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Artigos Educacionais

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MUNICIPALIZAÇÃO DO ENSINO

Izabel  Sadalla  Grispino *

É época de eleição. Educação é, sem dúvida, o grande alvo, o grande discurso. Num recente debate entre candidatos, abordou-se o tema municipalização do ensino. Abriu-se espaço para interpelações, espectadores querendo se esclarecer sobre o ensino municipalizado. Achei oportuno escrever a respeito, esclarecer o prezado leitor, inteirá-lo melhor sobre o assunto.

O que é a municipalização do ensino? Quais suas bases de sustentação? Por que municipalizar, também, o ensino fundamental?

A educação pública é dever compartilhado entre as entidades políticas: federais, estaduais e municipais. A Constituição da República diz: “A educação é direito de todos e dever do Estado”. Estabelece que o “acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público subjetivo”.

A nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), definindo responsabilidades, diz que “os municípios deverão oferecer a educação infantil em creches e pré-escolas e, com prioridade, o ensino fundamental”; os Estados encarregar-se-ão de “assegurar o ensino fundamental e oferecer, com prioridade, o ensino médio”. Portanto, é obrigação cumulativa dos municípios e dos Estados pelo ensino fundamental, devendo haver, entre eles, coordenação, compromisso político, ajuda financeira e assessoria técnica dos Estados aos municípios.

EMENDA CONSTITUCIONAL N.° 14 – A ajuda financeira ficou definida com a aprovação pelo legislativo da Emenda Constitucional n.° l4, em setembro de 1996, a qual passou a ter efeito em janeiro de 1998. Essa emenda reafirma a necessidade de Estados e municípios cumprirem os dispositivos da Constituição de 1988, ou seja, de aplicar 25% de suas receitas de impostos na manutenção e desenvolvimento do ensino e obriga ambas as instâncias a colocarem 15% desses recursos no ensino fundamental, onde se encontram 80% dos alunos. O restante devendo ser empregado na educação infantil, em creche e pré-escola.

A Emenda Constitucional n.° 14 obriga, assim, o poder público a dar prioridade à educação obrigatória de 8 anos. Essa legislação disciplina gastos e impede que as administrações apliquem parte dos recursos educacionais nos níveis que desejarem.

FUNDO DE DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL E VALORIZAÇÃO DO MAGISTÉRIOEm cada Estado, a Emenda Constitucional n.° 14 cria um fundo, aprovado em dezembro de 1996 , “Fundo de Desenvolvimento da Educação Fundamental e Valorização do Magistério” (Fundef), denominado “fundão”, que vai viger por 10 anos. O “fundão” possibilita solucionar desequilíbrios entre localidades, permitindo que os recursos caminhem direto para quem realmente investe na educação fundamental. Por exemplo: uma cidade rica, com muitos alunos em escolas estaduais e poucos em estabelecimentos municipais, tem seu excedente transferido para cidades sem recurso tributário suficiente para manter as escolas do próprio município. A partir de 1.° de janeiro de 1998, Estados e municípios passaram a receber dinheiro de acordo com o número de alunos matriculados no ensino fundamental. O fundo privilegia Estados e municípios que têm escolas de ensino fundamental. Estes receberão a maior parcela em detrimento dos que não oferecem este nível de ensino.

O “fundão” é um fundo de natureza contábil, instituído em cada Estado e no Distrito Federal, através do qual passarão a ser distribuídos os recursos para o ensino fundamental. É constituído de 15% das receitas do ICMS, dos Fundos de Participação dos Estados e dos Municípios e do IPI-Exportação. O dinheiro irá para o fundo estadual e será distribuído em cada Estado e para seus municípios proporcionalmente ao número de alunos matriculados na rede de ensino fundamental. A Emenda Constitucional n.° 14 define, também, que 60% dos recursos do fundo deverão ser destinados exclusivamente ao salário dos professores que estejam trabalhando em sala de aula, daí o nome “Valorização do Magistério”.

O governo federal vai participar apenas nas localidades onde a união de recursos estaduais e municipais não for suficiente para garantir a aplicação mínima por aluno estabelecida anualmente. Neste caso, o governo federal complementará o fundo para que seja atingido o investimento mínimo.

ENCAMINHAMENTO DA MUNICIPALIZAÇÃO – a municipalização iniciou-se lenta, muito questionada. O censo preliminar de matrículas, realizado na 2.ª quinzena de novembro de 1998, mostrou que menos de 20 cidades do Estado de São Paulo receberam verbas do fundão. A maioria dos municípios teve de repassar dinheiro ao Estado, por não manter rede de ensino fundamental. Segundo números do Ministério da Educação (MEC), poucos municípios paulistas, além da capital, receberam dinheiro transferido do Estado para investir no ensino fundamental no ano de 1999. O governo estadual ficou com a maior parte do dinheiro do Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério, por assumir mais de 80% dos alunos do ensino fundamental. A maioria dos municípios, por não possuir esse ensino, teve de transferir receita aos cofres estaduais.

O fundo, criado pelo MEC, redistribui parte das receitas de Estados e municípios pelo número de matrículas em cada uma das redes de ensino. Pela matemática do fundo, perderão mais aqueles municípios com arrecadação alta que não mantiverem rede de ensino fundamental, como aconteceu com São Bernardo do Campo. Mesmo cidades com escolas municipais podem ser obrigadas a transferir recursos se o número de matrículas for muito pequeno em relação à arrecadação de impostos.

Ainda, hoje, sob esse aspecto, há resistências. Todavia, a municipalização do ensino fundamental, se bem conduzida, se bem assistida, pedagógica e financeiramente, só poderá trazer benefícios. Representa uma descentralização na gestão e enseja gestão colegiada na administração do processo educacional. A administração mais próxima da escola favorece a comunicação e a pressão por uma melhor escolaridade. Cria maior intercâmbio entre prefeitura, comunidade e escola, facilitando a participação dos pais e da comunidade em tarefas de cooperação e de fiscalização. A municipalização pode harmonizar o atendimento técnico e o atendimento humano, sem prejuízo um do outro.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2000)

CULTURA E FÉ

Izabel Sadalla Grispino *

Após a encíclica “Fides et Ratio”, do papa João Paulo II, o tema da razão e da fé tem suscitado as mais diversas discussões, nem sempre com a imparcialidade desejada. Por isso, o arcebispo Dom Cláudio Hummes achou por bem criar, na Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), um núcleo de estudos que denominou “Cultura e Fé”.

Já na reunião inaugural, eminentes professores da área, como Paulo Nogueira Neto e Ana Lydia Sawaya, mostraram que os primeiros habitantes da Judéia, que há milhares de anos receberam a mensagem revelada do gênese, apesar do nível de seu analfabetismo científico, sabiam que o universo fora criado pelo “Big Bang” (“Fiat lux”). Conheciam, também, todos os fenômenos que deram conformação ao nosso planeta, ao longo dos 5 bilhões de anos, anteriores ao aparecimento do homem (águas, terras, plantas, peixes, animais) na incrível ordem que a ciência veio a revelar posteriormente e tal como estão descritos na Bíblia (nos 6 dias da Criação). Só após centenas e centenas de anos, veio a ciência confirmar o que os primitivos povos, sem noção de ciência, já sabiam por revelações. Foi ainda, mostrado, nesse núcleo de estudos, a previsão de São Pedro sobre o fim dos tempos. São Pedro, que não era especialista em astronáutica ou nas ciências siderais, em sua segunda carta, declarara que nos fins dos tempos a Terra será abrasada e consumida pelo Sol (elementa vero calore solventur), antecipando a tese de Carl Sagan, em seu livro “Cosmos”, que dá essa previsão como a mais provável, no momento em que o Sol explodir, daqui a uns 5 bilhões de anos, atingindo os planetas mais próximos (Mercúrio, Vênus e Terra), até se transformar numa estrela anã de densidade incomensurável. Tudo confirma não haver choque entre fé e ciência, antes, a ciência, por vir sempre atrás da fé, acaba por confirmar as verdades por ela reveladas.

Toynbee, em “Mãe Terra”, lamentava não poder dizer aos aficionados da razão, aos que querem crer que a razão pode tudo explicar, que Deus não existe. Quanto mais o homem evolui, mais percebe que suas verdades absolutas, em matéria de ciência, são relativas e, em grande parte, desmentidas posteriormente com novas descobertas, porque uma verdade científica só é valida até o momento em que se demonstra o contrário, por novos fatos supervenientes. A própria teoria da evolução de Darwin está hoje em pleno reexame científico, com as novas teorias fundamentadas na conformação do DNA, principalmente a partir do mapeamento genético.

