FORMAÇÃO DEFICIENTE DIFICULTA A REFORMA DO ENSINO

Izabel  Sadalla  Grispino *

Os preceitos contidos na reforma do ensino, louváveis, imprescindíveis à época, esbarram na qualidade dos recursos humanos, os responsáveis por sua aplicação.

Sabemos que o ensino ministrado nas escolas é muito mais o ensino organizado pelos professores, por sua forma de pensar, agir, por seu nível intelectual, do que aquele sistematizado pelos organismos centrais. O papel do professor é decisivo frente ao ensino efetivo, sem ele não há ensino, a melhoria desse ensino depende basicamente dele e não raro seu trabalho fica longe do declarado desejável.

Jean Piaget, em seu livro “Psicologia e Pedagogia”, diz: “ As mais perfeitas reformas ficam sem conclusão, se não há professores disponíveis, em qualidade e número suficientes. A psicologia infantil pode multiplicar os dados de fatos, multiplicar nossos conhecimentos sobre o mecanismo do desenvolvimento, esses fatos ou essas idéias não atingirão jamais a escola se os professores não os incorporarem até traduzi-los em realizações originais”.

É ilusão pensar que se atingirá tal domínio nas condições atuais. A deficiente formação dos professores é um grande obstáculo à reforma dos currículos. A posse do diploma de nível superior não representa garantia de uma formação de boa qualidade do profissional a quem cabe definir e colocar em prática o currículo real das escolas brasileiras. “Não adianta mudar o currículo no papel se a cabeça do professor também não mudar”, diz Elba de Sá Barreto, coordenadora da análise que a fundação Carlos Chagas faz das propostas curriculares. Demerval Saviani, um dos mais respeitados filósofos da educação do País, titular em História da Educação da Unicamp, diz: “É uma utopia discutir as mudanças das diretrizes curriculares, quando as escolas operam em condições precárias, com professores mal preparados”.

Nem cabe culpar o professor, ele também é resultado do debilitado e falho sistema educacional. Estaremos devotando a devida atenção ao docente? Estaremos valorizando suas atividades, melhorando seu salário, propiciando-lhe uma melhor qualidade de vida, criando condições de um real engajamento, um real compromisso com a educação pública? Num recente pronunciamento, Rose Neubauer, secretária da Educação do Estado de São Paulo, disse haver, ainda hoje, cerca de 6 mil professores não habilitado para o ensino médio. “O Estado perde professores de matemática e física para o mercado financeiro e de informática, e os de geografia, biologia e química para novas áreas do meio-ambiente, das indústrias e das ONGs”. Os professores evadem-se em busca de melhores salários. É histórico o sucateamento do nosso sistema educacional.

Quanto à qualificação, os cursos de reciclagem, oferecidos pelo sistema, não resolvem, são muito rápidos – duração em média de uma semana. O máximo que podem atingir é o objetivo da sensibilização, mas não o de formar conceitos. “Os cursos ligeiros de capacitação de professores podem titular as pessoas e não necessariamente qualificá-las. É preciso programação consistente para que eles sejam bem utilizados. A mudança de mentalidade de um professor é processo lento e difícil, como esperar que uma capacitação tão rápida seja eficiente?”, disse Antônio Joaquim Severino, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).

O melhor seriam cursos mais extensivos com um ou dois representantes por escola, que os repassariam, como agentes multiplicadores, em suas unidades escolares, formando nelas um núcleo de apoio, atuando permanentemente. As reformas foram propostas como se a semente estivesse caindo em terreno fértil, preparado, pronto para o plantio. Foram lançadas numa rede escolar despreparada, sem condições de adubar o solo para conseguir a boa colheita. Aplica-se à estrutura do ensino a parábola evangélica, quando diz: “O destino das sementes depende do terreno”.

Não deveriam os órgãos centrais ter primeiro reciclado o professor, tê-lo posto frente aos novos conceitos, tê-lo estruturado, para depois implantar as novas proposições? Não estaríamos, agora, colhendo um resultado mais promissor, mais consistente? Do modo como o ensino se processa, não há como esperar um trabalho por inteiro, mas, sim, diluído, permeado por remendos, por colchas de retalhos.

Educação é um processo a  médio e longo prazos. Os primeiros passos são, como se sabe, os mais difíceis, mas, também, os mais importantes. São os que dão segurança para os passos subseqüentes. Pular etapas provoca desequilíbrio tanto para quem aplica como para quem recebe a aprendizagem. Lançar fórmulas, sem antes elucidá-las, é cair em desestruturação, em discordância à necessária mudança de comportamento de futuros profissionais, que ficarão desajustados, perdidos entre o que lhes ensinaram e o que deveriam ter aprendido. A escola, nessas condições, não tem como cumprir a função de processar as profundas transformações das relações sociais e de trabalho.

Essas observações vêm confirmar a preocupação, hoje, do Ministério da Educação e Cultura (MEC) em melhorar a formação dos professores do ensino médio para que possam acolher com mais propriedade a reforma pretendida desse ensino. A crescente procura pelo ensino médio “aumentou a preocupação do governo com a capacitação dos professores que vão atender a demanda”, disse Rui Berger, secretário de Educação Média e Tecnológica do MEC. Idealizam-se projetos para a capacitação de professores em exercício, por meio de ensino a distância, “destinado a dar condições aos educadores de elaborar um programa ou dominar itens do currículo”, complementou Rui Berger.

A reforma do ensino exige qualificação, competência profissional. Tem-se que investir na formação continuada do professor. Tem-se que melhorar o ensino universitário, lugar que se situa a fonte, onde o professor beberá a água que regará a semente fertilizadora do terreno educacional.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em junho/2000)

RESPONSABILIDADE SOCIAL

Izabel Sadalla Grispino *

A época atual tem sua atenção voltada para a sociedade. A desordem social, o alarmante desnível econômico, estão hoje, mais do que nunca, exigindo a necessidade de formar cidadãos conscientes. Uma comunidade consciente de seus direitos passa a agir na sociedade que, articulada, se mobiliza em direção à participação, à solidariedade, à inclusão. O indivíduo começa a entender que sua responsabilidade vai além do pessoal, do familiar, a ter consciência de que a sociedade não é compromisso só do governo e que todo cidadão é governo. A ter consciência de que sociedade é um organismo vivo, mutável, de desejo de realização, de auto-afirmação. A ter consciência da ajuda que necessita para se auto-realizar, criando recursos, meios, condições para isso e não, apenas, estender-lhe a mão, no sentido de filantropia, de paternalismo.

O indivíduo entende que a responsabilidade social deve se traduzir em crescimento para a cidade, em comunidades de sucesso. Entende que pode e deve agir na sociedade, dentro de seu universo, desenvolvendo o sentido de cidadania. Passa a viver no entendimento de que todos têm direitos, assim como têm deveres, igualdade de oportunidades, condenando regalias e privilégios.

