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Artigos Educacionais

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A COMPETITIVIDADE DOS MERCADOS GLOBAIS

Izabel Sadalla Grispino *

A sociedade, líderes empresariais, começam a se preocupar seriamente com a educação no Brasil. Buscam se comprometer com ações concretas para melhorar o ensino, especialmente em língua materna e matemática. Procuram criar para o problema da educação um envolvimento nacional, num desafio extraordinário.

TERMÔMETRO CONSTATA, NÃO CURA

Izabel Sadalla Grispino *

A decadência do ensino público persiste. Vence o tempo e abrange todos os graus de ensino. É um desenrolar negativo que vem em cascata, passa  pelo ensino fundamental, ensino médio, ensino supletivo e o ensino superior, inclusive, não foge à regra. Nos últimos anos foi uma constante o ex-ministro Paulo Renato anunciar resultados negativos em todos os níveis de ensino.

O ensino supletivo apresenta uma característica à parte: além do baixo nível, muitos cursos supletivos a distância continuam agindo de modo irresponsável, burlando a legislação. Continuam fazendo avaliações e emitindo certificados, apesar de a decisão do Conselho Estadual de Educação (CEE), de abril de 2001, ter restringido essas atividades – avaliação e emissão de certificado – a instituições credenciadas.

Para que uma escola possa fazer ela mesma as avaliações e emitir certificados, deverá enviar ao Conselho Estadual de Educação um projeto solicitando direito de avaliar os estudantes e emitir certificados válidos. Deverá aguardar o credenciamento do Conselho. Também há escolas não autorizadas que continuam funcionando indevidamente, acarretando prejuízos aos alunos, visto que seus certificados não possuem validade.

Por isso, pessoas interessadas em cursar um supletivo devem consultar a Secretaria da Educação antes de efetivar a matrícula. A Secretaria coloca o telefone (011) 3218-2125 à disposição do público em questão.

Quanto ao ensino fundamental, o Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Básico (Saeb), do Ministério da Educação, mostrou, em fins de 2002, que o ensino piorou nos dois últimos anos. Mostrou que os alunos de 8.ª série dominam, na média, os conteúdos esperados pelos alunos de 4.ª série e estes, os de 4.ª série, mal sabem decodificar as palavras que lêem.

Sobre o ensino médio, o resultado do último Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), em novembro de 2002, revelou a pior nota desde a sua criação, em 1998. A nota média dos participantes, na prova objetiva, foi 34,13 numa escala de 0 a 100. Na redação, segundo consta, a média parece ter melhorado um pouco.

Segundo Maria Inês Pini, boa parte dos erros, nas 63 questões de múltipla escolha da prova objetiva, deveu-se à dificuldade de leitura e compreensão do que estava sendo pedido. “As respostas estavam no enunciado das próprias questões”, completou o então ministro Paulo Renato.

Os estudiosos da educação buscam razões para a piora da nota média da prova objetiva. Assinalam, para esta queda, a maior desigualdade no País. O Enem abrangeu uma quantidade maior de alunos provenientes de famílias de baixa renda, analisa Maria Inês Pini.

Os números do relatório mostram que 65% dos alunos vivem em famílias com renda inferior a cinco salários mínimos. No ano passado, essa porcentagem foi de 60%. 73% dos que fizeram a prova este ano estudaram em escolas públicas, índice que em 2001 ficou em 66%. A escolaridade dos pais permaneceu praticamente a mesma, em torno de 56%. O Enem retrata uma realidade social de frisante desigualdade. “Vai melhor quem é branco, estuda em escola particular, tem renda familiar mais alta e pais com maior escolaridade”.

Segundo os organizadores do Enem, “esse exame, mais do que contar pontos no vestibular, foi feito mais para orientar os governos estaduais sobre a melhor maneira de oferecer o ensino médio no País”. O Enem propõe a troca do tradicional enfoque de conteúdos desvinculados da realidade do aluno pelos conteúdos que se fazem necessários ao seu dia-a-dia, à resolução de problemas do cotidiano, o desenvolvimento no aluno de habilidades e de competências, afastando a decoreba.

O Enem é, sem dúvida, uma boa iniciativa para se aquilatar o nível de ensino dos alunos e a direção que a escola imprime à aprendizagem. O que gera insatisfação é que essa avaliação não traz consigo mecanismos de interferência na realidade das escolas. O vice-diretor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), Nilson Bizzo, sobre o Enem expressou-se dizendo que a prova é um mau investimento do governo. “É como se estivéssemos investindo em termômetro, em vez de comprar remédios para a população”.

Eu não julgaria o Enem como um mau investimento, mesmo porque para se comprar os remédios certos é preciso conhecer a doença e é o que o Enem faz. Diria que esse investimento teria que se estender, alcançar as causas da ineficiência desse ensino, na busca da reversão desse lastimável quadro educacional.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em fevereiro/2003)

BASE HUMANÍSTICA DA EDUCAÇÃO

Izabel Sadalla Grispino *

Continuando o assunto sobre voluntariado, constatamos que escolas há que orientam os alunos para a participação voluntária. Muitas já incluem, em seus projetos pedagógicos, atividades de trabalho voluntário. Os exemplos começam a se multiplicar.

Alunos de escolas particulares de alto padrão estão se predispondo, com orientação, a oferecer ajuda, em diversas disciplinas, a alunos de escolas da rede oficial, com dificuldade de aprendizagem, ajudando a tirar dúvidas e a elevar o nível de conhecimento desses alunos. Eles integram a programação da escola contemplada, uma ou duas vezes por semana, em determinado período, participam de atividades extraclasses ou, então, a escola monta um horário especial para esse atendimento.

O entusiasmo atinge o emissor e o receptor: os alunos, com deficiência de aprendizagem, evoluem e os que ensinam fixam o conhecimento, adquirindo uma visão mais ampla do assunto.

Outras escolas incentivam os alunos à assistência hospitalar, às crianças doentes, internadas em hospitais. É o caso de adolescentes, de 16, 17 anos, geralmente do 3.º ano do ensino médio, que se dedicam, como voluntários, a brincar com crianças – na maior parte carentes – internadas em hospitais, exercitando o amor ao próximo.

Utilizam-se de livros infantis, tintas, lápis de cor, teatrinhos de fantoches e outros. Contam histórias, pintam, desenham, encenam peças infantis, organizam jogos, sempre com a supervisão de um técnico em recreação. Trabalham atividades educativas e recreativas.

As crianças doentes sentem-se animadas com o ganho dessas parceiras para brincar. O ganho dos adolescentes é de outra natureza: tornam-se pessoas mais solidárias, com sentimentos mais elevados, com um olhar voltado ao infortúnio humano. A presença deles, no hospital, contribui para a humanização do atendimento, diminuindo o impacto da internação da criança.

Os resultados, segundo consta, são surpreendentes. As crianças aceitam melhor o tratamento, curam-se mais depressa. Muitas choram quando recebem alta, por não querer se afastar dos novos amiguinhos, mais velhos.

Um outro grupo dedica-se ao atendimento de idosos. Os adolescentes buscam sentido nesse trabalho, ganham experiência, avançam para a maturidade emocional e engrossam a ação solidária da sociedade.

Na abrangência do trabalho voluntário, outras luzes surgem na educação, quais sejam, os cursinhos comunitários. Alunos da classe pobre, oriundos de escolas públicas de má qualidade, poucas chances têm de ingressar numa boa universidade. Ainda recentemente, esse dado foi comprovado, quando as universidades públicas de São Paulo anunciaram isenção da taxa do vestibular para alunos carentes, alunos que cursaram o ensino básico em escolas públicas e que pertencem a famílias de baixa renda.

