Izabel Sadalla Grispino *
Conforme minhas lembranças, da minha época viajavam para estudar em Jaboticabal: eu, meu saudoso irmão José, Leopoldo e Mariana Haro Nagata, Anselmo Alves, Terezinha d’Onofrio, Jair Queirós, Dolores e Luzia Gomes Peres, Maria Aparecida Andrade, Léo Albino, Lair Monteiro, Aparecida Mazzi, Eugênio Garavelo, Francisco Antonio Laurentiz (Franço), Florentino Laurentiz, Osvaldo Fabrício Santana, Herold de Lourenzo Filho, seus primos Vanderlei e Terezinha, Valter Guardiere, Luiz Carlos Oliveira Junqueira, suas irmãos Terezinha e Adalgisa, Dalva Laurentiz, as 3 filhas do Dr. Lídio Leite (Fazenda Bacuri), Clara, Jair e Helena, Lenita, Elza e Gerson Vieira, Geni e Mercedes Von Gal, Wilma Ragazzi e Raul Bauab. Recebíamos das estações vizinhas, Motuca: os irmãos Vinícius De Nardi, José Guilherme e Fernando (filhos do chefe da estação) Madalena Buono e Alaíde de Oliveira; de Joá: Alairce de Oliveira Delgado, seus irmãos Orivaldo e Fernando (filhos do chefe da estação); de Hammond: Sizino Martins de Oliveira, sua irmão Maria Aparecida (filhos do chefe da estação), os irmãos Alcides e Antenor Pinotti e Zuleica Barros Lins. Passando por Córrego Rico, recebíamos Lino José Amâncio e sua irmã Araci.
Se alguém fez parte dessa época, pertenceu a esse grupo, cujo nome não consta da lista, gostaria que telefonasse para a redação do jornal Guariba Notícias, para constar – trazendo mais precisão –- do meu livro em andamento, Guariba: Aspectos da minha terra, lembranças guardadas.
Esse grupo de alunos teve a sorte de estudar, em Jaboticabal, com talentosos professores, verdadeiros baluartes da educação da época, mestres precursores dos mais avançados métodos pedagógicos, com postura de orientadores da aprendizagem. Passam-se gerações e não é fácil encontrar um Mário de Campos ou um Antonio Ruete!
Mário de Campos era o mais querido entre os queridos, mestre que lecionava com o saber da mente e com a sensibilidade do coração. Numa época em que a escola era soberana, onde se punha distância entre o professor e o aluno, entre a escola e comunidade, ele era o amigo, dava ensejo a que os alunos se aproximassem. Mário de Campos seria hoje um desafio aos mais avançados tratados de pedagogia. Usava da metodologia ativa, declama versos, punha-se emocionado diante de uma classe paralisada, embevecida! Ele era a palmeira frondosa, a brisa suave, que nos fazia sonhar, acreditar!
Um outro ícone do magistério foi o professor de latim Antônio Ruete. Um mestre de uma abrangência de conhecimento invejável. Na passagem do conteúdo, via-se, às vezes, interpelado pela alta erudição! Era a imagem da simpatia, da espontaneidade. Aprendemos muito com ele, sempre relacionando a nossa língua com a língua-mãe. O professor Ruete deixou saudade. Lembro-me de sua filha Cármen, uma colega amiga, empreendedora.
O professor de inglês, José França, extrovertido, mesclava suas aulas com música e poesia, procedimento didático muito apreciado pelos alunos. Quantos versinhos em inglês tenho, ainda, guardados de suas aulas!
Antonio Arrobas Martins, um fluente advogado, era nosso professor de Ciências. Um mestre, admirado pelos alunos, porém, sem muito vínculo afetivo. Enérgico, um tanto eqüidistante, se colocava na docência com objetividade, porte severo.
Recordo-me das aulas de música, com o amado maestro Biagio Cemino, que, além do canto, ensinava as notas musicais, o compasso, insistia nos hinos pátrios. Cantávamos corretamente o Hino Nacional, o Hino da Independência, o Hino à Bandeira... Tivemos um professor de Geografia com P maiúsculo, Alberto Shamas, muito simpático aos alunos.
O estabelecimento de ensino era dirigido pelo competente professor Celino Pimentel, um administrador que, hoje, nada ficaria devendo aos mais afinados princípios da moderna administração escolar. Calmo, ponderado, tinha a doçura do diálogo, a firmeza, a austeridade de quem não podia esmorecer nos momentos de decisão. Lembro-me de sua filha Lígia, um primor de beleza, que a todos encantava.
Muitos outros deveriam constar deste quadro, como o dedicado secretário Túlio Rampazo, o professor Juvenal Passos Nogueira, na época exercendo as funções de inspetor de alunos e que chegou a ser, por concurso, diretor do estabelecimento!
Tivemos grandes professores; professores que mostravam um saber à altura dos centros mais elevados do País. Era uma plêiade de iluminados. O passado explica o presente: terminado o curso ginasial, eu e meu irmão José fomos estudar na capital de São Paulo, e para ingressar no tradicional Colégio Estadual “Presidente Roosevelt” tivemos que passar por um exame de seleção. Concorremos com a nata estudantil da capital e fomos aprovados com louvor, oriundos que éramos do humilde Grupo Escola de Guariba e do Ginásio Estadual de Jaboticabal.
O Grupo Escolar de Guariba ficava na Rua Rui Barbosa, duas quadras abaixo do jardim central. A simplicidade do prédio contrastava com a grandeza de seus profissionais. Era um prédio fisicamente pequeno, mas, educacionalmente imenso. Dirigia o estabelecimento de ensino o professor Marcelino, um diretor enérgico, mas bem quisto, não era de Guariba. Lembro-me como diretoras substitutas de D. Marta de Camargo Neves e D. Leopoldina Sbragio Pereira. Nesse cenário escolar, rendo minhas homenagens às insignes professoras – as irmãs – De Camargo Neves. Foram minhas professoras e de meu irmão José D. Ruth, D. Marta e D. Josephina. D. Lucila, também, lecionava, porém não chegou a ser nossa professora. Elas representam um marco educacional de nossa antiga Guariba. Exemplos de dedicação, de um saber transmitido com disciplina e amor, num ambiente de ordem e respeito. O senso humanitário estava presente em todas as situações e não havia dificuldade, por parte do aluno, quer de caráter cognitivo, afetivo, motor, familiar, que não fosse tratada com interesse e carinho, na busca da melhor solução. Eram professores que, simplesmente, acreditavam no ser humano, no potencial de cada estudante e lutavam bravamente pela grandeza da sociedade, da Nação. O Grupo Escolar contou, como professora substituta, com Viviane Fabrício, uma criatura cheia de vida, animada, movimentava o ambiente escolar.
Com a estrutura, a bagagem cultural adquiridas em Guariba e Jaboticabal, eu freqüentei o curso clássico e o meu irmão, o científico do melhor Colégio Estadual da época, em São Paulo. Este foi mais um trampolim para ingressarmos nas melhores faculdades, eu na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP), e José na Faculdade Nacional de Medicina, da Praia Vermelha, hoje UFRJ, no Rio de Janeiro. No curso clássico, fui colega de classe do ex-ministro da Justiça, José Gregori, e contemporânea do ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso.
É preciso valorizar o que é nosso, fazer vir à tona as riquezas submersas de nossa terra, os diamantes brutos que temos, apenas, que aprender a lapidar!
* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em setembro/2003)