O cidadão se forma desde que nasce. A criança, sentindo-se respeitada pelo adulto, tendo suas necessidades atendidas, vai adquirindo a noção de respeito e o respeito vai fazer parte de sua vida. Uma criança que vive, por exemplo, o drama de ter que se afastar da escola para trabalhar e poder comer, como vai entender democracia ou cidadania? Se gritar, apelar, não será ouvida e, não sendo ouvida, não ouvirá também, transgredirá. Essa criança que se vê anulada em seus direitos, em suas necessidades básicas, não entenderá de respeito.

Conceituar cidadania e não praticá-la é perder, para o aprendiz, o seu significado. São pelas atitudes dos adultos que as crianças passam a entender o conceito de justiça. Quando ouvidas, atendidas, vão se colocar na sociedade democraticamente, desenvolver a sociabilidade. É a experiência de vida quem vai lhe ditar a idéia de cidadania e, como reflexo dessa idéia, ela repetirá as atitudes, passando-as avante. O exemplo do adulto é fundamental. Se o adulto é respeitoso, solidário, a criança o terá como referência.

A chave da responsabilidade social está nos atos praticados pelos adultos; se esses atos passarem uma imagem favorável à prática do bem comum, do compromisso com o outro, essa imagem propagar-se-á, do mesmo modo o seu contrário. Além da ação consciente, o adulto deve aprender a ouvir, principalmente em contato com os jovens. Conversar, dialogar, formular normas conjuntamente, não impondo, mas conscientizando, para que esses jovens se sintam responsáveis por suas atitudes. O contato com o adulto determinará sua visão de mundo, seu relacionamento com a sociedade.

A escola contribui com a responsabilidade social, desenvolvendo a consciência crítica da realidade, a compreensão de que o interesse social é mais importante que o individual, a fazer o aluno ver a realização como fruto do esforço comum. Ela deve se tornar um espaço de realização, criar formas de intervenção social, despertando interesse por atividades sociais.

A adolescência é uma fase em que o jovem é idealista, tem necessidade de acreditar em alguma coisa, a fase em que quer mudar o mundo, quando abraça os ideais de liberdade e de igualdade em profundidade. É o momento de a escola canalizar essa energia para ações produtivas no seio da comunidade, montando projetos que o envolva nessas ações. O jovem na adolescência, como diz a psicologia, deixa de ser filho do casal para ser ele próprio e as instituições de ensino devem ser catalisadoras desse potencial juvenil.

Cidadania é reflexo, é vivência, cabe aos pais, aos educadores dar o exemplo no entendimento de que só existe cidadania praticando-a. Começa em casa, na escola, com a educação recebida e vai para a rua com a prática do respeito. Educar para agir com consciência todos os dias; cobrando deveres das autoridades, cuidando da cidade, respeitando as regras sociais. Assim, a criança compreenderá que nasceu para viver e não sobreviver, tendo seus direitos respeitados.

Um aspecto que fere a consciência e imprime fortemente o traço da injustiça social é o trabalho infantil. Crianças e adolescentes que trabalham freqüentam menos a escola. No passado, esse número foi maior, mas, mesmo assim, hoje ainda é grande. Há trabalhadores infantis nas áreas urbanas e rurais. Pesquisas têm mostrado que cerca de metade das crianças e adolescentes que estão trabalhando utiliza produtos químicos, máquinas e ferramentas, com riscos constantes de sofrer acidentes. Esta parcela é maior entre os trabalhadores do campo, que somam 43% das crianças e adolescentes de 5 a 17 anos que têm alguma atividade.

Também, serviço doméstico, distância e falta de vagas são outros motivos que afastam crianças e jovens da escola. Segundo O IBGE, o nível de escolaridade, entre pessoas de 5 a 17 anos, cresce de acordo com a faixa do rendimento familiar. Em famílias que ganham até ½ salário mínimo, esta faixa ficou em 83,1%. Já em famílias com rendimento até 10 salários mínimos ou mais, o nível de escolaridade sobe para 97,9%.

A má distribuição de renda responde pela sofrida desigualdade social. Crianças que deveriam estar na escola ou brincando arcam, prematuramente, com a responsabilidade de sustentar-se e ajudar no sustento da família.

O Estatuto da Criança e do Adolescente diz que é proibido qualquer trabalho a menores de 14 anos, a menos que seja na condição de aprendiz. São aprendizes os adolescentes que recebem formação técnico-profissional, que deve ser dada sem prejudicar o ensino regular. Os maiores de 14 anos que trabalham têm assegurado o seu estudo. Os aprendizes maiores de 14 anos devem receber direitos trabalhistas como os adultos. Nenhuma criança ou adolescente pode trabalhar à noite, nem realizar atividades perigosas ou em ambientes que sejam prejudiciais ao seu desenvolvimento. O Estatuto também garante o direito à educação: igualdade de condições para o acesso e permanência na escola, o direito de ser respeitado pelos educadores, o acesso à escola pública e gratuita próxima de sua residência.

A realidade social é pesada, profundamente desigual. Entre nós, um terço da população vive na miséria. O pressuposto da cidadania é a igualdade de direitos e diante de tamanha desigualdade, para conquistá-la, haverá ainda muitas léguas a percorrer, muita estrada pela frente. Contudo, estaremos dando uma grande contribuição se educarmos a criança e o jovem dentro dos princípios de justiça, de ética, de solidariedade, se os ensinarmos a enfronhar-se nas causas sociais, aprendendo, na prática, o sentido de democracia e de cidadania.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2003)

EDUCAÇÃO INFANTIL

Izabel  Sadalla Grispino *

As recentes descobertas sobre a formação do cérebro humano provocaram uma revolução nas pesquisas sobre o processo de aprendizado. Influenciaram e modificaram toda a estrutura de ensino dessa faixa de atendimento infantil. Abriram novas perspectivas para o desenvolvimento intelectual e emocional da criança e levaram à reformulação do currículo das escolas infantis. O neurobiologista Harry Chugami, da Universidade de Michigan, adverte: “O currículo das escolas tradicionais está fora de sincronia com as teorias modernas sobre aprendizado infantil, porque subestima a capacidade das crianças. A pré-escola desperdiça o potencial infantil de aprendizagem, porque exige pouco, e mantém baixas as expectativas sobre o que as crianças são capazes de entender”.

As descobertas provocaram mudança de mentalidade e passou-se a diminuir a idade em que a criança começa ir à escola. Descobriu-se que o melhor período para desenvolver o potencial da criança é de zero a 3 anos; o melhor período de aprendizagem ocorre dos 2 aos 10 anos. Ao entrar na pré-escola, metade do processo de desenvolvimento do cérebro da criança já está concluído. Há duas décadas atrás, o cérebro de uma criança de 5 anos era visto como uma fita semivirgem, que registrava tudo que fosse ensinado pelos professores.

Acreditava-se de que até os 6 anos a criança deveria apenas brincar, quando, hoje, sabemos que a estimulação precoce altera a maneira e o grau de aprendizagem infantil. Brincar é importante, é o laboratório natural da afetividade, da sociabilidade, da ética e serve de suporte para uma adequada estimulação. Limitar experiências na pré-escola é desperdiçar o melhor período de aprendizagem da criança.