As universidades decidiram sobre a isenção, “apesar de terem tido uma experiência considerada insatisfatória, quando nem todas as isenções foram utilizadas”. A Universidade Estadual Paulista (Unesp) aumentou o número de candidatos isentos, porém poucos beneficiados passaram no seu vestibular. A USP também divulgou que os isentos não tiveram bom desempenho.

As barreiras desses alunos para atingir um nível razoável de conhecimento são grandes. Trazem defasagem de longa data, que vai, no tempo, se acumulando, e ainda não só não podem pagar um bom cursinho preparatório para o ingresso a uma boa universidade, como não têm base suficiente para absorver o conteúdo por ele ministrado.

Atuações altruístas surgem na área educacional e vêm criando oportunidades de um ensino complementar de bom nível aos alunos, como são os cursinhos comunitários. Estes constituem uma rede alternativa de ensino, mantida por voluntários, que investe, especialmente, na auto-estima dos alunos. O Educafro, por exemplo, é uma rede que agrupa quase 70% dos cursinhos comunitários dirigida pelo frei David dos Santos, um fervoroso defensor do aluno necessitado.

Os cursinhos comunitários são uma nova opção à população estudantil de baixa renda. Em geral, surgem da própria comunidade, que se organiza e monta um núcleo, ou de grêmios estudantis, onde todos os funcionários são pagos.

Abrir um cursinho comunitário exige muita vontade e trabalho, pois todos os seus integrantes são voluntários. A mensalidade equivale a 10% do salário mínimo, valor simbólico comparado aos grandes cursinhos. Esses cursinhos têm se revelado de grande utilidade e têm trazido resultados animadores, em termos de melhora da qualidade de ensino. Muitos alunos, hoje estudando em universidades, passaram por cursinhos comunitários. Torcemos para que o exemplo se prolifere, para que, daqui há algum tempo, não precisemos nos deparar com o resultado divulgado, no início de setembro de 2005, do Ibope, sobre analfabetismo funcional, mostrando que 75% da população não consegue ler e escrever direito.

A solidariedade é, sem dúvida, um caminho de reabilitação da escolaridade, evitando os profundos desníveis sociais. Reabilitação não só da parte que recebe a ajuda, mas, e muito, da parte que estende a mão e influencia o vizinho, para o comportamento cristão do pão repartido.

A preocupação em desenvolver uma base humanística e solidária entre os estudantes dos vários graus de ensino, hoje, é uma constante, um conhecimento a favor da cidadania. É um trabalho de educação que tem, a médio e longo prazo, perspectivas de sensibilizar alunos para que se envolvam em trabalhos voluntários.

É preciso pensar no conjunto da população, porque ninguém pode ser feliz vivendo no seio de uma comunidade desventurada. O ambiente geral é reflexo ou de uma sociedade bem constituída, bem repartida, ou de uma sociedade onde o desequilíbrio traz profundas marcas de dor.

Vamos educar  nossos alunos, os responsáveis pelo mundo que se formará amanhã, vamos conscientizá-los em direção à eqüidade social! Eqüidade em trabalho, em capacitação profissional, em realização pessoal, na linha construtiva do ensinar a pescar. Não é dar gratuitamente, é dar condições de vida própria, de vida de qualidade!

* Supervisora de ensino aposentada.      
(Publicado em setembro/2005)

A ESCOLA EM SEU NOVO DIRECIONAMENTO

Izabel Sadalla Grispino *

Penetrando no mundo de valores diferenciados, na tentativa de alcançar as diversidades culturais, a escola expande seus horizontes, ultrapassa fronteiras e, num comportamento menos elitista, chega às camadas mais necessitadas da população.

A tendência atual é educar para a coletividade. A diversidade cultural hoje é mais acentuada que ontem e as crianças, desde cedo, entram em contato com ela. Como se situar nessa diversidade? Como se ajustar a ela sem confrontos desgastantes?

A educação direcionada ao coletivo leva ao enfraquecimento da competitividade. Educa para o entendimento da realidade circundante, do entorno, para conhecer a história do outro, suas tradições, seus costumes, seus anseios e limitações. Esse conhecimento aproxima uns dos outros, relaxa as rivalidades, convida às mãos estendidas.

Vivemos um outro momento, em que se faz necessário uma educação de valores abrangentes, uma compreensão de padrões de comportamento, de normas subjacentes aos diferentes grupos de convivência social. Uma educação que alcance a formação de uma consciência moral.

Crianças de origens diferentes, agindo de forma coordenada, colaboram para o equilíbrio, para uma convivência mais pacífica, desarmando intenções. A escola passa a educar para a responsabilidade social, ensinando a criança a participar da construção de uma sociedade cidadã, onde se trabalha o respeito aos direitos do outro e a consciência dos próprios deveres.

A escola passa a educar par a construção de uma sociedade comunitária, onde um sente a necessidade do outro, onde se aprende a não mais ignorar o outro, num aproveitamento de mente, de alma e de braços, no reerguimento da paz e da própria economia da Nação.

Já é tempo de se olhar, como aprendizes, às comunidades pobres. Saber ver o seu potencial, o imenso capital de conhecimento que essa comunidade herdou de pais, de avós, ver os valores socialmente criativos que expressam.

Nesse aspecto, a escola passa a ser uma instituição da coletividade, seguindo o relatório da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI (Unesco), que estabeleceu quatro pilares, como eixos estruturais da Educação na sociedade contemporânea: Aprender a Aprender – buscar o saber, alcançar os seus objetivos;  Aprender a Fazer – relacionando o ensino à prática; Aprender a Viver e Conviver – desenvolver o conhecimento do outro, formar uma nova mentalidade, que vai gerar mais união e diminuição da competitividade, vai gerar o desejo de criar, de elaborar projetos conjuntos, de viver juntos; e Aprender a Ser – desenvolver a capacidade de autonomia e julgamento, fortalecendo a responsabilidade pessoal pelo destino coletivo.

Hoje, a escola reforça a visão de que a educação deve se dirigir ao convívio coletivo, ao desenvolvimento humano, no encontro das diferentes culturas, aproximando os povos e os segmentos da sociedade.

Transformar o meio em que se vive passa, necessariamente, pela sala de aula. Já passou a época da alienação aos menos favorecidos. Terá que haver um esforço para conciliar a destinação com a esperança. Um esforço para anular o sintoma da desigualdade e acreditar na capacidade de recuperação.

 

* Supervisora de ensino aposentada.            
(Publicado em dezembro/2006)

ESCOLAS DE LÍNGUAS

Izabel Sadalla Grispino *

Nota-se um aquecimento de escolas de línguas no mundo todo, influenciado pelo desenvolvimento de negócios. Pessoas que buscam aprender bem idiomas, distanciando-se do período em que a economia era fechada. Pessoas que descobrem novos negócios, que cuidam das relações internacionais de grandes empresas, aperfeiçoam-se no estudo de idiomas.

À medida que a globalização quebra barreiras, o ensino de línguas se expande, afinal a língua está relacionada com o comércio. Li, a respeito, o pronunciamento do presidente mundial da Berlitz Centro de Idiomas, Mark W. Harris, rede presente em 63 países, com 450 unidades, e que ensina 42 idiomas, do inglês ao tagalo, das Filipinas. Harris diz que o ensino de idioma incomum cresce para negócios. Professores americanos têm ido a Hong Kong ensinar mandarim aos chineses! Esclarece que está cada vez mais comum os americanos, em missões especiais de trabalho, recorrerem, às pressas, ao aprendizado do Português, o idioma oficial do País, não mais visto somente como a nação do futebol e do carnaval.