Ainda para confirmar as verdades da fé, refletiremos um pouco sobre a vida de Jesus. Há, por exemplo, evidencias na vida de Jesus que não se podem contestar: Jesus era pobre, uma pessoa sem posses. Não era político, não tinha cargo público, não era um chefe de Estado, como Maomé. Comunicava-se em essênio, um idioma pouco conhecido; não deixou livros, nem sequer uma doutrina sistematizada, um texto básico, para o qual os apóstolos pudessem se servir a fim de propagar as suas mensagens. Três apóstolos, Lucas, Marcos e Mateus, se propuseram a registrar tudo o que testemunharam e através de seus relatos reconstitui-se a vida de Jesus. Ainda, os Evangelhos foram escritos de 40 a 80 anos após sua morte.

Porém, quem mais contribuiu para disseminar as idéias de Cristo, o cristianismo, foi um judeu de cidadania romana, que nem sequer conheceu Cristo pessoalmente. Chamava-se Saulo, era da cidade de Tarso. Numa viagem a Damasco, no ano 35, teve uma visão, na qual Jesus o chamava para reunir-se aos seus. Isolou-se por três anos, mudou o seu nome para Paulo, foi a Jerusalém e conheceu dois apóstolos, Pedro e Tiago. Fez quatro longas viagens evangelizadoras pelo mundo antigo e foi o principal pregador da fé cristã, a principal figura do cristianismo. Ele tomou os ensinamentos de Jesus compreensíveis por todos os povos.

A história conta que na cidade de Atenas teve uma grande desilusão. Pregando para um povo culto, adepto da racionalidade e da lógica, Paulo procurou adaptar o seu discurso pregando a existência de Deus e de Cristo, com métodos racionais. Os gregos não aceitaram e o vaiaram. Esse não era o caminho. Após muito refletir, sentiu a revelação da verdadeira mensagem cristã: Deus não precisava de uma doutrina lógica, seus desígnios não penetravam os humanos pelo corpo, mas, sim, pela alma. Explicações eram desnecessárias. Ele fazia revelações. Assim, para a crença cristã não há necessidade de comprovação científica, ela se apoia em uma revelação, em uma fé, que vai além da dimensão racional.

As limitações da ciência mostram a harmonia que deve existir entre ciência e religião. Essas constatações de fé e razão nos confortam, fortalecem a convicção. Imaginem o quanto é importante levar essas conclusões aos jovens, aos que estão com a alma em formação! No dia em que os jovens conhecerem realmente essas premissas básicas, certamente, se voltarão bem mais a Deus e, isso acontecendo, a possibilidade de uma reversão do comportamento social é bem mais promissora. A escola, os pais, a comunidade precisam investir nesse caminho.

Minha fé levou-me a fazer estes versos:

 

DEUS, ESSÊNCIA DA VIDA

A vida só tem sentido voltada a Deus,

Toda obra só se completa no Ser Sagrado,

Quanta agrura se inscreve até o último adeus!

Quanta esperança naufraga em barco furado!

No decurso da vida só há uma saída:

Alimentar os dias com a força do amor,

Acreditar no Encontro após a partida,

Deus é, desse turbilhão, a luz do esplendor.

O homem se empolga e se encaminha pela ciência,

Mas, mesmo a ciência sem fé é vazia,

Ilustra, mas não traz vital sabedoria.

Só as coisas do espírito têm consistência,

Podem não ser inteiramente racionais,

Mas, pra realização do homem, são essenciais.


* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em maio/2001)

 

 

ENSINO RELIGIOSO

Izabel Sadalla Grispino *

Os caminhos conturbados, que cercam a juventude atual, levam as escolas a pensarem seriamente na abordagem do ensino religioso. Não é o ensino da religião em si, mas do sentido de religiosidade, de educar para o bem, para o amor, no caminho da solidariedade.

Dentro do respeito à diversidade religiosa, sem ferir os princípios constitucionais de liberdade de credo, colocar a presença de Deus na vida da criança é importante.

O ensino religioso já existe na rede estadual do Estado de São Paulo, apenas na 8.ª série, desde 2002. Não tem caráter obrigatório, os alunos, com seus pais, decidem se vão ou não participar das aulas. O conteúdo das aulas não é confessional e trata da história das religiões, dos pontos em comum entre elas e do sentido de tolerância. Segundo a Secretaria Estadual da Educação, os professores de história, filosofia e ciências sociais estão habilitados para dar a disciplina.

O ensino religioso é previsto pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) de 1996. O conteúdo da disciplina deve ser oferecido de acordo com as preferências dos alunos ou de seus responsáveis. A LDB permite que as aulas sejam confessionais ou  interconfessionais.

No Estado do Rio de Janeiro, os alunos, desde 2004, no governo de Rosinha Matheus, são separados por credo, para receber ensino religioso. Contratam-se professores para ensinar as doutrinas católica, evangélica, espírita, umbandista e messiânica.

A religião abre um vasto caminho em direção à espiritualidade. Ela alcança a educação da alma, da formação do caráter, dá ao homem a dimensão superior da existência. Embora sejamos dotados de fé católica, não importa a que religião pertencemos, a que Deus nos referimos, o que importa é o senso religioso, que vem carregado de mensagens de amor, de justiça, de humanidade. Esse sentido, em seus atributos, prepara o ser para as virtudes essenciais do viver, estrutura a alma para os embates da vida.

Já aprendíamos com os filósofos gregos de que “a alma de toda cultura é a cultura da própria alma”. É essa cultura que vai engrandecer o ser humano, tornando-o autêntico filho de Deus, Aquele que nos ensina a olhar nossos semelhantes como irmãos. É a cultura da alma que aprofunda e humaniza o olhar da ciência, da literatura, das artes. Ela nos ensina a sermos solidários, a dividir, a somar, nunca subtrair.

É muito importante passar esses conceitos às crianças. Guardamos, no percurso da existência, o fervor religioso adquirido na infância. Nessa fase, uma vez plantadas as raízes dos bons sentimentos, da devoção a Deus, elas crescem com o organismo, se firmam e dificilmente serão abaladas.

A religião conforta-nos nos momentos de dor e nos momentos alegres, dá-nos a tranqüilidade do bom caminho. Enriquecemo-nos com seus ensinamentos, ganhamos em aceitação, em encaixe real da existência: As rosas é que são belas / Os espinhos é que picam / Mas, são as rosas que caem / São os espinhos que ficam.

Independentemente das teorias religiosas ou anti-religiosas existentes, são as luzes da alma que conduzem o ser às realizações positivas e essas luzes, seguramente, não são fruto da matéria. Essas luzes são dos nossos sentimentos, do nosso espírito, da parte inatingível do nosso ser, do nosso psiquismo, da nossa conduta e não carece de método experimental, de comprovação científica, para assegurar a sua existência.

A conscientização da educação religiosa deve partir da escola e chegar à sociedade.  O  ser  sem fé é um ser amargo, ressequido, árvore que não floresce, que se quebranta, aos poucos, antes de morrer. A própria razão nos conduz à fé, nos ensina que precisamos dela para viver melhor.

O sentimento de religiosidade é sustentação, é conforto na estrada íngreme da existência. Ele é a certeza do bom caminho que trilhará o indivíduo.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em agosto/2006)

A INCLUSÃO DIGITAL

Izabel Sadalla Grispino *

As novas tecnologias são ferramentas importantes para a escola atingir a modernidade. Contudo, o que se constata é uma forte resistência em utilizá-las, aproveitá-las, dando mais sentido à aprendizagem.

 

RESULTADOS DE AVALIAÇÕES ESCOLARES

Izabel Sadalla Grispino *

O processo de avaliação circula por todas as etapas da educação. Até 1995, com a edição do 1.º Saeb, Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica, as avaliações eram de dentro da escola – do rendimento escolar do aluno, na avaliação da aprendizagem, avaliação da atuação docente e da escola como um todo. Só a partir de então, o País começou a diagnosticar a escola de fora da escola.

Não se faz mais educação sem avaliação. As políticas públicas e os investimentos educacionais são determinados conforme os resultados das avaliações organizadas aos alunos, pelos governos. Tempos atrás, somente os professores avaliavam os alunos.

É consenso entre os educadores a validade dos resultados da avaliação para a qualidade de ensino. Se não fosse o Pisa, por exemplo, exame feito pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (Ocde), nós, brasileiros, não saberíamos que o nosso País está mal em educação, em relação aos outros países. O Pisa demonstrou que o Brasil tem um dos piores desempenhos em leitura e matemática.

O relatório global “Educação para Todos”, versão 2006, divulgado em novembro de 2005, pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), coloca o Brasil, entre 121 países, em 71.º lugar, em qualidade de educação. Revela falta de qualidade na educação e dificuldade de alfabetizar adultos. A colocação fica bem pior quando se avalia o número de crianças que chega à 5.ª série, do ensino fundamental: 85.º lugar, próximo de países africanos, como Zâmbia e Senegal.