É na interação com o meio em que vive que a criança constrói o conhecimento. Novas metodologias, novas abordagens didático-pedagógicas do conteúdo começam a surgir. Educação infantil amplia conceito de pré-escola e esta passa a assumir papel formal no processo de aprendizagem. O envolvimento com a leitura e a escrita começa muito cedo, desde o maternal, assim como a formação ética e moral.

A denominação pré-escola, embora usada oficialmente, é rejeitada pelo educadores que consideram este período fundamental para o desenvolvimento intelectual da criança; desenvolvimento que se dá através de estímulos táteis, visuais e auditivos, aproveitando todo o potencial da criança.

Hoje, sabemos da importância de trabalhar conceito e não conteúdo. Pelo conteúdo, a criança vai memorizar o conhecimento; pelo conceito, vai incorporá-lo. “Em vez de memorizar tabelas de multiplicação, crianças de até 4 anos devem estar “brincando” com conceitos de matemática e lógica. O importante é que as crianças entendam o conceito cedo. As fórmulas ficam para mais tarde”, diz o pedagogo Sam Houston, encarregado de reformular o currículo das escolas primárias da Carolina do Norte, nos EUA.

Crianças de até 8 anos devem ficar sentadas o mínimo possível, porque elas aprendem por experiência, na prática, vivendo o que está sendo ensinado, permitindo ao cérebro relacionar os fatos.

Os anos 90 estão sendo conhecidos como a “década da pesquisa cerebral”, devido às inúmeras descobertas sobre o desenvolvimento do cérebro. Aparelhos que captam imagens do interior do corpo humano em funcionamento, os “scanners”, trouxeram, entre muitas outras, duas descobertas importantes: a) o cérebro usa o mundo exterior para se moldar; b) existem períodos críticos em que as células cerebrais – os neurônios – precisam de determinados estímulos para desenvolver habilidades como visão, coordenação motora ou linguagem. Esses períodos passaram a chamar-se “janelas de oportunidade” e vão do nascimento até por volta de 12 anos de idade. Até o início da década de 80, só era possível estudar o cérebro de pessoas mortas.

Não se sabe com precisão em que idade as “janelas de oportunidade” se fecham, mas os cientistas são unânimes em afirmar que a maior parte delas se abre nos primeiros meses de vida. Descobriu-se que as “janelas de oportunidade” – período em que se formam as conexões entre os neurônios – para aprender, por exemplo, um segundo idioma só se fecham aos 6 anos e o período ideal para aprender música começa aos 3 e vai até os 10 anos. Crianças de 5 anos, se corretamente estimuladas, conseguem entender conceitos matemáticos, como volume e densidade, falar mais de um idioma, tocar instrumentos e chegar a ler partituras.

Os cientistas colocam dois fatores determinantes na interação da formação do cérebro infantil: genes e ambiente. Os genes são responsáveis pela estrutura do cérebro e o ambiente, pelo seu funcionamento. As experiências vividas pelo bebê, do nascimento aos 6 anos, determinam seu futuro emocional e intelectual. A outra parte desse futuro é determinada pela carga genética herdada dos pais.

A ciência mais uma vez dando o seu recado, integrando o processo psico-pedagógico da aprendizagem.

* Supervisora de ensino aposentada.         
(Publicado em maio/2000)

O DIFÍCIL EQUILÍBRIO DA BALANÇA

Izabel Sadalla Grispino *

Pobre Brasil, País em desenvolvimento. Sem o respaldo da boa educação, deste setor estratégico do desenvolvimento, continuará como País de terceiro mundo, ainda por muito tempo!

O nosso sistema educacional evolui sofrivelmente, não oferece, em todos os graus de ensino, uma educação com um mínimo de qualidade. Não está conseguindo formar mão-de-obra qualificada para o mercado interno e externo, enfraquecendo-se à competição globalizada.

A falta de prioridade à área educacional, que vem de longa data, foi se acentuando no tempo, chegando, hoje, a possuir um déficit de aproximadamente 250 mil professores no ensino médio e ensino fundamental de 5.ª à 8.ª série. Situação caótica, denominada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) de apagão educacional.

Esses dados foram fornecidos, recentemente, pelo relatório Escassez de Professores no Ensino Médio: Soluções Estruturais e Emergenciais, elaborado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE). Faltam professores graduados em Licenciaturas de Física, Química, Biologia, Matemática e outras, professores que precisariam ser contratados em caráter emergencial. A situação se agrava nas disciplinas Física e Química. Apenas 9% de professores de Física, que atuam nas escolas públicas brasileiras, têm formação específica na área.

Como conseguir esses professores? Pela linha da competência, da boa formação não é fácil, pois a carreira do magistério não é, hoje, nada atraente.

Com o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), é provável que haja a universalização do acesso ao ensino médio, que será esbarrado pela falta de oferta de professores. O número diminuto de professores não atenderá a crescente demanda ao curso e esse déficit é realidade em todos os Estados do País.

Professores de outras áreas, já há algum tempo, vêm assumindo as turmas afetadas pela ausência de professores especialistas na matéria, especialmente áreas de Física, Química e Biologia. Eles são, contudo, apenas “tapa-buracos”, não têm formação para suprir o conteúdo das disciplinas afetadas. O comum é o aluno terminar o curso analfabeto na área científica.

O que se ressalta na atualidade, e mesmo em décadas atrás, é a preocupação dos governantes mostrar estatísticas como troféu. Na pressa de aparecer em números, descuidam-se dos métodos educacionais e insistem em programas contingenciais. É quando o tiro sai pela culatra.

Já se diz que é preciso reinventar o professor. Este continua ministrando aulas nos mesmos moldes da linha tradicional, usando programas de ensino idênticos, não importa em que região do País. Programas distanciados das localidades, das realidades da vida do aluno.

Continua mantendo um sistema, em que o professor fala, transmite o conteúdo, e o aluno responde da mesma maneira, seja no Amazonas, no Pará, ou no sul do País. Em nome de uma formação básica comum, caminha-se para um currículo único, divorciado de contexto da escola, ao invés da adoção de currículos abrangentes e precisos.

Em situações problemáticas como o apagão de professores, criam-se medidas emergenciais, que são apenas paliativos, não sustentando, de forma alguma, a posição desejável para a boa escola.

Negligenciaram o professor. Ouve-se, comumente, dizer que lecionar para crianças e adolescentes se proletarizou.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em agosto/2007)

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em agosto/2007)

CICLO BÁSICO NOS CURSOS SUPERIORES

Izabel Sadalla Grispino *

Como parte da reforma universitária, o Ministério da Educação (MEC) propõe a criação do ciclo básico de 2 anos para os cursos superiores. Um ciclo comum, freqüentado pelos alunos, com um grupo de disciplinas mais genérico, antes da oferta dos conteúdos específicos de cada curso. O aluno terá uma melhor formação geral, um tempo maior para definir com mais segurança a carreira a seguir. Irá exercitar melhor suas aptidões, informar-se com mais tempo sobre o mundo do trabalho e fazer a escolha de sua profissão com mais maturidade.