Polônia, Eslovênia, República Tcheca, antes ex-satélites soviéticos e restritas ao idioma russo, abrem-se para novas culturas. O crescimento da Berlitz está bastante concentrado na Ásia. De 1965 para cá, foram abertas, só no Japão, 56 unidades. Estão previstas 22 novas unidades lá, mais duas na Coréia. Na Tailândia, a Berlitz inaugura, este ano, o 6.º centro, na China, o 5.º, e em Xangai o 1.º.

Na Inglaterra, o processo avança. O departamento de Inglês da Universidade de Warwick, localizado na área central da Inglaterra, conta com cursos diferenciados para grupos específicos. O departamento, ao invés de turmas fechadas e programas prontos, adapta os cursos às necessidades dos estudantes, necessidades ligadas ao aperfeiçoamento do inglês, por causa do trabalho. O Centro de Língua Inglesa promove, entre outros, cursos para grupos de executivos chineses, analistas de sistemas mexicanos, professores da Malásia e profissionais japoneses da área de saúde.

Vivemos num mundo cercado por interesses econômicos, alastrando-se a cada passo. A globalização, se por um lado oprime, sob certos ângulos, os países em desenvolvimento, por outro, oferece perspectivas amplas de trabalho e comércio. A área financeira é o grande tema deste novo século e o domínio do mundo é sua finalidade. Embora Lincoln dissesse que democracia é o governo do povo pelo povo e para o povo, ela caracteriza uma participação que acontece por meio de eleições, somente até a escolha de um governante. O poder determinante está mais acima, como fala o escritor português José Saramago, que são os poderes econômicos. São estes que  impulsionam e que determinam novas posturas, novos caminhos.

Representantes de escolas de idiomas reafirmam, no estudo das línguas, a tendência a áreas que dão vantagens internacionais, como hotelaria, seguido de ramos como telecomunicações e informática. Esses setores são os que mais oferecem oportunidades de carreira internacional.

É, principalmente, por meio da aprendizagem de idiomas que se galgam espaços para avançar nas carreiras internacionais. Para quem gosta de viajar, conhecer o mundo, conhecer o modo de viver de outras pessoas, a cultura do diferente, o primeiro passo é estudar bem idiomas. O desenvolvimento de negócios, a visão globalizada do mundo exigem fluência no uso das línguas. Um executivo do setor de hotelaria, relatando sua caminhada profissional, contou que morou em onze países, por conta do trabalho. Entre eles, Taiti, Polinésia, Kuwait, Egito, Estados Unidos e Nepal. “Conheci uns 50 países em viagem, a maior parte a trabalho”. Ele domina bem os idiomas inglês, francês e espanhol. Hotelaria é um ramo em expansão. O turismo é outra profissão em moda, uma área aberta do mundo, onde o domínio de idiomas é indispensável.

No Brasil, o estudo de idiomas cresce e atinge uma população jovem considerável. O interesse, a procura pelo estudo de línguas fazem as escolas de línguas incrementarem-se, tornando um mercado rendoso, também, por aqui. Nas faculdades, os cursos de letras não parecem manter essa concorrência, quando se focaliza o ingresso ao magistério. Os jovens buscam os cursos com vistas a uma maior exposição internacional, e menos a uma carreira docente.

Esse, como outros temas que possam alargar os horizontes profissionais do educando, deve fazer parte do compromisso informativo das escolas.  Os professores devem estar antenados à época, podendo demonstrar mais amplamente as várias ocupações que vêm surgindo, abrindo o leque das oportunidades atuais do mercado de trabalho.

Sob uma outra faceta, a escola deve inteirar-se de inovações, como a desestruturação de muitos cursos, para atender uma demanda de profissionais, ainda inexistente, principalmente na área de elaboração de negócios. A Fundação Getúlio Vargas (FGV), por exemplo, prepara, já para o ano que vem, seu vestibular para seu primeiro curso de graduação em Direito, que funcionará em 2005. Esse novo curso de graduação modifica o modelo tradicional de ensino hoje existente no Direito, uma sinergia entre Administração, Economia e Direito, sendo que Administração e Economia são cursos de graduação já existentes na FGV.

A falta de profissionais com uma formação mais ampla levou a Fundação a idealizar um currículo, no curso de Direito, onde se incluem as áreas de finanças, contabilidade, microeconomia, macroeconomia, meio ambiente e informática. A proposta é oferecer, já na graduação, toda a qualificação profissional existente, dando ao aluno as credenciais que geralmente ele busca, após a graduação, no exterior em cursos de mestrado.

Acompanhar essas inovações dá à escola um caráter institucional gabaritado, de considerável valia aos seus educandos.

* Supervisora de ensino aposentada.    
(Publicado em julho/2003)

UNIVERSITÁRIOS EM EXEMPLO DE AMOR AO PRÓXIMO

Izabel Sadalla Grispino *

Nunca é demais repetir que educação é mola-mestra do desenvolvimento humano e social, embrião que se ramifica por todas as atividades do saber. Por isso, a escola mais que um centro de estudo deve transformar-se num centro educativo de formação, de diálogo, de orientação, de convivência comunitária. É preciso resgatar a importância da escola na abrangência de ações que envolvem todo o comportamento humano.

A Síntese de Indicadores Sociais de 2003, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), publicada em abril de 2004, assinala que educação influi no índice de morte na infância. O IBGE encontrou em 2000, entre mulheres com nível de instrução superior a 8 anos, uma taxa de 20 óbitos por mil nascidos vivos; no grupo com até 3 anos de estudo, a mortalidade foi muito maior: 49,3 por mil.

O Nordeste apresentou quadro mais revelador: a taxa, entre os filhos de mulheres de baixa escolaridade, chegou a 70,3 mortes por mil, uma diferença de 151% em relação às crianças de mães com mais de 8 anos de instrução. Mostra o relatório que no Brasil as taxas de mortalidade infantil – menores de 1 ano – e  na infância estão muito acima do nível considerado “civilizado”, ou seja, 5 óbitos por mil nascidos vivos. Em 2002, o índice entre crianças de 1 a 364 dias foi de 27,8 por mil. Já entre os menores de 5 anos, o indicador foi ainda mais elevado: 34 por mil.

Conclui o estudo do IBGE que o caminho para a redução de mortes na infância – menores de 5 anos – passa pela educação da mãe. O nível educacional influencia a atitude da mulher em relação ao acompanhamento da gravidez, à higiene e à saúde da criança.

A consciência do valor da educação toma vulto. Parece que estamos conseguindo despertar os estudantes para a realidade social. A reativação do Projeto Rondon, abordado por mim no último artigo, partiu da União Nacional dos Estudantes (UNE). A visão de mundo está se alargando, as necessidades sociais se visualizando e os estudantes começam a chegar às comunidades carentes. Ao querer ser-lhes útil, idealizam projetos, no sentido de colaborar com elas, desenvolvendo ações educativas, preventivas de áreas, como da saúde.