No País existem diversos enfoques de avaliação: Saeb, hoje Aneb, o Enade que substituiu o antigo Provão, continuam o Enem e o Saresp. Foi criado, em 2005, o Encceja – Exame Nacional para Certificação de Competência de Jovens e Adultos, para avaliar os que concluíram o antigo supletivo.

Em novembro de 2005, houve a primeira avaliação do Aneb – Avaliação Nacional da Educação Básica, quando o Ministério da Educação (MEC), completando o Saeb, criou a Avaliação Nacional do Rendimento Escolar (Anresc), estendendo a avaliação a todos os alunos de 4.ª e 8.ª séries do País. Esse exame universal foi chamado de Prova Brasil. O Saeb revelou, por exemplo, que 60% das crianças brasileiras que terminam a 4.ª série não sabem ler corretamente. Mas, era uma prova feita por amostragem, revelando apenas resultados por região.

Vivemos a sociedade do conhecimento, a pessoa tem que aprender a vida toda e as avaliações medem a capacidade de aprender. Hoje, seguindo a orientação da moderna pedagogia, as avaliações não se apresentam, necessariamente, divididas em disciplinas, nem cobram conteúdo. O Pisa, o Enem, o Aneb, e outros, usam textos para medir as competências e habilidades dos alunos, em leitura e escrita, a capacidade de aplicar seus conhecimentos no dia-a-dia. Avaliam, também, resoluções de problemas e interpretação de gráficos.

As avaliações revelam não só o nível de ensino, mas características que possam melhorar a educação. Revelam, ainda, características importantes dos profissionais da educação. O primeiro Saeb indicou, por exemplo, que alunos, cujos professores eram formados em ensino superior, se saíam melhor nos exames. Avaliações feitas nos EUA, no Texas, mostraram um dado curioso: professores com as mesmas características raciais dos seus alunos têm em média melhor desempenho. Outras avaliações indicaram que escolas, nas quais diretores permaneceram por muito tempo, tinham desempenho melhor. A partir de então, as Secretarias passaram a exigir, no mínimo, dois anos no posto para os diretores.

Pesquisas vêm de encontro às avaliações e mostram que um bom diretor influi e muito no aprendizado. Quanto mais bem formado o diretor, mais eficaz a aprendizagem. Costuma-se dizer: “Diretor bom, escola boa”, ou, então, “a cara da escola é a cara do diretor”. O diretor deve ir além das tarefas administrativas, precisa interferir no processo pedagógico, promover a abertura da escola para a comunidade. Surgem projetos que oferecem cursos para melhorar o desempenho do diretor no cargo, como os projetos da Escola de Gestores, que têm revelado que alunos de escolas, cujos diretores participam dos projetos, demonstram um aproveitamento maior, em português. Obtiveram notas 18% maiores.

Não adianta capacitar só o professor, o diretor tem de entender de educação, não pode exercer apenas uma função administrativa. A ação pedagógica no trabalho do diretor é muito importante para o bom resultado da aprendizagem. Hoje, afasta-se a idéia de diretor burocrático. Ele precisa entender de liderança, entender de gestão de recursos humanos, tendo como grande desafio a construção de um projeto educacional.

Na escola, gerir é educar e o diretor é um gestor de situações educativas. Atualmente, as escolas diminuem a dependência vertical – Secretarias  de Educação – e aumentam a sua dependência horizontal, como a comunidade. A autonomia da escola é ponto essencial para o trabalho dos diretores, que precisam se capacitar para ser gestores modernos.

Avaliações constantes, autonomia pedagógica, participação dos pais nas escolas, presença de conselhos com membros da comunidade, reforçadas pela competência profissional, melhoram a qualidade de ensino.

* Supervisora de ensino aposentada.            
(Publicado novamente em fevereiro/2006)

SAUDAÇÕES AO ANO LETIVO

Izabel Sadalla Grispino *

Convidada a proferir a aula inaugural de uma escola normal, teci considerações que, hoje, trago a você professor, num gesto de atenção, desejando, num grande abraço, abranger todo o magistério desta cidade.

Março é o mês em que a escola, já organizada, dá a sua largada ritmada, rumo ao cumprimento do dever que o ano letivo lhe impõe. Fevereiro é o mês dos preâmbulos, dos planejamentos, dos acertos, dos ajustes. Então, neste momento, quero dar aos professores, ao diretor da escola e a todos os seus funcionários as boas-vindas, desejar-lhes um trabalho auspicioso, produtivo, que tenham, ao longo do ano, força renovada, alento e apoio nas sinceras e procedentes reivindicações.

Em cada grau da pirâmide educacional, o professor correspondente tem uma importância capital, formando no conjunto a gleba florida. O professor das primeiras letras, o nosso querido professor primário, é marco nessa escalada da aprendizagem. Sua importância é grande e com os avanços da psicologia genética a educação infantil firma-se e se mantém como a grande fase formadora do alicerce educacional do indivíduo.

A educação infantil está sendo cada vez mais valorizada; sua ausência repercutirá desfavoravelmente em todo o percurso escolar posterior. Cabe ao professor primário a séria responsabilidade de, ao introduzir a criança no mundo da leitura e da escrita, torná-la um estudante animado, encorajado, confiante. A postura do professor, diante da criança, é bem mais representativa que o seu próprio saber. São a atenção, o cuidado, o carinho que levam essas crianças ao bom termo final. É o amor o maior ingrediente da educação, ou como dizia Pestalozzi, seu maior instrumento.

O início da atividade intelectual tanto pode fazer do aluno um continuador incentivado ou um ser desanimado, inculcado, com vícios de aprendizagem. Esse professor será ou a escada rolante, que o conduzirá ao topo, ou o chicote, a cortar-lhe durante todo o trajeto, e a escolinha primária ou uma colméia em que se fabricam as primeiras  gotas de mel, ou um vespeiro agitando a caminhada.

Escola é um organismo vivo, acompanha a evolução dos tempos e se modifica com ela. Não é uma entidade estática; cabe a nós, professores, atualizá-la, torná-la competente para responder à altura ao mundo tecnológico dos nossos dias.

A educação moderna vem exigindo competência e dedicação crescentes por parte do professor. Manda que se atenda à realidade do aluno, da comunidade em que se insere e que, ao lado da instrução, ministre a educação. Na instrução, o aluno abrange o saber; na educação, torna-se um ser consciente de suas responsabilidades morais, sociais, religiosas, torna-se um estudante que se desenvolve nas capacidades cognitivas de caráter geral.

A orientação pedagógica pede, hoje, bem mais ao professor. Ele não pode se descuidar da educação integral, porque só ela vai ajudar o aluno a vencer as barreiras do avanço científico-cultural. O aluno bem formado nos aspectos conceituais, atitudinais e comportamentais chega por si só à informação.

Dizemos que a atuação do professor é complexa, singular, contextualizada. Complexa, porque envolve vários fatores: exigências sociais, experiências de vida dos alunos, apropriação do conhecimento, desenvolvimento de habilidades e de atitudes; singular, porque não há duas classes, dois professores ou dois alunos iguais; e contextualizada, porque tem que abordar um currículo adequado ao contexto sócio-cultural.

Vimos que escola não é só “razão instrumental”, ela está comprometida com o pensar, com as relações humanas, o pensar com os outros dentro de um contexto intersubjetivo que proporciona a autonomia dos educandos.

O que é feito com amor, com entusiasmo, produz o melhor resultado. A decadência do ensino público afeta a todos nós, a todos diz respeito. Nenhum educador fica indiferente a esse quadro empobrecido do ensino público e o que mais queremos é vê-lo prosperar, abraçar patamares que dignifiquem o magistério de nossa terra. O que mais queremos é que ele seja coroado, porque nenhuma coroa pesa mais, nenhuma significa mais que a coroa do saber. Somos conscientes de que educação não é variável isolada. Com o aumento da marginalidade, do desemprego, da exclusão social, não se pode esperar milagres da educação. Contudo, com criatividade, com espírito de solidariedade, a escola pode muito colaborar.

O professor é uma necessidade social e ele deve tomar consciência desse seu papel. Ele é, no dizer poético, “o guieiro dos filhos da Pátria”. Quanto mais elevado o grau de instrução, de educação, mais forte será a cadeia da nacionalidade. A escola, juntamente com a família, é o núcleo da sociedade. Nelas aprimoram-se as virtudes, amolda-se o caráter, que é a expressão da alma. A escola continua o lar e ambas, unidas, lutam pela formação de homens honrados, idealistas, úteis à família, à sociedade, à Pátria e a Deus.

Professor caminhe firme em direção ao saber, mas não despreze as boas normas de conduta. Cultive a alma, atue com sabedoria e eqüidade social,  influenciando toda a comunidade escolar e, em especial, seu aluno. Ninguém é grande ou pequeno pela vida pomposa que ostenta ou pela vida simples que leva. A categoria em que temos de classificar a importância dos homens deduz-se do valor dos atos que eles praticam, das idéias que difundem e dos sentimentos que comunicam aos seus semelhantes.