A idéia do ciclo básico vem sendo bem recebida pelos educadores que entendem ser a medida portadora de uma formação mais ampla aos estudantes, permite uma maior flexibilidade na troca de cursos e evita a especialização excessiva, que limita a formação.

A nova LDB da Educação substitui, no currículo, padronização por flexibilização. A reforma do ensino adota currículos que se norteiam pela interdisciplinaridade -- interligando as diversas áreas do saber – e pela contextualização. A interdisciplinaridade promoverá ao aluno uma formação mais ampla, um conhecimento globalizado do assunto. Na universidade, corrige distorções do ensino superior e da especialização prematura dos cursos de graduação, realizados em departamentos, e cursos desintegrados dos demais. A interdisciplinaridade, aliada às diretrizes curriculares básicas comuns a todos os cursos, levará a especialização para os últimos anos, favorecendo ao aluno uma escolha posterior, com mais convicção.

O ciclo básico retoma noções de universidade, afirmam os educadores. O foco deixa de estar no curso e passa à universidade. Os primeiros anos de graduação agruparão estudantes de cursos com demandas diferentes em atividades inter e multidisciplinares. Os cursos serão interligados e as disciplinas básicas oferecidas conjuntamente.

Essa iniciativa do ciclo básico já existe em algumas universidades brasileiras, como a Universidade de São Paulo (USP), que, já há algum tempo, mudou o currículo da Escola Politécnica e do curso de Letras. Para que o ciclo básico seja bem aplicado é preciso que conte com professores bem formados, treinados, com visão global das disciplinas. O que se espera é que não venham a se tornar uma forma de economia, especialmente para as instituições privadas de ensino. Que ele represente o alargamento das fronteiras do conhecimento, hoje tão necessário.

O ciclo básico exige, para tal, um currículo bem entrosado e professores qualificados. Esse processo reforça a idéia de reforma na estrutura administrativa do ensino superior, da divisão das universidades em departamentos. O que se pretende é acabar com as antigas cátedras, agrupar os professores em órgãos colegiados por afinidade de conteúdo de suas disciplinas. Essa medida começou a ser implantada há pouco mais de três décadas pelo regime militar, mas por razões oportunistas e burocráticas não foi levada adiante.

O ciclo básico envolvendo disciplinas comuns torna-se refratário à segmentação do ensino em cursos, departamentos e faculdades que não se comunicam entre si. A sua aplicação talvez comece por áreas afins. Com sua adoção, o estudante poderia fazer o vestibular para um conjunto de áreas, sem escolher antecipadamente uma. Essa escolha ocorreria a partir do 3.º ano.

A idéia do ciclo básico no ensino superior injeta princípios inovadores na universidade. Na licenciatura, poderá melhor preparar o professor para encarar as mudanças implementadas pela nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), melhor entender o ciclo básico na progressão continuada do ensino fundamental. O que precisamos é de avanço na educação. É lamentável abrir o jornal e deparar com o resultado de uma avaliação do ensino médio, revelando que “a escola brasileira ensina menos que o mínimo”.

O Sistema de Avaliação do Ensino Médio (Saeb) divulgou, em 16 de junho corrente, um resultado demonstrando que, depois de três anos em queda progressiva, o ensino não avançou praticamente nada. Revelou, segundo o MEC, uma pequena tendência de melhora, que se pode dizer ser meramente estatística. Na realidade, não se percebe nenhuma mudança na qualidade de ensino, ensino que não consegue ir além do mínimo. Metade dos alunos não sabe nem português, nem matemática. Mostrou uma situação muito grave na 3.ª série do ensino médio, onde de cada 10 alunos 7 apresentam um nível de conhecimento considerado “muito crítico”. Na 4.ª série do ensino fundamental, 5 entre 10 alunos não dominam as quatro operações aritméticas e não conseguem ler e compreender textos simples e curtos. São crianças consideradas alfabetizadas, mas que não passam de analfabetas funcionais.

Revelou, também, que nem os alunos de colégios particulares chegam, na maior parte dos Estados, a atingir a média considerada adequada para as séries avaliadas. Constatou-se que o ensino público está ruim e que o ensino privado, salvo exceções, está longe do ideal. Os alunos terminam o curso sabendo bem  menos  do que deveriam. Embora as condições de ensino, na escola particular, sejam melhores, com recursos disponíveis superiores, o ensino fica a desejar. Esses alunos demonstraram um desempenho medíocre.

O presidente do Instituto Nacional de Estatísticas e Pesquisas em Educação (Inep) – Eliezer Pacheco – considerou que “a causa principal do nível insatisfatório dessas escolas está na formação dos professores, que não é adequada, o que acaba influenciando, também, no ensino privado”.

O Saeb mostrou a importância da formação dos professores. Quando o profissional tem apenas o ensino médio, a pontuação média dos alunos fica em 157 pontos. Se a formação é superior, a média dos alunos chega a 172 pontos. Mas, no geral, o que se constata é uma formação insuficiente, necessitada de reforço em conteúdo acadêmico e em metodologia.

Espera-se que, com a criação do ciclo básico de 2 anos, o ensino superior traga renovações, conteúdo abrangente e ensine o professor a trabalhar com métodos atualizados, interdisciplinares, revertendo a tendência tradicional que ainda persiste.

* Supervisora de ensino aposentada.      
(Publicado em junho/2004)

O CAMINHO DA REABILITAÇÃO

Izabel Sadalla Grispino *

Diante de um mercado de trabalho cada vez mais exigente, a qualificação é chave para a profissão. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgada pelo IBGE, em setembro de 2006, dá, novamente, seu sinal de alerta: “A educação brasileira continua muito abaixo dos padrões necessários a uma economia dinâmica e competitiva – capaz de aumentar sua presença no mercado mundial, condição básica para a geração de emprego e redução da desigualdade social”.

A cada passo da avaliação da educação básica, mais a presença da necessidade da intervenção nessa educação. São fatos mensurados pelas estatísticas, revelando um ensino sem qualidade, cujos efeitos negativos se espalham pelas atividades sociais, essenciais ou secundárias, comprovando uma política educacional ineficaz.

Ajudas parciais às escolas, por parte da sociedade civil, vêm acontecendo, há algum tempo. São ajudas limitadas, destinadas a algumas e que trazem benefícios educacionais comprovados pelas avaliações oficiais. Porém, a grande maioria das escolas fica restrita ao debilitado sistema oficial, sem chances de crescer.

Dentre essas ajudas está a Fundação Abrinq. Essa Fundação abriga um programa “Crer para Ver”, que tem como objetivo apoiar iniciativas e dar meios para a criatividade florescer dentro das escolas públicas.

Fundações há que fazem parcerias com escolas públicas, fornecendo equipamentos, material de apoio didático-pedagógico, promovem a reciclagem de estudos dos professores, acompanham, passo a passo, a atuação da escola, o nível de aprendizagem dos alunos, as avaliações e exigem dela uma performance primorosa.

O movimento empresarial “Todos pela Educação”, lançado em setembro de 2006, quer alcançar a consciência nacional de ajuda à educação. O propósito é criar uma mobilização social em favor da educação, ensinar a sociedade cobrar educação e educação de qualidade.