Tomamos conhecimento, através da mídia, de jovens universitários, alunos da Faculdade de Farmácia de Araraquara (Unesp), que se embrenham pelas sendas das comunidades carentes. Sentem que a faculdade propicia pouco contato com a realidade e elaboraram, eles mesmos, programação de intervenção social. Receberam treinamento no Centro de Referência do Jovem e do Adolescente, da Prefeitura, e entenderam que esse projeto não poderia ser confundido com os programas assistencialistas, como, por exemplo, doação de alimentos. Interessam-se pela saúde da população e, num grande gesto de humanidade, colocam, com dificuldade no projeto, recursos próprios. Visitam as famílias no último domingo de cada mês, utilizando-se do ônibus da Unesp. Orientam sobre remédios, saúde, higiene e medem a pressão arterial. Na faculdade, promovem exibição de filmes, debates para jovens, abordando temas como drogas, sexualidade e cidadania.

Essas ações sociais são voluntárias e praticadas com entusiasmo e dedicação, tanto que não existe problema de continuidade. Os alunos do 1.º ano aderem maciçamente, substituindo os que vão se formando, criando uma corrente ininterrupta.

O projeto surgiu em 2001, através do Centro Acadêmico, com o nome de Atenção Farmacêutica Estudantil Permanente (Afep), fez parceria com a Associação Amigos da Vida, que trabalha com dependentes químicos.

Aguardamos que estudantes de outras faculdades se mirem no exemplo desses beneméritos universitários e partam para novas ações de utilidade pública, dando sua parcela de contribuição na construção de um mundo  mais igual, mais justo.

A esperança de um mundo melhor no amanhã surge, hoje, com as crianças da educação infantil, dando a elas não só um bom alicerce cognitivo, mas formando-as para a solidariedade, para a compreensão, no enfraquecimento da competição, para o exercício da cidadania. Essas crianças, abrigando valores, serão jovens mais participativos, mais solidários ao sofrimento humano, e estenderão, sem dúvida, seu olhar à comunidade necessitada. São esses jovens que, preparados para o sentido de humanidade, abraçam também, com vontade, o trabalho. Alegra-nos tomar conhecimento de jovens, na idade entre 15 e 24, que cursaram pelo menos o ensino médio,  estarem entrando no mercado de trabalho com carteira assinada. É o que mostra um levantamento feito pela Secretaria do Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade da Prefeitura de São Paulo, com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho. Esse levantamento considera as 827 mil vagas formais criadas nos cinco  primeiros meses de 2004 em todo o País, tidas como recorde, desde 1992. Mostra que 60% dos novos empregos são ocupados por jovens de 15 a 24 anos, com, pelo menos, 8 anos de escolaridade.

Esses jovens fazem parte de uma juventude que nos passa novo alento, na crença de um futuro melhor para a humanidade. É preciso crer para ver. Continuemos implantando na criança e no jovem valores éticos, morais, humanos, comportamento solidário, participativo e, assim, poderemos esperar um mundo mais produtivo, de mais paz, de mais justiça social.

As crianças de hoje serão os comandantes serenos ou atropelados do amanhã. Elas são as sementes do futuro.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em julho/2004)

ESCOLAS, PEQUENAS ILHAS DE EXCELÊNCIA

Izabel Sadalla Grispino *

O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) leva em consideração dois fatores que interferem na qualidade de ensino: o rendimento escolar, por meio das taxas de aprovação, reprovação e abandono, e as médias de desempenho dos alunos nas avaliações nacionais – Saeb e Prova Brasil. A combinação entre o fluxo e a aprendizagem resulta em uma média para cada Estado, município, escola e País, que varia numa escala de 0 a 10.

Países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), para qualidade de ensino, consideram como índice médio o igual ou maior que 6,0. De um total de mais de 55 mil escolas, apenas 160, de acordo com a classificação do Ministério da Educação (MEC), ou seja, apenas 0,2% das escolas públicas brasileiras chega a este índice.

A comparação com nações da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é possível, levando em conta a participação em avaliações internacionais, como o Pisa – que mede conhecimentos de leitura, matemática e ciências, e a criação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que considera o desempenho dos alunos na Prova Brasil, exame realizado por todas as crianças de 4.ª à 8.ª série do País, e o Sistema de Avaliação Básica (Saeb), feito por amostragem.

A média dos países da OCDE é de 6,0 (a Holanda ficou com Ideb 7,0 e o Reino Unido, com 6,5), valor que também foi considerado como meta a ser atingida pelo Brasil até 2021. Hoje, o Ideb médio nacional é de 3,8 nas séries iniciais do ensino fundamental.

Contudo, nem todas as escolas ou municípios, segundo o MEC, precisam de ter esse valor de índice. Cada escola tem uma meta diferente para 2021, de acordo com seu desenvolvimento. Mesmo escolas que tenham passado da média 6,0, hoje, terão de melhorar. O Ideb vai de 0 a 10.

Como sói acontecer, pouquíssimas escolas brasileiras atingiram a média 6,0 e, excepcionalmente, uma escola chegou a suplantar países com educação de excelência, como a Coréia do Sul e a Finlândia. A escola Professora Guiomar Gonçalves Neves, em Trajanos de Morais, no Estado do Rio de Janeiro, teve Ideb 8,5, o melhor índice do País.

Uma outra escola, municipal, Helena Borsetti, na cidade de Matão, interior do Estado de São Paulo, teve Ideb superior ao projetado para a Holanda, 7,8. Ficou classificada como a 3.ª do ranking das melhores do Brasil e a mis bem colocada de São Paulo. Uma escola que reflete a comunidade e o ambiente locais.

É na verdade muito pouco, mas é algo a se considerar, a se ir buscar como fonte, como elixir da boa aprendizagem. São escolas que vivem a sua realidade, que criam, da relação dos alunos com seu meio, estímulos para o aprender.

A escola de Matão está situada na zona rural e tem seu currículo adaptado às crianças desse meio, incorporando noções de agricultura e pesquisas da realidade vivida pelos alunos.

Firma-se, cada vez mais, o conceito de escola inserida em seu meio. Os rankings mostram que as escolas do interior do Brasil são as mais bem colocadas, quando se fala das séries iniciais do ensino fundamental. São escolas que têm um trabalho mais próximo da comunidade, comunidade que valoriza a atuação do professor, a sua atitude em sala de aula

Dentre as 55.967 escolas que fazem parte do índice, apenas, 0,01%, ou seja, 9 delas, tem Ideb, como a de Matão. Outras 33 unidades de ensino, o que representa 0,05% do total, chegam a 6,5 e se equiparam ao Reino Unido.

É ponto significativo, mas é ponto mínimo. Daria para dizer: “Vá em frente, sacode a poeira e dá a volta por cima”?

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em agosto/2007)

ALERTA UNIVERSAL SOBRE A EDUCAÇÃO INFANTIL

Izabel Sadalla Grispino *

O mundo, como um todo, desperta para a educação infantil. Pesquisas mostram  a importância do maternal e da pré-escola. A conclusão, hoje, é  de que a educação infantil é um dos mais poderosos instrumentos para combater a pobreza e a desigualdade.

O poder da educação das crianças pobres nos primeiros anos de vida – as ricas já possuem –  norteia a opinião universal. Crianças pobres de 3 a 4 anos, numa sala de aula rica em palavras, são munidas de condições básicas para aprender, para aprimorar as potencialidades, para resolver problemas. Um ambiente instrutivo cria situações em que crianças pobres e ricas passam a ter as mesmas chances, não só no jardim da infância, mas na vida inteira.

Constatam os estudiosos de que o principal fator da pobreza são as diferenças familiares acarretando influências no desempenho escolar. Constatam que essas influências se manifestam não apenas nos primeiros meses de vida, como são mais poderosas nessa fase.