Que Deus e a Pátria os protejam!

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em março de 2001)

CONTEXTUALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO

Izabel Sadalla Grispino *

Um dos aspectos que vem se tornando ponto pacífico na metodologia educacional é a contextualização do currículo. A educação contextualizada vem sendo observada em todos os graus de ensino e em todas as regiões do País: o ensino aproximando-se da cultura, da região, de quem aprende. É o ensino se revestindo da identidade de seu aluno.

O currículo apresenta termos locais, como costumes, moradias, famílias, artesanatos, comércio, agricultura, literatura e outros. Os livros didáticos passam a levar em consideração características regionais, bem mais que universais.

Os educadores sabem que não se explica, por exemplo, a maré para uma comunidade de pescadores da mesma maneira que se ensina para crianças de uma região afastada de rios e de pesca. Assim, as crianças recebem material para diferentes realidades, diferentes situações.

Os livros didáticos de hoje observam região, cultura e etnias. Observam a realidade concreta do aluno, estimulando a aprendizagem. A educação contextualizada dá sentido às áreas do conhecimento. O aluno acaba entendendo o motivo de estar aprendendo determinado assunto e passa a se interessar por ele, a tomar gosto pelo estudo. A escola dessa maneira passa a usar uma boa estratégia de inclusão, aborda o preceito “conhecer para valorizar”.

Vários são os exemplos de contextualização da educação, de escolas que buscam na sua realidade idealização de projetos, que englobam aspectos sociais vividos por seus alunos. Uma escola municipal da cidade de Curitiba acolheu idéias de alunos e adotou o hip-hop, integrando-o à rotina escolar.

Alunos que apresentavam dificuldade no aprendizado, alunos que engrossavam a lista da evasão e da repetência, passaram a ser objeto de atenção por parte da escola. Eram grupos de alunos que se interessavam pela dança, eram dançarinos de rua, fugiam da escola para dançar com os colegas, nas praças do bairro. Na escola eram indisciplinados, impacientes, desinteressados, porém, na dança se revelavam exatamente o contrário. A escola, mudando de estratégia, passou a apoiar os alunos dançarinos, entender a sua dança, descobrindo belezas nesse dançar, nos movimentos de cabeça, nos contorcionismos e nas letras de seus raps, que eram uma forma de crítica social. Percebeu uma música sincronizada com os movimentos corporais. A escola deu a esse grupo o direito de ensaiar as coreografias no pátio. Eles mesmos realizaram os grafites que ilustram a escola e as camisetas do grupo.

Esses alunos ao se sentirem compreendidos em seus ideais, valorizados no seu potencial, desenvolveram auto-estima e passaram a estudar mais. Entusiasmaram-se porque sabiam que tinham um espaço e hora para dançar. Coordenar a dança com os estudos foi a grande motivação para que não abandonassem a escola e se tornassem bons alunos. Uma das cláusulas do projeto era de que só permanecia no grupo quem freqüentasse as aulas e tirasse boas notas. A música e a dança os encaminhavam para a realização também nos estudos.

A direção da escola entendeu, inteligentemente, que deveria trazer para dentro dela o que mais gostavam de fazer fora dela. A escola colocou-se com competência, utilizando-se das músicas, que privilegiam temas sociais, que combatem a discriminação, que passam ensinamento sobre sexualidade, drogas e educação, para orientar, para ensinar valores, comportamentos sociais saudáveis. O movimento hip-hop passou a ser um escudo contra o mal, contra o mundo das drogas e do vandalismo.

A escola encontrou uma forma de ajudar e de mostrar uma realidade que caminha junto com a cultura popular, extraindo dela ensinamentos gerais. O grupo de dançarinos passou a ser convidado a se apresentar em eventos da cidade, elevando o nome da escola.

Competência e motivação dos professores são fundamentais para o sucesso de suas programações, de seus projetos normais ou alternativos. O modelo de educação hoje é aquele que se aproxima do contexto escolar, modelo moderno, condizente com a realidade das cidades, onde não se pode desconsiderar os altos índices de criminalidade da infância e da adolescência, os altos índices de envolvimento dos jovens com a droga, com a violência. O aluno, na escola, aprendendo, divertindo-se e desenvolvendo suas tendências, ficará preso a ela, afastando-se das más influências da rua.

A escola contextualiza quando retrata sua comunidade, observa aptidões, torna-se solidária, participando dos problemas mundiais. Leva para o currículo assuntos de relevância social. A didática para a modernidade aborda a teoria construtivista, a teoria sócio-interacionista, que vê o indivíduo como resultante de um processo sócio-histórico, resultante do meio em que vive. Deixá-lo se desenvolver no seu meio, de acordo com seu potencial, é um de seus grandes primados.

O currículo contextualizado passa a imagem da própria vida, a aprendizagem é extraída das situações encontradas. A escola cria projetos que vão de encontro ao perfil do aluno, de suas características, despertando assim seu interesse, atraindo-o ao ensino. Ela está sempre aberta a novas táticas de abordagem. É uma escola que atua de forma integrada e responde aos anseios dos alunos, desenvolvendo suas competências e habilidades, responde aos anseios da comunidade; integra-se e ajusta-se à sua clientela.

A escola é uma instituição receptiva, não uma ilha isolada. Compartilha da vida de seus alunos, da vida social. A contextualização leva à resolução dos problemas do dia-a-dia e coloca os objetivos do ensino próximos da sala de aula.

* Supervisora de ensino aposentada.         
(Publicado em julho/2005)

EDUCAÇÃO: CONFUSÃO ENTRE ORDEM DIRETA E INVERSA

Izabel Sadalla Grispino *

Tenho em meus artigos, reiteradas vezes, chamado a atenção para o baixo nível de ensino de nossas escolas oficiais. Tenho tentado mostrar a necessidade de se desenvolver nas escolas um ensino de qualidade, único fator capaz de nivelar, de dar oportunidade de igualdade a todos os cidadãos, independentemente de cor, raça ou classe econômica. O ensino de baixa qualidade das escolas oficiais vem se traduzindo, cada vez mais, em mecanismo de reprodução das desigualdades sociais existentes. A importância de uma educação de qualidade na vida pessoal e social já foi exaustivamente delineada, em várias ocasiões.

A preocupação abrange o particular e o geral, o indivíduo e a nação. Enquanto o mundo se ilustra, países, como o Brasil, se deslustrando, acabam por cair em descrédito internacional, no estado de pobreza. Como fica o país despreparado frente à globalização? Como fica a concorrência com os países fortes, com seu povo culto, evoluído? Que patamar, no “ranking” mundial, alcançará nosso Brasil, nessa avalanche de conhecimento que toma conta do planeta?

Todos os países do primeiro mundo cultuam seus centros de excelência, que abrangem as melhores universidades. No Brasil, ao que parece, a tendência é a de desperdiçar esse potencial, eixo gerador de grandezas. Existe um projeto de lei, de autoria do senador Antero Paes de Barros, que determina a reserva de 50% das vagas nas universidades estaduais para alunos das redes públicas. Este projeto já fora aprovado na Comissão de Educação do Senado,  em caráter terminal – sem votação em plenário – por acordo entre os partidos. Na semana passada, para espanto dos educadores, a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro aprovou projeto semelhante, quase que por unanimidade; dos 68 deputados presentes, apenas um deixou de votar a favor.

Como admitir reserva de vagas por decreto, não importa a que tipo de aluno, sem um critério de qualidade, sem uma prévia avaliação do conhecimento? Que conseqüências socioculturais e econômicas advirão desse procedimento infundado? Um aluno sem boa formação terá condições de acompanhar um curso de alto nível? Ou se espera o contrário, que a universidade de desqualifique, arrebaixe seu padrão, aviltando seus critérios? Se essa última hipótese não vier acontecer, a conseqüência será o desânimo do aluno, sua desistência, seu fracasso profissional. Para atender ao perfil do novo ingressante, a universidade terá de criar programas de adequação curricular e, sem dúvida, com impacto na estrutura dos cursos.

O projeto parte do pressuposto de que só alunos das escolas particulares conseguem entrar nas universidades públicas, gratuitas, o que é absolutamente verdade. Mas, por que isso acontece? O que gera a injustiça? Dedução óbvia: a péssima formação recebida nos graus de ensino anteriormente freqüentados por esse aluno. Uma etapa vencida, num determinado padrão, gera outra, no mesmo padrão. Há coerência no trajeto percorrido.