São movimentos auxiliares, com resultados parcelados, porque não conseguem uma unanimidade, um alcance global da educação básica.

A idéia lançada pelo professor Eduardo Giannetti da Fonseca, propondo um exame nacional unificado, no final do ensino fundamental, que venha credenciar a certificação desse ensino, é, no mínimo, digna de ser considerada. É uma proposta compacta, plausível, objetiva, que deve ir formando o imaginário dos educadores. É um caminho aberto, em que, certamente, sugestões virão, virão outras propostas, que, na confrontação, surgirá a melhor proposição.

Algo de concreto precisa acontecer. O ensino básico, ensino de alicerce, é prioridade na pirâmide educacional. Temos, para um País que se quer desenvolvido, uma educação descontrolada, anacrônica, decadente, precisando ser encarada. A exclusão social, que vem acontecendo em larga escala, é provocada, não pelos anos de escolaridade, mas pelo péssimo ensino público.

Constatar a ineficiência do sistema educacional, deixando de fazer as mudanças necessárias, significa permanecer na discussão inútil, estéril, sem avançar na prática educativa, no acesso à profissão de qualidade.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(publicado em novembro/2006)

A CLÍNICA DA CONSCIÊNCIA SOCIAL

Izabel Sadalla Grispino *

“A alma de toda cultura é a cultura da própria alma”, já diziam os filósofos gregos.

Em meio a tanta desorganização, a tanta frustração na correspondência de atitudes humanas, presencio, comovida, uma clínica médica – Serviço de Nefrologia de Ribeirão Preto – de atendimento alentador, em termos de humanização e de qualidade de serviços prestados. É dirigida por médicos de alto gabarito, de indiscutível competência, fator, por si só, indicador de tranqüilidade, de confiança no tratamento ministrado.

PARCERIA PROFESSOR-ALUNO. CONCEITOS BÁSICOS

Izabel Sadalla Grispino *

A parceria do professor com o aluno cria, na sala de aula, um clima interativo, um conhecimento articulado, facilitadores da comunicação e da abordagem da educação democrática e libertadora.

Ao trabalhar o aluno, sua matéria-prima, o professor marca sua presença na sociedade, quando lhe entrega o resultado de sua obra maior: um cidadão conscientizado de que o desenvolvimento do País é a soma do desenvolvimento individual.

Para chegar a esse bom termo, o professor precisa adequar o seu ensino ao tipo de aluno que recebe; precisa falar, como emissor, a língua do aluno, o receptor. Conhecê-lo bem, conhecer seu universo cultural, deve ser o ponto de partida, a fim de centrar a aprendizagem em bases no real, no concreto, preferentemente nas séries iniciais, e evitar, assim, uma possível inadaptação do aluno aos métodos da escola.

Escola é vida, é experiência de vida. Investigar o cotidiano do aluno, trazer sua vida à escola, relacioná-la, estrategicamente, aos conteúdos do currículo, vão tornar a aula mais atraente, mais condizente com esse aluno.

O ato pedagógico deve estar inserido nas condições psicossociais do aluno, dentro de sua faixa etária, e ministrado de forma prazerosa e afetiva. O professor deve encaminhar o seu ensino de modo a desenvolver habilidades paralelamente à aquisição do conhecimento. Estes preceitos já aprendíamos, na década de 60, com o Prof. Anísio Teixeira, na proposta de sua escola-parque.

É consenso entre os pedagogos de que “pacote pronto” leva à repetência e de que a apropriação do conhecimento historicamente constituído leva ao desinteresse, à apatia.

A função do professor é um questionar contínuo. Deve ser um pesquisador permanente. Para melhor se aproximar do aluno, questiona-se: quem é esse elemento humano que recebo? Como é o seu modo de vida? Quais são as suas condições financeiras? Quais as marcas culturais que traz de sua família? De sua comunidade? Mediante respostas obtidas, ressalta as variantes que deve considerar no seu planejamento de ensino e os meios para interagir com elas.

Todavia, a competência do professor está em superar gradativamente essa realidade e dar ao aluno uma formação compatível com o mundo moderno, remetendo à escola o seu caráter formal. É evidente que a preparação do professor tem reflexo na aprendizagem. Ele precisa mostrar qualidade, atualizar-se.

Uma das maneiras de conhecer o aluno é trocar informações com ele. Nessa troca, o professor não pode considerar, apenas, o seu saber, mas, também, o saber do aluno. Não fecha o conhecimento, não se coloca como o “detentor do saber”, ao contrário, abre-se para outras culturas, as pluriculturas, que, mesmo diferentes da sua, são igualmente válidas. É uma troca onde se transmitem e se recebem informações. Tem que “aprender a aprender”, como enfatizou o nosso Paulo Freire, saber interpretar as múltiplas linguagens, as falas heterogêneas, na constatação de que o saber é uma viagem, não um porto.

A troca é democrática, forma o aluno para o diálogo. Democracia é treino. A parceria, a troca, são canais, por vezes, difíceis, que demandam tempo, mas que precisam acontecer.

Traçando o perfil do aluno, valorizando sua história, obedecendo a estrutura do pensamento – as fases específicas do desenvolvimento mental delineadas por Jean Piaget – o professor terá um aluno interessado, participativo, com um desempenho que irá, indubitavelmente, do grau bom ao excelente.

Um outro aspecto a ser considerado nessa linha de atuação é não se utilizar do saber como fonte de poder: o professor detém o poder porque é aquele que sabe, o aluno aquele que não sabe. O saber, embora tenha o seu peso, não pode ser o determinante do poder. O poder não pode estar monopolizado, restrito a uma pessoa ou a um pequeno grupo, mas estender-se a todos os membros da parceria; um poder compartilhado, do aluno para o professor, do professor para o diretor, da comunidade para a escola e vice-versa, onde todos devem ter voz e vez. Um poder que ressurge do grupo, nunca imposto de cima para baixo. Isso, desde a colocação de procedimentos disciplinares, dos limites, os quais deverão ser elaborados, analisados com os alunos, antes de serem adotados, até a escolha de cursos que serão ofertados pela escola.

A opção, hoje, não é pela disciplina do silêncio, mas pela disciplina do diálogo, que conscientiza e, por isso mesmo, favorece o compromisso, a cumplicidade, a vontade de acertar. Desemboca na educação libertadora.

A educação libertadora contempla o construtivismo, faz do aluno o agente e o centro da aprendizagem. No desenrolar de seu processo, o aluno, ao ser encorajado e valorizado em sua fala, libera o seu eu, caminha para a criatividade, para o espírito crítico, atingindo autonomia de expressão. É a pedagogia de um saber que resulta da observação, da pesquisa, da experimentação, do fazer e que, através desses passos, chega, criticamente, ao saber acumulado pela humanidade. Não se quer um aluno acrítico, acomodado, mas um indivíduo crítico, participando da transformação do mundo.

Ao pensar criticamente, o aluno vai aprendendo o sentido específico das palavras, o sentido, por exemplo, de liberdade, dos limites que se impõem para conquistá-la, diferenciando-a de libertinagem, de atos libertinos. A educação libertadora prioriza o ser pensante, o ser capaz de ousar para, no amanhã, enfrentar, com coragem, os desafios inerentes à própria vida.