James Heckman, Prêmio Nobel de Economia, presente, no Rio de Janeiro, no seminário sobre educação, organizado, em novembro de 2005, pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), apresentou números mostrando que a maior parte das defasagens entre o desempenho de ricos e pobres, em testes, por exemplo, de matemática, já existe aos 6 anos, antes da 1.ª série do ensino fundamental. Pesquisas divulgadas no seminário, pela Fundação Getúlio Vargas, a freqüência a creches também se concentra na classe mais rica, atingindo, de 0 a 3 anos, 21,64% das crianças entre os 20% mais ricos, e apenas 5,2%, entre os 20% mais pobres.

A Educação Infantil constrói melhores cidadãos, concluem as pesquisas. O histórico estudo do Projeto Pré-Escolar Perry acompanhou as vidas de crianças pobres que freqüentaram escolas-modelo na infância (nos EUA, pré-escola corresponde ao maternal e ao jardim de infância daqui). Este projeto acompanhou um grupo de crianças afro-americanas pobres desde o maternal, no início dos anos 60, até a meia-idade. As conclusões foram consideradas assombrosas: um retorno de US$ 17 para o indivíduo e à sociedade, para cada dólar gasto, nesta etapa.

As crianças que estudaram no Programa Perry mostraram possibilidade de se formar no ensino médio e se casar bem maior que entre as crianças que não freqüentaram a pré-escola. A probabilidade de serem presas e dependerem de assistência pública mostrou-se significativamente menor. Ganham em média 25% a mais que as crianças que não passaram pela pré-escola. Uma diferença que permitiu que elas superassem a linha da pobreza.

O Ensino Infantil, além de melhorar o desempenho futuro no mercado de trabalho, melhora e muito o desempenho acadêmico posterior. Um outro estudo, de uma organização americana, divulgado pelo Instituto Nacional de Pesquisas em Educação Infantil, examinou os efeitos de uma boa experiência em pré-escola. Em testes de vocabulário, as crianças, que freqüentaram maternais estaduais tiveram notas 31% mais altas que as de um grupo similar de crianças que não freqüentaram o equivalente a 3 meses de aprendizado. Em testes de habilidades matemáticas, as que freqüentaram o maternal estadual tiveram notas 41% mais altas.

As iniciativas estaduais nos EUA vêm valorizando cada vez mais a freqüência de crianças na pré-escola, ressaltando no ensino as habilidades em leitura, interpretação e aritmética.

O Brasil precisa aparelhar-se para investir com força na pré-escola. Aqui, a matrícula de crianças de 4 a 6 anos, em famílias com renda superior a 20 salários mínimos, é de quase 90%, cai para menos de 30% nas que ganham menos de 1 salário mínimo (dados do MEC).

Um ponto alentador encontra-se no Nordeste, região com maior penetração da pré-escola. Dos 10 primeiros municípios brasileiros com maior proporção de crianças de 4 a 6 anos sendo escolarizadas, 8 são nordestinos. O governo espera a aprovação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), que substituirá o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef), para ampliar a abrangência do programa para pré-escola, a partir dos 4 anos. A necessidade de ampliar o atendimento à educação infantil é ponto pacífico, porém, é indispensável pensar em preparar o professor para o correto atendimento à faixa etária correspondente a esse período.

Desenvolver instrumentos pedagógicos para auxiliar os professores a ensinar práticas corretas, que alcancem o desenvolvimento das habilidades cognitivas, psicomotoras das crianças, não pode representar ao governo um objetivo menor. Diplomar sem qualificar é jogar no mercado de trabalho pessoas despreparadas, que, mais cedo ou mais tarde, causarão graves prejuízos para si mesmas e para a sociedade.

Um país justo não deve ter uma educação de primeira para os ricos e uma de segunda para os pobres.

A ESCOLA NO REPASSE DE INFORMAÇÕES

Izabel Sadalla Grispino *

A Secretaria Estadual de Educação, no propósito de se aproximar mais da escola, inaugurou um canal direto de informação para pais e professores. Os professores podem tirar dúvidas, discutir assuntos delicados, como drogas, aids, sexo, como lidar com alunos violentos, com uma equipe de especialistas, através de e-mail. Segundo informações da Secretaria, o Centro de Excelência do Professor, composto por profissionais ligados à universidade, terá três dias para responder às perguntas feitas por meio do site www.educacao.sp.gov.br

Os pais têm um telefone para comunicar-se diretamente com a Secretaria e fazer observações, reclamações de problemas ocorridos na escola dos filhos. Poderão ligar para 0800-770012, enviar e-mail ou mesmo ir pessoalmente à Secretaria, numa espécie de ouvidoria. Este contato direto abre a oportunidade de reforço nas soluções dos problemas que, até então, eram apenas da competência das diretorias de ensino, sem condições reais de resolvê-los satisfatoriamente.

Um outro comunicado, agora aos alunos, diz respeito às Escolas de Ensino Superior que, burlando a legislação, oferecem cursos não legalizados, por falta do credenciado da instituição no Ministério da Educação e Cultura.

Nossos estudantes precisam estar a par das prerrogativas oficiais empreendidas a seu favor. Para protegê-los de faculdades inidôneas, o MEC elaborou um cadastro do Ensino Superior, que pode ser consultado na internet e que relaciona cursos ilegais. Através do cadastro, o aluno verifica a situação legal do curso, evitando matricular-se, por desconhecimento, em uma instituição superior de ensino sem o credenciamento no MEC.

Um curso novo obtém, inicialmente, apenas a autorização do Ministério. Depois de dois anos deve pedir o reconhecimento, que é renovável a cada cinco anos. Somente os cursos reconhecidos pelo Ministério podem emitir diplomas.

O cadastro especifica a data da criação do curso, as vagas para alunos, o tipo de diploma conferido e o endereço da universidade pública ou privada. As informações, pelo sistema, são passadas de imediato, ao estudante. Ao pesquisar uma instituição, aparecem na tela os links para as notas do Provão e para a sua relação de cursos. A nota do Provão é importante porque cursos com três resultados consecutivos D ou E no exame perdem o reconhecimento.

Na relação de cursos, o aluno pode, também, clicar em cada um deles e ter as informações legais sobre o seu reconhecimento e autorização. As instituições podem ser procuradas pelo nome ou pelo município onde atuam.

A partir da criação do Cadastro do Ensino Superior, disponível no endereço eletrônico www.educasuperior.inep.gov.br, o estudante não tem mais desculpas para freqüentar uma faculdade sem credenciamento no MEC.

Ainda, sobre um outro aspecto, a escola, na sua função social, deve fazer chegar à comunidade, através das Reuniões de Pais e Mestres, de comunicados afixados em lugares apropriados, divulgação nos jornais da cidade, assuntos relevantes, ao conhecimento geral.  É  o  caso do Censo 2000 do IBGE, que detalha informações de vários interesses, que facilitam a escolha de iniciativas a serem empreendidas e a avaliar os fatores de riscos. Essas pessoas podem acessar um programa do computador que o IBGE está vendendo. É um software que oferece dados do Censo 2000 referentes a cada rua e a cada quarteirão de 1.058 municípios brasileiros com mais de 25 mil habitantes.