Saltar de repente, sem base de sustentação, é se desfacelar na caída. Pulo de gato só em alpinistas sociais, em educação não funciona. O ingresso à universidade se constitui na legitimação de um processo de seleção anterior. Vamos pensar sério, agir sério, deixar a demagogia, o populismo inconseqüente. Vamos qualificar o aluno pobre, dando mais atenção, mais verba para a educação básica; vamos investir, equiparar, humana e materialmente, nossas escolas oficiais às escolas particulares, melhorando o seu ensino. Assim, não precisaremos inverter a ordem natural das coisas e dos fatos, camuflar valores, colocando a carroça diante dos bois e criando confusão entre ordem direta e inversa.

O ensino superior deve ser seletivo, deve receber os melhores preparados, na perspectiva do maior padrão possível de ensino. É preciso que os educadores se alertem, que reajam contra essa incongruência, que vai acabar no mesmo poço fundo da desigualdade social, com a agravante de arrastar junto as nossas melhores universidades.

Já se denunciou a inconstitucionalidade do projeto, quando a Constituição Federal, em seu inciso I, artigo 26, reza preceito contraditório a esse procedimento: “O ensino será ministrado no Brasil com base no princípio da igualdade de condições para o acesso e permanência na escola”. O correto é, pois, dar igualdade de condições a ricos e a pobres e deixar que as vagas sejam daqueles que as conquistarem pela competência, pelo conhecimento adquirido. Sem uma educação de qualidade qualquer esforço por igualdade social é inútil.

Não se forma uma grande nação por decreto; forma-se pelos passos que essa nação desenvolve, pelas oportunidades que cria, pelos olhares, competentes e honestos, que dirige ao desequilíbrio da balança social, buscando justiça na eqüidade. A reserva de vagas, a alunos supostamente despreparados, só faz transferir o problema para a universidade, reflete negativamente sobre o nível superior oficial, nivelando-o por baixo.

Amanhã é Natal.  A todos meus prezados leitores votos de um dia feliz, extensivos ao ano inteiro. Que os sentimentos de paz, de amor, de fé, de que é portador, permaneçam junto a nós para sempre. Este ano, o Natal inspirou-me os versos, que publico a seguir.

NESTE NATAL

Quero, neste Natal, mãos que se tocam,

Vidas que, na alma, bondade estocam,

Quero a poesia alimentando a ilusão,

Sabendo que Jesus é coração.

Do papai-noel quero ajuda à pobreza,

Crianças sem fome, sem ar de tristeza,

Que partilham da mesa farta,

Junto ao presente, a esperançosa carta.

Neste Natal não quero iguaria,

Não quero a ceia ornamental,

Nem pedras enfrentando a artilharia.

Quero a graça de ver o mundo em paz,

Criança palestina em terra natal,

O amor expulsando satanás.

 

* Supervisora de ensino aposentada.          
(Publicado em dezembro/2000)

QUEM SALVARÁ NOSSAS ESCOLAS PÚBLICAS?

Izabel Sadalla Grispino *

A cada período letivo aumenta o abismo existente entre a escola particular e a escola pública. As boas universidades, em seus bancos escolares, tornam evidentes a discrepância e a sociedade, com sua peneira, vai premiando os melhores formados.

A distância, entre o bom e o mau ensino, abrange todos os aspectos educacionais: dos conteúdos, das atitudes, dos comportamentos. O bom ensino dá uma visão ampliada e sedimentada dos assuntos e torna as faculdades  mentais  bem mais desenvolvidas.

Como se isso não bastasse, a escola particular ganha em disparada no ensino da informática, onde na pública o fosso é profundo. Enquanto a rede particular se aprimora, avança em tecnologia, a pública inicia os inseguros primeiros passos. As escolas oficiais começam a receber os primeiros computadores para a criação de suas salas de informática. As particulares montam projetos, envolvendo novas tecnologias na educação e já contam com laboratórios especializados, aulas em 3D e CD-ROMs para os alunos complementarem os estudos em casa. Incluem, em suas apostilas de matérias, um CD-ROM, que lhes permite fazer os trabalhos, com as animações, vídeos e exercícios do CD.

Os próprios alunos da rede particular, que já utilizam computadores e softwares em suas casas, exigem o uso da tecnologia na escola. As escolas buscam adaptar-se à realidade digital, vivida pelos alunos, utilizando recursos de informática e engenharia.

As grandes escolas vêm criando o Laboratório Veicular de Estudos de Aceleração e Dinâmica, uma espécie de sala de aula móvel, que vai permitir que alunos e professores vivenciem experiências do estudo da física concreta, prática e sensorial. A física deixa de ser só teoria, algo abstrato para o aluno. Durante a experiência, o professor vai relatando o que os alunos estão vivenciando.

Além do laboratório, já utilizam a Aula do Futuro, um misto de cinema, sala de aula e simulador da realidade virtual. Como se estivesse assistindo a um filme, o aluno navega, por exemplo, pelas células na aula de biologia, tendo a impressão de estar dentro dela.

Que atalhos tomar para redimir nossas escolas públicas? Experiências auspiciosas, em países avançados, vêm surgindo do mundo empresarial privado.

A concepção de organização e de administração escolar vem mudando, evoluindo para o modelo empresarial. Vêm-se firmando critérios e conceitos diferentes na área educacional. Formam-se companhias que vendem instrução de boa qualidade a preços competitivos, com ações bem cotadas na bolsa. Administram com critério empresarial privado, revertendo situações tidas como bastante precárias.

Essas empresas oferecem benefícios aos acionistas, vendendo um serviço, a educação, e entrando num mercado em que vai competir com as melhores escolas ou as melhores universidades do País. A maior arma utilizada é a qualidade de ensino. Compatibilizam os objetivos gerais da educação com as peculiaridades individuais dos alunos, mantendo forte correlação entre o que se aprende na escola e o que a sociedade quer e exige. O ensino é ministrado por um corpo docente de nível e com modernos métodos pedagógicos.

Os procedimentos administrativos são iguais a qualquer empresa sujeita à concorrência. O professor que não corresponder, que não conseguir obter o rendimento esperado, é despedido. O mesmo acontece com o reitor ou com os decanos e, também, com os alunos repetentes, indisciplinados ou agitadores.

A escola-empresa ou a universidade-empresa primam pela boa formação do aluno, pela entrega ao mercado de trabalho de um profissional preparado, competente. Vem tendo resultados animadores,  demonstrando  que, na superação do desastre educacional, os métodos de gerenciamento de mercado, separando o Estado da gestão direta das escolas, são vistos como salvadores.

A mídia tem divulgado experiências educacionais que colocam esperança no apagado horizonte da nossa educação pública. Exemplo é dado pela companhia Edison Schools, de Nova York, que organiza e administra escolas públicas ou particulares, desde o jardim da infância até o 2.º grau. A fim de manter e melhorar ainda mais os níveis de ensino, a companhia aprimora o processo pedagógico, treina continuadamente os professores, atualiza o currículo, impõe ordem, disciplina e aumenta a duração das aulas.

As escolas são mantidas com o mesmo orçamento então destinado, pelo governo, às escolas oficiais, quando eram administradas pelo setor público. O valor das verbas, o custo, não se alteraram. A diferença vem na eficiência da utilização dos recursos. A escola-empresa compete com as boas escolas particulares e ainda ganha dinheiro para dividir com os acionistas.

Os resultados conhecidos revelam que “os alunos das escolas Edison estão entre os mais preparados do país. Onde antes eram escolas consideradas como depósitos de alunos repetentes e professores desmoralizados, hoje se erguem instituições limpas, eficientes, obcecadas pela busca de excelência”. As escolas da companhia Edison firmam-se, já são uma realidade, não mais um projeto experimental, que em 1995 começou como uma escola-piloto. Hoje, controla 113 escolas públicas com 57 mil alunos.

Para um maior entendimento do assunto, leia-se o livro: “La Nueva Universidad”, de Luis Bustamante Belaunde, onde ele diz: “Se uma universidade quiser estar à altura e responder aos desafios de hoje, deve parecer-se mais com as organizações empresariais de amanhã do que com os velhos padrões de ontem”.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em agosto/2001)

UMA LIÇÃO DE PEDAGOGIA

Izabel Sadalla Grispino *

É preciso acordar para a importância da educação infantil. A proposta do prof. Giannetti, relatada por mim no artigo anterior, deve vir acompanhada de processos de melhorias de ensino.

Antes de chegar ao ensino fundamental, o aluno deverá ter percorrido as etapas da educação infantil, ter sido, devidamente, estimulado e respeitado nas diferentes fases do desenvolvimento infantil.

Hoje, a conclusão é de que a educação infantil é estratégica par o futuro do País. A educação de zero aos 6 anos constitui a grande lacuna do nosso sistema escolar. A primeira infância é o período mais importante na formação do indivíduo. Nessa fase se formam valiosas sinapses neurológicas e se constroem os fundamentos da nossa representação simbólica do mundo.