Atuar profissionalmente, de modo a não sufocar a semente plantada, a regá-la, a arejá-la e no seu desabrochar poder dizer: “Eu fui, apenas, o jardineiro; a flor já estava lá”, é a grande realização do professor.

* Extraído do site www.izabelsadallagrispino.com.br

ALFABETIZAÇÃO DE ADULTOS E DE CRIANÇAS

Izabel Sadalla Grispino *

A competência profissional é fator de sucesso em qualquer setor da atividade. Há anos, a fala governamental se dirige aos analfabetos adultos, na pretensão de eliminar o analfabetismo, programando-lhes passaporte para a escrita e a leitura.

Mas, os analfabetos continuam e cada vez mais em número crescente. Acontece que os programas governamentais partem de um pressuposto falho. Acha o governo que qualquer pessoa que saiba ler e escrever pode alfabetizar um adulto. O adulto, já cristalizado em seus hábitos, quer por vergonha, quer por falta de tempo, quer por medo de não conseguir aprender, reluta em se alfabetizar. Acaba por desistir. Muitos já tentaram sem sucesso e chegam a se considerar incapazes, sem inteligência.

Alfabetização de adultos não é mera obra de voluntários, mesmo que tenham boa vontade. Sem o sentido de profissionalismo, sem o devido preparo pedagógico para entender as bifurcações que levam à alfabetização, não chegarão lá. Pelo fato de o adulto ter alcançado a última fase do desenvolvimento cognitivo, capaz de raciocínio, de abstração, de reversibilidade, o processo do conhecimento não é tão simples. Esse adulto não foi estimulado na fase própria da aprendizagem, tem a inteligência pouco trabalhada e, quase sempre, interiorizado um sentimento de incompetência, de vergonha, quando não, de culpa por não saber ler.

Aí é que entra a força da didática centrada na formação do alfabetizador. É preciso capacitação específica para alfabetizar. Um professor que leciona em cursos mais avançados e que nunca alfabetizou, não recebeu treinamento nessa área, vai ter, inclusive, dificuldade em alfabetizar. Na formação do professor, reside o maior entrave para os cursos de alfabetização de adultos. Um professor, com conhecimento em alfabetização, saberá conduzir, facilitar o aprendizado e passar estímulo, para que o aluno continue aprendendo pela vida afora.

A LDB impõe a necessidade do curso normal superior como formação mínima para o exercício do magistério na área de educação infantil. O professor precisa ter uma boa formação para não atropelar o processo de desenvolvimento da criança e conduzi-la, com serenidade, à aprendizagem. Vários são os métodos adotados, porém, em todos, o atendimento individual, a observância da autonomia na aprendizagem, a participação ativa da criança na construção do conhecimento, são procedimentos comuns a todos. Privilegiam os métodos ativos que mantenham uma interação fecunda professor/aluno.

O socioconstrutivismo tem sido um dos métodos mais praticados nas escolas. Emília Ferreiro é o ponto de partida da orientação socioconstrutivista, que se encontra mesclada pelas linhas básicas de pensamento de  teóricos, que defendem uma visão integrada do desenvolvimento humano, como Jean Piaget e Lev Vigotsky. Vigotsky atuou mais na área da psicologia e da neurologia. Piaget descobriu que as crianças não pensam como adultos, têm sua própria ordem e sua própria lógica. Para a pedagogia tradicional, elas eram como “recipientes” a serem preenchidos com conhecimentos. Piaget demonstrou que as crianças são ativos construtores do conhecimento. Para ele, o conhecimento resulta da interação entre o sujeito e o mundo. Mundo em que o sujeito não é passivo e o conhecimento não é cópia, mas construção ou elaboração do mundo, é “assimilação da realidade”. O sujeito e o conhecimento se constroem. Para haver aprendizagem não basta a transmissão da informação por mais competente que ela seja, como fazia a escola tradicional. É o sujeito quem, fazendo relações, associando o novo ao já conhecido, vai construindo o conhecimento, segundo a sua estrutura de formação. Piaget procurou decifrar as fases do desenvolvimento mental. A criança é um ser que interage com a realidade e assim forma suas estruturas mentais. É referência obrigatória.

O método Montessori, criado pela médica italiana Maria Montessori (1870-1952), iniciou-se com o desenvolvimento de técnicas para ensinar crianças excepcionais. Parte do pressuposto de que a criança é dotada de infinitas potencialidades e é capaz de autocrescimento. Seu método foi chamado de "Escola do Silêncio”, por estimular a concentração, a introspecção e a integração social. As atividades são propostas levando-se em consideração as peculiaridades da criança. Na relação professor/aluno, as atividades são sugeridas e orientadas, deixando que a própria criança se corrija.

Um outro método que vem ganhando espaço é o Waldorf, também chamado de antroposófico. O nome Waldorf surgiu pelo fato de as primeiras alunas de seu fundador, o alemão Rudolf Waldorf (1861-1925), serem funcionários da fábrica Waldorf Astoria, na Alemanha. O método trabalha a criança conjuntamente no seu desenvolvimento físico, social e individual. As turmas se dividem por faixa etária e não por série. Não há repetência e a relação da escola com os pais é muito grande. Evita-se o máximo a troca de professores, que devem acompanhar a mesma turma por um período de 7 anos.

Essa pequena explanação elucida o quanto o professor deve conhecer, estudar, praticar, para exercer, em bom nível, a alfabetização.

A alfabetização de adultos atingiria o seu objetivo se pudesse contar com professores preparados para esse fim, como já se faz com a alfabetização das crianças.

* Supervisora de ensino aposentada.         
(Publicado em fevereiro/2004)

TECNOLOGIA AVANÇADA NA PROTEÇÃO DAS ESCOLAS

Izabel Sadalla Grispino *

Ainda, sob o prisma da delinqüência juvenil, abordada nos dois artigos anteriores, há um outro aspecto revelador do comportamento atual da juventude: o aumento do número de jovens de classe média, resvalando, inclusive, para a classe média alta, que pratica infração, principalmente, contra o patrimônio. Esse dado foi evidenciado pelo estudo “O Adolescente na Criminalidade Urbana de São Paulo”, feito pelo Núcleo de Estudos da Violência (NEV), da Universidade de São Paulo, realizado em fins de julho do ano 2000.

O promotor da Infância e da Juventude, Wilson Tafner, constatou que as causas do comportamento desses jovens são o uso de drogas, o consumismo e a desestruturação familiar. São jovens com escolaridade média – ensino fundamental ou médio – financeiramente bem situados e que se infiltram na delinqüência praticando crimes graves. “Antes eles apareciam por dirigir sem habilitação e, agora, como autores de agressão”, disse o coordenador do estudo realizado pelo NEV, Sérgio Adorno.