O software oferece informações sobre economia, informações sociais e culturais em cada um dos chamados “setores censoriais”, isto é, dos grupos de 200 domicílios, em média, que ficaram a cargo de um mesmo recenseador no último censo. São dados minuciosos, que permitem análises detalhadas, como, por exemplo, o grau de escolaridade de seus moradores, as faixas etárias, o perfil de consumo e, até mesmo, o grau de incidência de determinadas moléstias. Os dados coletados de cada setor censitário – grupo de 200 domicílios – permitem 1.659 cruzamentos diferentes, a respeito de quem mora naquela área.

O software permite um melhor planejamento de políticas públicas – uma antiga propriedade do IBGE – como o estudo de mercado de áreas geográficas específicas, um empreendimento que se pretenda abrir na região. O interessado encontra um conjunto substancial de dados, capazes de referendar ou não o empreendimento. Assim, quem pretende abrir uma escola num determinado local, pelo Censo 2000, pode identificar em que áreas de cada bairro está a maior demanda por pré-escola, com família de renda suficiente para pagar o atendimento. São cruzamentos de dados, como este, que o novo programa do IBGE permite fazer, possibilitando informações mais precisas para o sucesso do empreendimento.

Um outro exemplo esclarecedor da utilidade do programa, divulgado pela imprensa, refere-se a bens de consumo, como o carro. Os macrodados do Censo 2000 mostraram que no Sul e no Sudeste mais de 40% dos domicílios têm carro, enquanto que no Norte e no Nordeste não chegam a 15%. Esse fato é interessante para o planejamento empresarial e mesmo para o planejamento do trânsito, que acabam tomando conhecimento em que áreas de cada cidade há a maior concentração de domicílios com automóveis.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em julho/2002)

LUZES DESPONTAM PARA A EDUCAÇÃO

Izabel Sadalla Grispino *

Ultimamente, os resultados de pesquisas educacionais, quer nacionais, quer internacionais, não têm mostrado um quadro favorável ao ensino básico brasileiro. Ao contrário, relatam situações precárias e constrangedoras, um ensino de baixo nível.

As análises internas encontram-se e completam-se com as análises feitas por organismos externos. Recentemente, em abril de 2006, o IBGE divulgou dados relativos a 2004 do Plano Nacional por Amostragem de Domicílio (Pnad), mostrando a ineficiência de nosso sistema educacional, numa visão desoladora, deprimente para a nação. O debilitado sistema de ensino reincide sobre a população brasileira, apresentando uma larga margem de analfabetos e analfabetos funcionais.

A Prova Brasil, uma avaliação do ensino básico, revelou – julho de 2006 – que a grande maioria dos alunos não consegue aprender, mostrando um ensino de má qualidade. O Pisa, realizado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), colocou os estudantes brasileiros, em leitura e matemática, em último lugar.

Uma triste realidade se impõe. O mau ensino vai tomando conta da rede pública e pouco se faz, com competência, para reter seu avanço. O nível da nossa educação é dos piores, quando se mede em testes internacionais. O crescimento do País está atrelado à educação, por isso o nosso não consegue alçar vôo.

Segundo consta, há 40 anos, a nossa renda per capita era maior que a da Coréia do Sul e hoje a coreana é 2,5 vezes a nossa. A razão está no investimento maciço feito à educação. Na Coréia, a escolaridade média é de 13 anos, a nossa de 6. Saltou em disparada em relação ao indicador brasileiro.

Falar em educação como prioridade nacional é slogan antigo. Medidas desarticuladas, ineficientes, são o que mais imperam no nosso sistema de ensino. Presentemente, surge no País um movimento empresarial, “Todos pela Educação”, lançado em 6 de setembro de 2006. Um compromisso que reúne os maiores empresários do País e propõe metas a serem atingidas até 2022, no bicentenário da independência brasileira.

Um dos grandes objetivos do movimento é envolver a sociedade civil na luta por uma educação de qualidade levantar a discussão sobre a educação, sensibilizar o País para sua importância. Conscientizar a sociedade de que não há verdadeira independência sem educação, não há crescimento da economia sem educação, pois existe uma relação direta entre educação e renda. Um indivíduo com uma boa formação escolar consegue melhores empregos, passa a ter mais renda. O mercado de trabalho requer padrões mínimos de educação.

O movimento pretende criar uma mobilização social em favor da educação. Ensinar a sociedade cobrar educação e educação de qualidade, a se inserir no processo de educação. Mostrar à sociedade que o futuro se faz do hoje, do aqui e agora, e o nosso hoje está muito ruim.

O movimento não vai entrar no mérito das práticas educativas e define metas que serão por ele cobradas. Entre as metas, a obrigatoriedade de todas as crianças com 8 anos saber ler e escrever, de todos os alunos concluírem o ensino fundamental e médio e a garantia de uma boa gestão de recursos da educação, ressaltando a escola de qualidade.

O movimento é promissor porque vai acompanhar a evolução do processo e cobrar resultados. Torcer para que a educação se engrene e se levante começa a alcançar a consciência nacional, no entendimento de que educação e conhecimento são requisitos básicos para o desenvolvimento.

Dar à educação posição de política pública suprapartidária é o melhor caminho para o exercício pleno da democracia.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em setembro/2006)

AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM: ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO

Izabel Sadalla Grispino *

Na semana retrasada abordei, no artigo “Atividades extraclasses e extra-escolares”, tópicos gerais do processo de avaliação da aprendizagem. Foi estimulador o número de pedidos para que eu voltasse ao assunto, com mais especificações.

Em setembro do ano passado, ministrei um curso, para professores e especialistas da educação, sobre “Avaliação da Aprendizagem”. Ao final de cada encontro, eu levantava, com o grupo, os aspectos importantes da avaliação, estudados no dia. Fazia uma espécie de síntese dos assuntos tratados. No término do curso, reuni as conclusões, ordenei-as, coloquei-as, didaticamente, em forma de versos, uma maneira de apresentar o tema em formato prazeroso e que foi acolhido com muito agrado pelos participantes.

Enfoquei aspectos importantes do processo de avaliação da aprendizagem, subdividindo-o em 4 itens: Conceituação, Aspectos do desenvolvimento, Momentos da avaliação e Medidas educativas. Hoje, publico, para os prezados leitores, o primeiro item, deixando, em seqüência, os demais para as próximas semanas.

 

C O N C E I T U A Ç Ã O


Setembro, mês de noventa e nove,                      Sou processo de investigação,
Na escola Estadual “Professor Barros”,            Currículo ajustado ao momento,
Realiza-se um curso e se remove                        Mais formação que mensuração,
Nobre tema enlaçado em ferros.                          Com o sócio-cultural no implemento.

É a avaliação da aprendizagem,                            Entram em jogo, neste processo,
Uma teoria muito cortejada,                                   Aquele que ensina e o que aprende,
Rica em conceito e humana abordagem,           Conjunto de relações impresso,
Mas, sofrivelmente realizada!                                Onde a família, também, se empreende.

“Hoje sou centro de sua atenção,                        Ao elaborar seu planejamento,
Digo-me injustiçada, aleijada,                                Não pense apenas no aluno médio,
Clamo-lhe à reta compreensão,                           Expanda a visão, o sentimento,
Para não continuar desvirtuada.                          A escola pro fraco é seu remédio.

Põem-me roupagem autoritária,                          Mantenha expectativa melhor,
Colocam-me rédeas de feitor,                              Em relação ao aluno pobre,
Usam-me em medida arbitrária,                          Que alcançará resultado maior,
Postulado de mau promotor.                                Se o mestre de esperança lhe cobre.