O cérebro desenvolve-se nos primeiros anos de vida. É na faixa etária de zero a 3 anos que se formam 90% das conexões cerebrais. As pesquisas científicas, há tempo, destacam a importância da educação infantil no desenvolvimento físico, cognitivo, afetivo e social das crianças. Quanto mais cedo a criança ingressa na educação infantil maior é o seu aproveitamento escolar e melhor sua conduta social.

Há estudos comprovando que as crianças que freqüentaram creches e pré-escola tendem a obter maior sucesso profissional em comparação com as que foram matriculadas no ensino fundamental sem passar pelo ensino infantil.

Além do ensino fundamental, é preciso enfatizar a importância da educação infantil, ensino que eleva o aproveitamento dos alunos no ensino fundamental, principalmente os de famílias de baixa renda.

O Brasil tem muito que avançar no ciclo da educação infantil. Este ciclo e o ciclo fundamental são ciclos decisivos para preparar as novas gerações para enfrentar o competitivo mercado de trabalho.

O relatório da Unesco sobre educação infantil, lançado recentemente – novembro de 2006 – em Nova York, coloca o Brasil entre os piores na área de educação infantil, em todo o mundo.

Elevar o nível de ensino é conhecer os pontos de estrangulamento do sistema e enfrentar as dificuldades. Na passagem do conhecimento temos a macroabordagem, que envolve a filosofia da escola, sua linha pedagógica e todo o contexto educacional vigente, e temos a microabordagem, que se resume, especificamente, na relação professor-aluno. É quando o conhecimento vai acontecer. Aqui o maior peso recai para a vocação docente. Quando se ama o que se faz, quando se sente compromissado com a causa, esta se realiza.

O grande educador, o educador de todos os tempos, Renato Alberto T. Di Dio, dizia: “Os docentes equilibrados e estudiosos tomam decisões com a propriedade que emana do bom senso”. Acrescentava: “Com equilíbrio e bom senso, qualquer teoria, qualquer método funciona”.

Numa palestra, realizada para os formandos do Magistério, elucidei um aspecto afetivo do ensino-aprendizagem, com minha poesia: “Uma lição de pedagogia”. Meu filho, sério, me perguntou, / Por que a senhora sempre grita? / Ontem me deu ordem, não conversou, / Hoje, mais parece acesa pipa! // Papai é diferente, mais amigo, / Vive alegre, me compreende, / Dialoga, papeia comigo, / Me estimula, me apóia sorridente. // Foi ducha fria na minha cabeça: / Ando vazia de amor, rancorosa, / Espalhando ira, sempre chorosa. // Ao invés de proferir fria sentença, / Cultive a rosa, aqueça a complacência, / Educar é fruto de amor, de paciência.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em novembro/2006)

A IMPORTÂNCIA DA EDUCAÇÃO INFANTIL

Izabel Sadalla Grispino *

O mundo todo desperta-se para a importância da educação infantil. Até pouco tempo atrás esse ensino era tido como de menor importância.

Hoje, sabemos que a estimulação precoce das crianças contribui e muito para o seu aprendizado futuro. Desenvolve suas capacidades motoras, afetivas e de relacionamento social. O contato das crianças com os educadores transforma-se em relações de aprendizado.

Uma outra concepção é o desenvolvimento da autonomia, considerando, no processo de aprendizagem, que a criança tem interesses e desejos próprios e que é um ser capaz de interferir no meio em que vive. Entender a função de brincar no processo educativo é conduzir a criança, ludicamente, para suas descobertas cognitivas, afetivas, de relação interpessoal, de inserção social. A brincadeira leva a criança ao conhecimento da língua oral, escrita, e da matemática.

Acompanhando a implantação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), o Ministério da Educação (MEC), com o objetivo de assessorar as escolas, elaborou referenciais para um ensino de qualidade da educação básica, os chamados Parâmetros Curriculares Nacionais.

Os Parâmetros não têm caráter obrigatório e servem de orientação às escolas públicas e particulares. Os Parâmetros, assessorando a competência profissional, contribuem para a elaboração de currículos de melhor nível, mais ajustados à realidade do ensino.

Os “Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Infantil” propõem critérios curriculares para o aprendizado em creche e pré-escola. Buscam a uniformização da qualidade desse atendimento. Os Parâmetros indicam as capacidades a serem desenvolvidas pelas crianças: de ordem física, cognitiva, ética, estética, afetiva, de relação interpessoal, de inserção social e fornecem os campos de ação. Nesses campos são especificados o conhecimento de si e do outro, o brincar, o movimento, a língua oral e escrita, a matemática, as artes visuais, a música e o conhecimento do mundo, ressaltando a construção da cidadania.

O então ministro da Educação, Paulo Renato Souza, ao se referir aos Parâmetros Curriculares do Ensino Fundamental, ponderou: “Passamos a oferecer a perspectiva de que as creches passem a ter um conteúdo educacional e deixem de ser meros depósitos de crianças. Em todo o mundo está havendo a preocupação de desenvolver a criança desde o seu nascimento”.

Dados de 1998, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apenas 25% da população de zero a 6 anos freqüentam creche ou pré-escola. São 5,5 milhões de crianças de um total de 21,3 milhões.

A educação infantil é definida na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) como parte da educação básica, mas não da educação obrigatória. A lei define, também, nas disposições transitórias, a passagem das creches para o sistema educacional. O Ministério da Educação (MEC) determinou que, a partir de janeiro de 1999, todas as creches do País deveriam estar credenciadas nos sistemas educacionais.

Conforme a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, cabe aos sistemas municipais a responsabilidade maior por esses atendimento. A Constituição da República diz que “A educação é direito de todos e dever do Estado”. A emenda constitucional n.º 14/96 alterou dispositivos relativos à educação e estabeleceu que a educação infantil é atribuição prioritária dos municípios.

A educação infantil tem-se revelado primordial para uma aprendizagem efetiva. Ela socializa, desenvolve habilidades, melhora o desempenho escolar futuro, propiciando à criança resultados superiores ao chegar ao ensino fundamental.

A educação infantil é o verdadeiro alicerce da aprendizagem,  aquela  que deixa a criança pronta para aprender.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em julho/2006)

CRÉDITO EDUCATIVO PARA O UNIVERSITÁRIO

Izabel Sadalla Grispino *

Como o estudante deve orientar-se na busca do crédito educativo? Surgiu recentemente, cerca de um ano e meio, o financiamento privado do ensino superior. São créditos educativos oferecidos por empresas particulares, por intermédio da própria universidade. A pesquisa feita pela CM Consultoria, realizada em junho p.passado, com 86 universidades privadas revelou que os financiamentos privados estão previstos em 18% das instituições.

Os alunos cursam a faculdade e começam a pagar a dívida um ano após terem se formado, dividindo a prestação em muitos anos. A adesão a esse crédito educativo explica o aumento do número de vagas em faculdades particulares na última década, atraindo alunos com baixo poder aquisitivo. Ele tem combatido a inadimplência que, segundo o Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino (Semesp), gira em torno de 25%.

Uma outra modalidade é o Financiamento Estudantil (Fies) do governo federal, que cobre até 70% das mensalidades de alunos carentes.

Cada financiamento tem suas regras, mas todos cobram juros mais altos do que os do Fies e mais baixos do que os bancários. O financiamento do governo cobra 9% ao ano, os privados trabalham com taxas que vão de 1,5 a 3,5% ao mês, e os bancos chegam a cobrar 2% ao mês, dependendo do tipo de crédito e da instituição. Todos exigem um fiador, além de bom rendimento escolar.

Se o aluno estiver com a documentação em dia, o financiamento é rápido, em duas semanas o contrato é assinado. Pelo Financiamento Estudantil (Fies) é preciso esperar abrir a concorrência para as vagas, provar a falta de recursos e aguardar o resultado da seleção.

Conhecer as opções de financiamento ajuda a esclarecer a situação. O aluno deve analisar a proposta, os valores, antes da contratação. Há a Ideal Invest, que cobre até 35% da mensalidade, com juros de 1,5% ao mês. Exige fiador e bom desempenho escolar.  A  dívida  pode  ser paga em até 8 anos. Para maiores informações sobre a Ideal Invest acessar: www.idealinvest.com.br

A Finvest, do grupo Unibanco, também oferece uma linha de crédito educativo para 10.000 clientes. O empréstimo pode ser usado para todos os níveis de ensino, do fundamental à pós-graduação. A dívida pode ser paga em até 3 anos, os juros vão de 2% a 3,9%. Acessar: www.finvest.com.br

O Siemesp criou o Centro Brasileiro de Desenvolvimento do Ensino Superior (Cebrade), cuja principal função é administrar bolsas de estudo restituíveis. Administra bolsas de 1% a 100% em diversas universidades cadastradas. Depois de um ano de formado, o beneficiado devolve esse dinheiro para a instituição, pelo preço da mensalidade na época em que ele for pagar.