O estudo apurou, ainda, que é cada vez maior o número de adolescentes que atua em bandos, dificilmente isolados e o pior é que são recrutados por adultos para atividades criminosas. O estudo do NEV ajuda a derrubar a tese de que o menor infrator é de rua. A maioria tem família e boa parte mora em casa própria, diz o procurador Antonio José Leite

O estudo do NEV levantou dados sobre menores infratores com idades entre 12 e 18 anos e mostrou que vem diminuindo, entre eles, o número de analfabetos e aumentando o número com escolaridade média. Essa pesquisa traz à tona a reflexão sobre a necessidade de se concretizar a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos.

Sobre o aspecto violência, vejamos uma experiência específica, relacionada à escola. Em meados de 1998, houve no Anhembi, em São Paulo, o “Congresso Educador 98”. Dele participou, como palestrante, o professor Peter Lucas, PhD em Educação, da Universidade de Nova York. É autor de uma pesquisa sobre “Segurança e Redução da Violência Escolar” em uma das mais conturbadas instituições de Nova York – a Bushaack – no bairro do Brooklyn, onde estudam exclusivamente afro e hispano-americanos. É, também, coordenador de pesquisa similar em outras dez escolas.

Iniciou a palestra constatando que projetos para reduzir a violência nas escolas envolvem altas somas em dinheiro e são baseados em tecnologia: detectores de metais, alarmes, contratação de guardas de segurança e outros. “O investimento em segurança é uma bola de neve, faz-se necessário financiar a modernização dos equipamentos e a permanente capacitação dos seguranças. Hoje, existem mais guardas nas escolas de ensino médio (high school) nova-iorquinas do que em toda a cidade de Boston”.

Há uma cultura de violência que acaba interferindo no processo educacional. Sob tensão é difícil haver aprendizagem. A proposta de se avançar na prevenção à violência, com mecanismos de segurança, o que tudo indica, não tem volta, diz Peter Lucas. Contudo, a violência, especialmente nas escolas, precisa ser discutida, trabalhada com os alunos, conscientizada e não simplesmente combatida. O que se verifica é que a opção pela tecnologia, para combater a violência, afastou os professores do cotidiano dos alunos, especialmente das atividades feitas fora de classe, que passaram a se concentrar apenas no conteúdo pedagógico. O professor acabou por desvincular-se do aluno, não conhece sua família e não sabe como ele vive.

É muito importante, frisou ele, no combate à violência escolar, o estreitamento das relações professor-aluno e, no caso do Brasil, a formação de escolas pequenas. A escola precisa educar para a contra violência, aproximar-se da comunidade, caminhar na direção da conscientização, porque os índices de violência continuam crescendo, apesar dos modernos equipamentos instalados nas portas das escolas e, também, no seu interior. Faz-se necessária uma interação entre escola e família, entre escola e comunidade.

Esse postulado vem de encontro às orientações emanadas pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), quando fala na elaboração de currículos flexíveis, diversificados, adaptados à comunidade; currículos que se aproximem da vida dos alunos, que trabalhem o seu cotidiano, que reflitam a sua realidade. Essa aproximação ajuda no entendimento do comportamento anti-social e na busca conjunta de soluções. É a escola exercendo seu papel de agente ativo de prevenção.

Meditem comigo, nesse meu soneto:

A TRANSFORMAÇÃO DA ESCOLA

A escola onipotente, soberana,
Distanciada da comunidade,
Com sua linha autoritária, espartana,
Deitou pra morrer, caiu em fragilidade.

A escola, hoje, abriu suas portas,
Conjugou saber culto e popular,
À sociedade emite respostas,
Ao cotidiano visa postular.

Desceu do seu régio pedestal,
Se aproximou do aluno, da família,
Vivendo a realidade social.

Papel transformador da sociedade,
Função de aperfeiçoar, ser solidária,
A escola aposta na criatividade.

 

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em janeiro/2001)

A DIDÁTICA DA SENSIBILIZAÇÃO

Izabel Sadalla Grispino *

A didática para a modernidade leva o aluno a vivenciar as situações de aprendizagem. A teoria é porta aberta para a prática. Diferentemente do passado, o ensino, por exemplo, de música, antes das notas musicais, é dirigida à sensibilidade do aluno. Nas aulas de iniciação musical, a criança aprende a sentir e a entender um pouco mais sobre música. Ao invés de decorar as notas musicais, como sempre se faz tradicionalmente, a criança dança ao lado dos colegas, ao som de valsas, sambas, ritmos populares, folclóricos. Aprende a identificar o som de cada instrumento e se diverte ao tocá-los. Mais tarde irá estudar as notas musicais.

As crianças aprendem, na iniciação musical, a escutar e a apreciar a música, preparando-se para no futuro ser admiradoras de música,  quando não músicos. Isso significa ir além do ensino das notas musicais.

As crianças ficam em contato com músicas diferentes, de outras culturas, diferentes ritmos e têm plena liberdade para escolher o que querem. Vão, aos poucos, adquirindo consciência musical e desenvolvendo a criatividade.

O estudo pela música deve se iniciar cedo, logo na Educação Infantil. Grandes gênios da música começaram ainda pequenos. O austríaco Wolfgang Amadeus Mozart começou a mostrar seu talento musical aos 5 anos de idade, quando criou suas primeiras composições, para o espanto de sua família. Seu primeiro instrumento foi o cravo. O alemão Ludwig van Beethoven começou a tocar piano muito cedo e aos 11 anos já tinha composto suas primeiras sinfonias. O alemão Johann Sebastian Bach começou a tocar órgão aos 10 anos. O austríaco Johann Strauss começou a tocar violino ainda pequeno. É conhecido como o pai da valsa.

O brasileiro Heitor Villa-Lobos foi um dos mais importantes músicos de sua época. Começou a tocar clarineta aos 12 anos e aos 15 já tocava violoncelo e violão.

No processo moderno de ensino, despertar o gosto pela música, descobrir vocação começam por um processo bem mais divertido: vivenciando, saboreando a própria música.

Diferentes procedimentos pedagógicos, dependendo do assunto, fazem a teoria virar aula prática. Exemplos de criatividade não faltam para dar à matéria tratada um significado tangível, quase palpável. Uma determinada escola, ao querer passar aos alunos noções sobre o meio ambiente, sobre sua preservação e sua degradação, idealizou um projeto Barco Escola. Estudantes do ensino fundamental são levados, pelos professores da área, a passear de barco por rios, de preferência, poluídos. Passam a conhecer de perto espécies de fauna e flora da região, observando piranhas e plantas aquáticas. Percebem a relação de causa e conseqüência, sentindo responsabilidade pela ecologia.

Esse passeio de barco não só desenvolve a comunicação, o comportamento social dos alunos, como complementa prazerosamente o aprendizado teórico da sala de aula. O aluno,vivenciando a problemática ambiental, sensibiliza-se e passa avante, como um alerta, despertando a conscientização da comunidade.

Em todas as áreas do conhecimento são pensadas atividades que levam os alunos a desenvolver conceitos, observando-os na prática. A iniciação, por exemplo, ao hábito da leitura surte bem mais efeito quando a criança participa ativamente da leitura em conjunto. Nas rodas de leitura, o professor lê, em círculo, conjuntamente com as crianças. Os livros são lidos com paradas para comentários, reflexões. Quando a criança julgar necessário, durante a leitura, ela externa sua opinião, pede esclarecimentos, tornando a leitura movimentada, dialogada.