Sou aversa a essas insígnias,                             Um programa refletindo a escola,
Em vez de temor quero harmonia,                      Com objetivo em adequação,            
Medo, pavor, são como ignomínias,                   O aluno aprende, não pensa em cola,
Crescer é minha filosofia.                                     Na auto-estima verá premiação.

Promover o sucesso é meu lema,                      Programa de avaliação montado,
Fazer o ser se desenvolver,                                  Por professores da mesma escola,
Se ver, conhecer-se a si mesmo,                       Em entendimento unificado,
São fins que não posso suspender.                  Ganha consistência, não atola.”

 

* Supervisora de ensino aposentada      
(Publicado em agosto/2000)

AS TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS E OS PROCESSOS DE PRODUÇÃO

Izabel  Sadalla Grispino *

As atividades humanas apresentam, desde os primórdios da civilização, com variações de intervalos cíclicos, comportamentos mais ou menos padronizados, que refletem seu “modus vivendi”.

Cada nova ordem social, promotora de mudanças, impulsiona novos procedimentos, imprime seu cunho, a sua marca conceitual e metodológica de realização.

Já vai longe o tempo em que era possível desenvolver trabalho artesanal, unitário. Hoje, ainda, existe, sobretudo como idealismo, “hobby” ou lazer, ou como produto de civilizações mais primitivas ou de pequenas corporações.

Na contemporaneidade não há, praticamente, lugar para o trabalho individual. O grau de complexidade a que chegou o fazer humano passou a exigir, num mesmo segmento, diferentes formas do saber, trabalhado de modo complementar. Presentemente, constatamos, nos mais diversos setores da produção, da educação, da economia, a incorporação de atitudes na linha da “troca”, “parceria”, “co-gestão”, “co-autoria”, “trabalho em equipe”, “interação”, envolvendo “relações interpessoais”.

O setor escolar, também, redefine posições. O trabalho individual cedeu espaço ao trabalho conjugado, cada vez mais explorado. Cooperam-se mutuamente: direção, professor, aluno e comunidade. O professor mantém com seu colega uma interligação horizontal – troca de experiência, planejamento conjunto,  conteúdo interdisciplinar, adoção de critérios e linguagens comuns – e vertical – graduação seqüencial do conteúdo, no entendimento de que “o hoje não existe sem o ontem, o amanhã é o resultado do hoje”.

É uma realidade no cenário educacional a interdisciplinaridade, a contextualização, o construtivismo, a formação integral do aluno, a autonomia na aprendizagem, através de uma educação democrática, libertadora, essencialmente crítica – a crítica da ciência faz parte da ciência. Ontem, falávamos em transmissão do conhecimento, supondo um aluno passivo, depositário. Hoje, falamos em construção do conhecimento, supondo um aluno ativo, criativo. Fazemos um corte no modelo tradicional, onde tudo vem pronto.

O planejamento maior do ensino converge para o binômio professor--aluno, o objetivo maior do ensino é o aluno. Para atingi-lo, a escola precisa estar em consonância com a realidade que a cerca. Entrosar-se com esta realidade e trazê-la para o interior da escola são passos importantes para desenvolver, com êxito, seu projeto educacional. Entra num sistema de parceria com a comunidade, mantendo com ela uma troca permanente. A comunidade participa da vida da escola e a escola, da vida da comunidade, procurando ajustar-se uma à outra. A comunidade empresta o seu saber e a sua língua populares e a escola os absorve e os transforma em saber aperfeiçoado, em língua culta. A escola procura interpretar os valores, os anseios da comunidade e dar-lhe respostas favoráveis. Cria-se um intercâmbio, onde a organização da escola, as normas educacionais resultam da parceria de regras, estabelecendo-se uma co-gestão. O pai participa da escola numa conceituação bem diferente daquela em que, praticamente, só era chamado para ouvir reclamação do filho, por alguma falta cometida. Hoje, procura-se conscientizá-lo de todo procedimento utilizado pela escola, buscando-se uma mútua interação. Profissionais credenciados da comunidade são convidados a participar diretamente do ensino, em sala de aula, dando noções de culinária, de carpintaria, de dança, de balé etc. Busca-se uma participação ativa e não meramente simbólica, como, por exemplo, a dos pais. A tendência atual é canalizar a sociedade civil para uma grande participação na educação.

O ensino nas escolas, visando uma aprendizagem efetiva, uma diminuição da repetência e da evasão, não pode criar uma cultura própria, transformando a sala de aula numa estrutura dissociada da vida comunitária, por conseguinte, da vida do aluno. Estamos voltando às origens, à famosa barganha do início da humanidade, perpetuando a sabedoria da solidariedade, da cooperação, para a sobrevivência das instituições e do próprio indivíduo.

Entre os professores, a parceria manifesta-se por uma co-autoria no levantamento de prioridades, de objetivos educacionais, de conteúdos afins, de metodologias, de estratégias, do sistema de avaliação e tantos outros itens correlatos, pertinentes ao planejamento de ensino. Trocam-se experiência e idéias que repercutem na identidade profissional do ensino.

A parceria do professor com o aluno cria, na sala de aula, um clima interativo, um conhecimento articulado, facilitadores da comunicação e da abordagem da educação democrática e libertadora. Ao trabalhar o aluno, sua matéria-prima, o professor marca sua presença na sociedade, quando lhe entrega o resultado de sua obra maior, um cidadão capaz, consciente que de seu desenvolvimento resulta o desenvolvimento do País.

Para chegar a esse bom termo, o professor precisa adequar o seu ensino ao tipo de aluno que recebe, precisa falar, como emissor, a língua do aluno, o receptor. Conhecê-lo bem, conhecer seu universo cultural, deve ser o ponto de partida, centrando a aprendizagem em bases no real, no concreto, e evitar, assim, uma possível inadaptação do aluno aos métodos da escola.

Escola é vida, é experiência de vida. Investigar o cotidiano do aluno, trazer sua vida à escola, relacioná-la, estrategicamente, aos conteúdos do currículo, vão tornar a aula mais atraente, mais condizente com esse aluno.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em junho/2000)

CULTURA AFRO-BRASILEIRA

Izabel Sadalla

Fala-se muito em discriminação racial – realmente ela parece existir – e quer-se, por força de lei, bani-la. Porém, discriminação não é coisa que se acabe por determinação. Discriminação é fator cultural, enfoque educacional, conquista de méritos próprios. Educa-se, orienta-se, reflete-se sobre as causas que levam à discriminação e busca-se debatê-las, eliminando preconceitos, que são frutos do desconhecimento.

No caso em questão, sobre o povo negro, devem-se passar esclarecimentos, já nos bancos escolares, sobre o valor desse povo, o sofrimento e o isolamento por que passaram, a chaga social que foi a escravatura, a dívida social que o povo brasileiro tem para com o negro. Recuperar a sua dignidade é ponto que se impõe, valorizando a sua cultura, historiando o seu povo, mostrando, aos alunos, a importância que a raça negra teve na história nacional.

Sob esse prisma, considero louvável a lei 10.639, sancionada em 10 de janeiro de 2003, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que determina às escolas do ensino fundamental e médio a inclusão, a partir deste ano, do ensino da história e cultura afro-brasileira. Os currículos deverão abordar a história da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra e sua contribuição nas áreas social, econômica e política.

A cultura afro será assunto de todas as disciplinas, mais especificamente nas aulas de história e educação artística. A nova lei institui, também, no calendário escolar, o 20 de novembro como “Dia da Consciência Negra”. A nova Lei de Diretrizes de Bases da Educação (LDB) já faz menção sobre a contribuição cultural dos negros.