O Financiamento Estudantil (Fies) é um programa do governo federal. Financia até 70% da mensalidade, com juros fixos de 9% ao ano ou 0,75% ao mês. Exige bom desempenho escolar. A dívida pode ser paga em até uma vez e meia o tempo do financiamento. Para conseguir o financiamento do Fies, o estudante deve se inscrever e passar por seleção. O Fies exigia fiador, mas uma liminar da justiça suspendeu a obrigatoriedade. Segundo o coordenador do Fies, Leonel Cunha, o pagamento das fases de amortização é fundamental para que o Fies abra novas vagas a cada semestre. “O Fies depende do retorno dos financiamentos para poder financiar novos estudantes. Se cada estudante beneficiado tomar consciência de que o pagamento é que permite a entrada de outro jovem num curso superior e que, se cumprir pontualmente as fases de amortização, será mais fácil manter o Fies em bom funcionamento, com um risco menor de inadimplência”.

Para os estudantes que não podem pagar de forma alguma, o governo está propondo a criação do Programa Universidade para Todos (ProUni), que tem como objetivo a concessão de bolsas de estudo aos mais pobres sem a necessidade de reembolso. Mais informação sobre o ProUni está na pagina do MEC (www.mec.gov.br http://www.mec.gov.br/)

Antes de pegar um financiamento, aconselha-se o estudante a pedir uma simulação das parcelas que vai pagar e do total da dívida. Assim ficará sabendo se poderá arcar com o compromisso.

É grande o número de estudantes precisando de algum tipo de auxílio para cursar o ensino superior. Dar a este estudante a chance de freqüentar uma faculdade, de se auto-afirmar, eleva consideravelmente sua auto-estima. A má distribuição de renda, gerando contrastes sociais, é o que mais afeta a auto-estima de nossa população. Um estudo do Instituto de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), do Ministério da Educação, com base no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), analisou o desempenho de estudantes ricos e pobres, mostrando significativas vantagens ao estudante rico. O aluno rico que usa computador, internet, TV por assinatura alcançou média de 63 pontos numa escala de 0 a 100, enquanto o jovem pobre chegou apenas a 41 pontos. Bens culturais, uma boa situação socioeconômica, fortalecem e propiciam o desenvolvimento das potencialidades do educando.

A pior das constatações é de que a distância entre os alunos de famílias de alta renda e os de baixa renda tende a crescer. Os alunos pobres, necessitados de melhores condições de ensino, são os que menos recebem em termos de qualidade de escola.

Alertemo-nos, dando-nos as mãos – governo, empresas, associações e sociedade agindo juntos – para garantir um futuro mais promissor à classe menos favorecida.

* Supervisora de ensino aposentada.      
(Publicado em outubro/2004)

A ESCOLA INCLUSIVA

Izabel Sadalla Grispino *

A política oficial, já há algum tempo, desde 1996, prevê a inclusão dos portadores de deficiência, na rede regular de ensino. Contudo, em agosto de 2001, o ministro Paulo Renato Souza, regulamentando a Lei de Diretrizes para a Educação Especial, assinou resolução, pela qual as escolas públicas do País deverão atender estudantes com necessidades especiais.

Infelizmente, essa é mais uma mudança, na estrutura de ensino, imposta a uma rede pública desaparelhada, despreparada para recebê-la. É um “Deus nos acuda”, uma perspectiva nada animadora, conforme já se constata em avaliações. A falta de informações ou o despreparo para lidar com a educação inclusiva faz com que os próprios professores, inconscientemente, discriminem os alunos. Isolam-nos, não os motivam, acabando por marginalizá-los, no processo de ensino. Professores que deixam os alunos com deficiência visual acentuada, ou cegos, sentados ou bem na frente da classe ou bem no fundo, na intenção de protegê-los, e acabam por excluí-los do convívio social da classe. Professores que, inadvertidamente, citam, conforme relato de pesquisas, o aluno deficiente como exemplo e que acaba por diminuí-lo perante os colegas, dizendo: “Se até ele consegue, vocês podem conseguir também”.

Para que essa educação venha obter sucesso, é preciso dar estrutura de aprendizagem. É preciso que seja uma inclusão responsável para não comprometer o avanço dos alunos portadores de deficiência. É importante treinar os professores, produzir material de apoio, principalmente para portadores de deficiências visuais e auditivas, assim como adaptações de títulos didáticos para o sistema braile. As escolas devem possuir as chamadas  salas de recursos, equipadas, para facilitar a aprendizagem. Possuir professor de braile, acontecendo, por vezes, ter a sala, mas não o professor.

O que se nota, na maioria das escolas da rede pública, é ausência de infra-estrutura. Ausência de instalações especializadas, de rampas, carteiras anatômicas e, principalmente, faltam professores capacitados para lidar com o aluno deficiente.

Uma outra barreira a se vencer, em relação aos alunos portadores de deficiência, é o preconceito. Preconceito da sociedade, da escola, dos pais e até mesmo dos professores. Quando o processo de ensino da educação inclusiva é bem conduzido, administrado por professores competentes, habilitados para a área, ele consegue resultados animadores. Consegue formar indivíduos ajustados, produtivos, capacitados para exercerem tarefas que vão desde as mais simples às mais complexas. A sua inserção, em salas regulares, ajuda-os a vencer, a se integrar melhor na sociedade.

O que mais se necessita, para o sucesso da educação inclusiva, é o apoio a ser dado ao professor, à sua capacitação. Permanecendo, apenas, em instituições especializadas, os alunos deficientes acabam perdendo o convívio social, sem saber como lidar com as pessoas em sociedade. Instituições que só atendem alunos deficientes, adotam, costumeiramente, métodos “mecanicistas”, que tendem a nivelar as crianças. Na inclusão, adota-se uma linha alternativa e mais democrática de ensino. Falta, sobretudo, à rede pública aprender a desenvolver projetos que abram oportunidades educacionais adequadas a essas crianças.

A Educação Inclusiva surgiu na Europa na década de 1950 e, hoje, já é uma realidade. Segundo dados estatísticos, a rede estadual paulista atendeu, no ano de 2001, 19.215 alunos com necessidades especiais em salas regulares, de um total de 6,1 milhões de estudantes. Das 5.580 escolas, apenas 695 praticam a inclusão. Mais de 15.000 alunos são assistidos por instituições especializadas, por causa do alto grau de deficiência.

Neste particular, ressalta-se a atuação das “Associações dos Pais e Amigos dos Excepcionais” (Apaes),com seu atendimento primoroso. Fui supervisora de ensino de algumas Apaes e todas elas primavam pela competência, pelo devotamento aos alunos.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que, apenas, 2,2% dos brasileiros com deficiências físicas e mentais recebem atendimento educacional. Dentre os 17 milhões, só 374 mil são atendidos pela rede pública ou por instituições privadas, em parceria com o governo federal.

Algumas escolas particulares de ensino regular têm projetos bem sucedidos de inclusão de estudantes especiais. Promovem orientação pedagógica específica, resultando em trabalho diferenciado. São escolas que, em atenção às diferenças e às necessidades dos  alunos, mantêm em classe, no máximo, 15 alunos, permitindo ao professor atendimento individual, acompanhar de perto as dificuldades de cada um, colocando somente um ou dois alunos especiais por classe. Escolas há que adotam, como método estimulador da afetividade dos alunos, a presença de animais na escola: pôneis, cabritos, ovelhas, coelhos, tartarugas, patos e outros. Os animais favorecem a integração entre os alunos.

Há escolas que oferecem atividades de inclusão social. Dão cursos de Preparação e Qualificação Profissional, em que os alunos são encaminhados para o mercado de trabalho. Ensinam o ofício de padeiro, confeiteiro, de atendimento ao público, de auxiliar de escritório, de ajudante de cozinha, entre outros. Para a inserção da mão-de-obra dos portadores de deficiência, no mercado de trabalho, há muito preconceito e desinformação. O preconceito é, ainda, a maior barreira, na colocação de pessoas especiais, no trabalho.

Empresas que empregam portadores de deficiência dizem dar a eles tratamento igual e as responsabilidades são cobradas como de qualquer outro empregado, sem paternalismo e que a correspondência é muito boa. Eles são aproveitados em livrarias, supermercados, lanchonetes, videolocadoras, doceiras, escritórios, especialmente, de advocacia.

A escola de ensino regular, ao receber o aluno portador de deficiência, ao trabalhar o preconceito, ela está difundindo o sentido de igualdade de oportunidades a esse aluno; está desenvolvendo, entre os alunos, a formação humanística e, sob esse prisma, a integração virá bem mais forte e mais consistente.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2002)

RESERVA DE VAGAS NAS UNIVERSIDADES PÚBLICAS

Izabel Sadalla Grispino *

Já, há algum tempo, escrevi a respeito da reserva de 50% das vagas nas universidades públicas para alunos oriundos do ensino médio das escolas oficiais. Na ocasião, o projeto tramitava na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Agora, é a vez do Estado de São Paulo passar pela mesma situação.