É bem mais suave e interessante a  leitura integrada. O aluno não precisa se isolar ou ler por obrigação. Outra maneira de conquistar a criança para a leitura, de sensibilizá-la para os livros, é a já consagrada “hora do conto”. São leituras participativas, vivenciadas em suas histórias, na companhia de todos da classe.

Segundo divulgação da mídia, o professor terá, no próximo ano, no ensino fundamental uma grande ferramenta pedagógica, capaz de incentivar a pesquisa e a prática do ensino, qual seja, o computador portátil: o laptop. Todos os alunos da rede pública terão um laptop, um computador que será como um livro que eles possam trazer para a escola e levar para a casa, levá-lo em todos os lugares. Destinado ao aluno carente, toda a família poderá partilhá-lo, incorporando-o à sua realidade.

O laptop fará parte do cotidiano do aluno e não apenas de uma experiência feita na escola. Ele será conectado à rede, quando a criança pode buscar e trocar informações ou ver seu trabalho publicado na internet. A criança vai tomando contato com a sociedade da informação, preparando-se para o novo mundo de trabalho nessa sociedade.

A escola, hoje, prima por um aprendizado que se constrói e o computador é um grande caminho dessa construção. Um caminho para o aluno vivenciar conceitos, entrar em contato, de modo abrangente, com aspectos do conhecimento, colocando-se, gradualmente, na sociedade de informação, que se consolida firmemente.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em dezembro/2005)

SENTIMENTOS DE FAMÍLIA

Izabel Sadalla Grispino *

No dia 27 de abril p. passado, numa bonita festa de confraternização, que reuniu os membros de minha família, parentes e amigos, lancei o livro “Sentimentos de Família, Família Feres Sadalla”, minha família, Júlia, minha mãe, Feres, meu pai.

A festa foi uma homenagem, que os filhos, os genros, as noras, os netos, os bisnetos, fizeram em memória dos genitores. Na festa falou alto o sentimento de família, o valor da instituição família, sua estruturação. A festa passou o sentido de união, de fortalecimentos das atitudes de compreensão do dia-a-dia. Nos dias subseqüentes, recebia solicitações para que escrevesse sobre o propósito do livro, na esperança de que outras famílias abraçassem a idéia.

O que me motivou a escrever o livro foi, sem dúvida, o amor que tenho à minha família, aos meus amados irmãos, pela devoção, respeito e admiração à vida bonita, traçada pelos meus pais. Disse eu, no momento do lançamento do livro: “Felizes os filhos que, como nós, podem exaltar, com louvor, a vida dos pais, render-lhes tributo de amor, de reconhecimento pela luta honrosa travada, pelo brilho das vitórias, pelo exemplo dignificante deixado”.

O exemplo dos meus pais, legado aos filhos, determinava a sua trajetória. “Ensina-se bem mais pelo exemplo que pelas palavras”, alertava-nos Rui Barbosa. Hoje, temos a graça de sermos uma irmandade unida, confraternizada por laços de amor, de consideração. Somos amigos, cúmplices, parceiros. Juntos choramos, juntos sorrimos.

No momento da festa, meio à alegria do convívio amigável de todos, lágrimas, na alma, rolavam por uma ausência muito doída, ausência de um irmão querido, do médico José Sadalla, que partiu cedo, deixando um vazio nos nossos corações. José, à semelhança do pai, deixou uma imagem consagrada nos corações de todos que o conheceram, de todos que partilharam de sua amizade, de sua competente medicina. Era um grande estudioso, punha na ciência o prumo de seu barco, mas não se descuidava de Deus. Dr. José Sadalla não deixou que o sonho se apagasse de sua alma. Ele foi, inclusive, um grande orador, tinha a alma de poeta, declamava com enlevo, com sentimento. Se vivo estivesse, estaria, na festa, dividindo comigo o palco das saudações, dos agradecimentos.

Aliados a esses sentimentos peculiares, tocou-me como seria salutar motivar, incentivar o amor à família, através de sua história, ilustrada por fotografias, do seu uso, costumes e crenças. O homem, ao preservar a sua história, a história de seus  pais, está preservando a linhagem, dando-lhe estrutura. Família é a coisa mais séria e a mais bela a se conservar; é o maior patrimônio do homem, sua maior riqueza. Família estruturada é o melhor plano pedagógico, a mais significativa estratégia para se educar bem os filhos. Ela se encarrega de dar o suporte emocional, moral, de passar valores, que vão formar o caráter, a personalidade.

Acredito na força da família. Dizia-nos Coelho Neto: “A família é o núcleo, o gérmen da sociedade. Nela é que se formam todas as virtudes e se amolda o caráter... As pátrias são agregações de famílias e, quanto mais virtuosos os lares, que são elos, mais forte será a cadeia da nacionalidade”. O homem feliz no seio da família expande essa felicidade para o mundo. O homem infeliz na família não encontrará felicidade em parte alguma.

Um livro de família encontra ressonância no seio dessa família. É sentimento para sentimento. Ele é feito para as gerações presentes e para as gerações futuras, que nele se encontrarão com suas raízes, conhecerão suas origens, na caracterização de sua árvore genealógica. Pertencer é tão importante quanto comer ou respirar, nos fala a psicanálise. A família é nossa identidade, nossa estrela-guia nos caminhos da vida.

No livro que lancei, a professora se fez presente. Fiz uma divisão didática, dividi-o, em capítulos, por assunto. No 1.º capítulo está a Apresentação, o Prefácio e a biografia de meus pais, com o título: “Espelho da alma, Júlia e Feres”;

no 2.º capítulo: “A vida religiosa da família”; no 3.º capítulo, “O médico José Sadalla”; no 4.º capítulo, “Aspectos da vida em família”; no 5.º capítulo, “A Irmandade”, ou seja, a 1.ª geração; no 6.º capítulo, “A 2.ª geração, os netos de Júlia e de Feres” e as minhas considerações finais.

Que outras famílias, a exemplo da minha, reunam suas lembranças, suas fotos, leguem às suas gerações as histórias dos antepassados, dando sentido à vida familiar, formando a sua estrutura. Que propiciem aos descendentes se unirem e se fortalecerem em torno do tronco comum, do cerne formado.

Transcrevo, a seguir, uma das minhas poesias contidas no livro:

FAMÍLIA  UNIDA

Família de fé é família unida,
Divide o pão, abraça compreensão,
Percorre com amor a longa jornada,
Programa coletiva construção.

Um só graveto se quebra num chute,
Um feixe resiste a contramão,
Força dupla afugenta o embuste,
Torna-se trave na corporação.

Uma casa construída em várias mãos
Tem a solidez do barro do João,
Deixa longe o frio dos esquimós.

O sonho só se torna realidade,
E ganha auspiciosa veracidade,
Quando junto ao eu se encontra o nós.

 

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2002)

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Izabel Sadalla Grispino *

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