Tramita, na Assembléia Legislativa de São Paulo, um projeto apresentado pelo deputado Celso Tanaui, do PTB, que destina 50% das vagas das universidades do Estado a estudantes que tenham cursado o ensino médio em escola pública.

O ingresso à universidade não seria, pois, por mérito acadêmico, mas por destinação prévia de vagas, o que viria acarretar perda da qualidade de ensino da universidade. A argumentação do deputado é de que o acesso às universidades públicas é privilégio dos ricos e que os pobres, os que mais precisam, só conseguem entrar em universidades pagas. Realmente, é uma verdade e configura um contra-senso, um desequilíbrio da balança social. Acontece que os ricos freqüentam escolas particulares de boa qualidade, tornam-se melhores preparados, melhores capacitados e competem com vantagem, conseguindo melhores posições em tudo.

Mas, será a destinação pura e simples de vagas, sem o seu principal componente, a boa formação, o caminho para se consertar essa injustiça? As diferenças educacionais estariam resolvidas pela aprovação de um decreto? Convenhamos ser esse um pensamento equivocado, pois o processo é bem mais amplo, bem mais complexo, envolvendo mudanças estruturais de base, significativas.

A reversão do quadro acima descrito não é tão simples assim. É preciso, antes, melhorar o estudo do pobre, dar-lhe armas intelectuais para enfrentar, em par de igualdade, a concorrência com o rico. Investir maciçamente na escola pública é a saída correta para esse impasse. Aparelhá-la, instrumentalizá-la, reciclar os seus professores, dotá-los de competência, nivelando o ensino por cima.

A reserva de vagas é uma farsa, só camufla a situação e trabalha contra o próprio aluno pobre, que continuará defasado no conhecimento e marginalizado na sociedade, por falta de formação adequada. Essa reserva de vagas levará a um desnível do ensino superior, a um sucateamento, como já aconteceu com a educação básica pública, pois a tendência é baixar o nível, para não excluir os menos preparados.

Abriram-se vagas, no ensino fundamental, para todos, abargando alunos das mais diferentes camadas sociais, mas não foram dadas condições efetivas de um bom trabalho pedagógico. Não se preparou o professorado, que se vê meio perdido a tanta inovação, não se investiu num ensino de qualidade. Hoje, o aluno sai da escola, com algumas exceções, semi-analfabeto. A universalização da oferta de vagas não foi acompanhada da universalização da oferta de educação de qualidade para todos. Deixou-se inclusive de priorizar a educação infantil.

Garantir vagas, ao aluno pobre, nas universidades públicas,  de boa qualidade, requer estender essa boa qualidade a toda a educação básica. Requer que as metas quantitativas sejam juntadas às qualitativas. É um processo que demanda tempo, mas, quando chegar lá, será com consistência, com validade e sem discriminação. Esse é o trajeto a se percorrer para se garantir o acesso às universidades públicas a quem não tem recursos para pagar uma instituição particular.

Com a reserva de vagas, a USP abrigará dois segmentos de alunos, de formação e de capacitação, bem diferentes, o que comprometerá o bom ensino. Terá dois grupos de ingressantes, com perfis muito distintos um do outro. “Um deles não conseguirá acompanhar as disciplinas previstas para o 1.º ano do curso, já que poderá haver aprovados com nota zero em matérias fundamentais”, esclarece Adilson Simonis, do Instituto de Matemática e Estatística da USP, e acrescenta: “O preparo de um possível candidato beneficiado não estaria dentro dos padrões desejáveis para uma universidade de excelência como a USP”.

A médio prazo esse ensino sofrerá um forte impacto negativo, refletindo-se na graduação, com repercussão na pós-graduação e na pesquisa. Como ficará o conhecimento científico? Como acelerar nosso desenvolvimento tecnológico? Seremos os dependentes, cada vez mais acentuados, da tecnologia importada?

Pelo Índice de Avanço Tecnológico das Nações Unidas, o Brasil que ocupa o 43.º lugar, atrás da Tailândia, da Argentina, da Costa Rica e do México, ficará mais abaixo ainda!

É preciso olhar para mais longe, desapegar-se do aqui, agora. A tecnologia avançada surge do conhecimento das pessoas, dos profissionais em ação. O aluno pobre, defasado no conhecimento, não terá seu problema resolvido por uma reserva de vagas. Ele, marginalizado, marginalizará o conhecimento tecnológico, prejudicando o nível de excelência que as universidades públicas vêm mantendo. Por esse processo de facilitação, estaremos arrastando a pobreza científica e tecnológica do País.

O deputado Celso Tanaui, ao ser questionado sobre seu projeto, respondeu: “Inteligência não é atributo exclusivo dos ricos”. O desavisado deputado misturou alhos com bugalhos. Inteligência todos têm, a diferença está no encaminhamento dessa inteligência, na assistência, no trato psico-pedagógico de seu desenvolvimento, que é o que, justamente, falta ao aluno pobre na fase anterior ao ingresso do nível superior.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2001)

REFLEXÕES SOBRE O RESULTADO DA PROVA BRASIL

Izabel Sadalla Grispino *

Estuda-se o porquê de o ensino no interior do Estado, principalmente nas pequenas cidades, ser melhor que nas escolas da capital. A Prova Brasil confirmou, no começo de julho, que as escolas públicas do interior têm, em média, desempenho melhor que as das cidades grandes.

A Prova Brasil, um importante mecanismo de avaliação do ensino básico, revelou, nos testes, que a grande maioria dos alunos apresenta um aproveitamento bem abaixo do desejado. Revelou, também, um ensino de melhor qualidade nas escolas do interior.

Essa Prova foi aplicada em novembro de 2005 a 3,3 milhões de alunos em 40.920 escolas públicas urbanas de 5.398 municípios. Competência, como domínio de linguagens, capacidade de comunicação e interpretação, construção de argumentos, ficaram fortemente a desejar. Uma grande parte de alunos não consegue identificar o tema de narrativas simples e entender textos com um mínimo de complexidade. O resultado foi deveras frustrador.

Os estudos, sobre a vantagem do ensino no interior do Estado, concluíram o que de velho já se sabe: baixa rotatividade de diretores e professores, participação dos pais e da comunidade, praticamente, no dia-a-dia da escola, professores, em grande escala, formados no ensino superior e freqüentando cursos de reciclagem profissional, tendo salários mais condizentes com a vida simples do interior.

Muitas escolas utilizam-se da metodologia de levar informações constantes aos pais, estimulando-os a participar da escola, do processo de avaliar constantemente o aluno e verificar em que ele pode estar falhando e aplicar a recuperação paralela. Além das provas, os alunos são avaliados por comportamento e participação em sala de aula.

As funções sociais assumidas pela escola devem vir acompanhadas da gestão pedagógica. Devem-se diminuir os encargos burocráticos do diretor de escola para não afastá-lo do foco principal, que é o acompanhamento do ensino-aprendizagem, que é saber se os alunos estão, realmente, aprendendo.

A idéia que vem dominando no Estado de São Paulo, como resultado dos estudos, é eliminar os três turnos diários da escola, deixando apenas dois, o que seria um grande passo.

É evidente que a atuação devotada e criteriosa da escola e do professor resulta no bom andamento do ensino. Sem uma boa escola, como formar capital humano necessário ao desenvolvimento da Nação?

* Supervisora de ensino aposentada        
(Publicado em agosto/2006)

A PRESENÇA DOS PAIS NA ESCOLA

Izabel Sadalla Grispino *

Cada vez louva-se mais a participação dos pais na vida escolar. Diante da atual conjuntura social, da rebeldia e violência juvenil que reinam na sociedade e que acabam por se infiltrar nas escolas, diante da dificuldade organizacional por que passam as instituições públicas, por falta de recursos humanos e financeiros, a presença dos  pais e de voluntários da educação, vem sendo vista como de alta valia.

 

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A INCLUSÃO DIGITAL

Izabel Sadalla Grispino *

As novas tecnologias são ferramentas importantes para a escola atingir a modernidade. Contudo, o que se constata é uma forte resistência em utilizá-las, aproveitá-las, dando mais sentido à aprendizagem.

 

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A JUVENTUDE BATE À PORTA DE DEUS

Izabel Sadalla Grispino *

A violência juvenil disseminada por toda parte, as apreensões, os estremecimentos, levam a conjeturar sobre o futuro da juventude. Assusta-nos ver transitando pelo mundo uma população jovem transviada, desenfreada, perdendo, para as drogas, a capacidade de viver, de sonhar.

 

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