Apraz-me tomar conhecimento da adoção de medidas governamentais ou da sociedade civil que vêm de encontro ao favorecimento da diversidade racial. Estímulos na área social, no mercado de trabalho, visando à ascensão profissional do negro, estão sendo pensados e postos em prática. São empresas que oportunizam a contratação de afro-descendentes, que se dispõem a reservar um percentual de vagas para trabalhadores negros em seus cursos de treinamento, atualização e aperfeiçoamento. Dessa forma, estudando, reciclando-se, este trabalhador prepara-se para obter sucesso, podendo exercer, condignamente, a sua função.

É isso que precisa acontecer, dar condições para que o candidato à universidade ou ao mercado de trabalho se qualifique, se posicione em pé de igualdade aos demais concorrentes. Estabelecer, simplesmente, uma cota, sem qualificar o pretendente, é contribuir para a discriminação, é dar, gratuitamente, um privilégio que não resulta em conquista própria, e que, portanto, não leva à auto-afirmação. Afinal, os negros só carecem de oportunidades para crescer. São iguais a todos os que vivem comunitariamente no País, iguais em inteligência, em devotamento, não necessitando de favores que podem, inclusive, voltar contra si mesmo.

A criação de cotas enfraquece o critério de mérito, desvaloriza o conhecimento, influi mal sobre a motivação pessoal. Estamos na era do conhecimento, dele não podemos nos furtar. O mercado de treinamento e educação de profissionais vem se aquecendo como tendência mundial. Em tempos de alta tecnologia, de redução de postos de trabalho e competitividade acirrada, vence quem melhor preparado está. Nesse contexto, condescendência não resulta em benefício, atrapalha, humilha.

A força moral e a inteligência rechaçam a idéia de superioridade de uns sobre outros, de uma cor sobre outra. O País precisa acordar para a responsabilidade de levar educação de qualidade às camadas de menor poder aquisitivo, independentemente de etnias. A integração racial das minorias se faz baseada no respeito que a atuação pessoal e profissional vier a conquistar. Privilegiar e não capacitar é reforçar o preconceito, é manter a exclusão social.

Só transformaremos a realidade em que vivemos quando soubermos estender a todos as mesmas formas de tratamento. Comenta-se que somos um País de negros e que só temos brancos na universidade, mas, afianço-lhes não serão as cotas que promoverão a justiça social reclamada e sim um ensino que capacite, que promova qualidade a todos indistintamente.

A segregação racial surge em vários setores da atividade humana no Brasil. No magistério, por exemplo, 66,2% dos professores são brancos, mas com variações por níveis. Brancos são 74,8% no ensino médio e 83,1% no superior; da 5.ª à 8.ª série são 65,4%; da 1.ª à 4.ª série e na educação infantil os negros somam 40%. No 1.º ciclo, onde se encontram quase 40% dos professores, 47,5% são negros e 35,5%, brancos. Ou seja, os negros se concentraram em níveis que exigiam menor qualificação.

Se quisermos uma transformação social, compatível com a exigência educacional da época, temos que “lavar os olhos”, como dizia Darcy Ribeiro, atuar com honestidade, com democracia sem demagogia.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em abril/2003)

MUDANÇAS NO PROCESSO DE APRENDIZAGEM

Izabel Sadalla Grispino *

As deficiências do nosso sistema de ensino, no que se refere aos níveis de aprendizagem, são detectadas a cada passo das avaliações realizadas. Há uma queda geral em todos os indicadores de desempenho do sistema. Algumas escolas procuram se recuperar, extrapolando, rompendo barreiras tradicionais, buscando novos modelos que possam vir em socorro à instituição. Elas se apóiam na imaginação pedagógica, como queria Anísio Teixeira, vêm descobrindo e inspirando-se em novos referenciais. Revolucionam e transformam todo o seu paradigma. As que possuem professores melhor formados conseguem aplicar com êxito métodos de ensino diferenciados.

O espaço físico modifica-se. Derrubam-se as paredes das salas de aula e agrupam os alunos em amplos salões. Os alunos estudam em grupos de 5, escolhem, eles mesmos, as atividades da semana, ouvem música clássica, diminuindo a atenção voltada ao professor. As provas são eliminadas, assim como as aulas expositivas. Modifica-se o tipo de organização da escola, abolindo a segmentação em anos de escolaridade. O fim da série significa individualização, por isso não faz sentido fazer testes ao mesmo tempo para todos os alunos. A avaliação da aprendizagem não é igual para todos e nem aplicada globalmente. Não há uma padronização de horário. É uma avaliação individual e é o aluno que diz quando está pronto para ser avaliado.

Cada criança tem um ritmo próprio, diferente de aprendizagem e é respeitado pela escola. Os objetivos, as tarefas e os deveres dos alunos são decididos por eles mesmos numa assembléia, porém sempre ajudados pelo professor. Não há salas de aula, nem séries, um salão agrupa, por exemplo, três quintas séries, numa média de 105 alunos e têm três professores à sua disposição. O professor vai aprendendo a tornar-se polivalente, procura orientar o aluno fornecendo-lhe bibliografia e espera que ele conclua o assunto, não dá a ele a resposta.

Esses alunos realizam atividades de diferentes disciplinas, não há explanação da matéria por parte dos professores que passam pelos grupos, tirando dúvidas e acompanhando o raciocínio do aluno. Uma música suave ajuda-os na concentração. O aluno liberta-se da superproteção e caminha para a autonomia na aprendizagem, fazendo suas atividades, mesmo na ausência do professor. Ele tem, contudo, acompanhamento individual e avaliações contínuas, ajustadas a seu perfil.

Essas escolas fogem do modelo convencional, aproximam-se da proposta, que surgiu nos anos 20, com a escola inglesa Summerhill, fechada depois de mais de 70 anos.

A educação é o melhor empreendimento para operar transformações efetivas na sociedade, diminuindo a distância entre as classes e desenvolvendo o potencial dos indivíduos. Mas, é preciso que seja uma educação de qualidade, exigindo compromisso e envolvimento honesto por parte dos professores. Quando a escola acredita que pode melhorar, ela busca o caminho, fazendo um estudo realista sobre o porquê da ocorrência negativa. Uma outra estratégia, que vem sendo posta em prática e surtindo bom efeito na melhoria do ensino, é a elaboração de um plano envolvendo a comunidade. A comunidade como um todo, todos os funcionários, líderes comunitários, líderes das empresas, da Igreja e do governo, entre outros. Nessa situação, a escola passa a ser importante para toda a comunidade que se aprimora nessa direção, fazendo intervenções proveitosas. Passa a confiar mais na escola, participando dela com mais freqüência, criando vários tipos de eventos.

Todo educador sabe que quanto mais rico o aluno maior a probabilidade de se sair bem na escola, quanto mais pobre, pior o desempenho. Os pobres, isentos ou de poucos bens culturais, são os mais atingidos pelo insucesso na escolaridade. A escola precisa, entretanto, suprir as deficiências do aluno carente, fazendo-o alcançar o sucesso. Alargar as suas competências, oferecer-lhe experiências diversas, alternativas de aprendizagem, incorporar ao currículo atividades extracurriculares, formando mais que informando. Sem condições financeiras para consumir os bens culturais, o aluno pobre fica muito limitado quanto à amplitude do conhecimento.

Vimos, através dos jornais, que alunos de alta renda  tiveram pontuação 70% superior à de pobres no último Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O estudo foi realizado pelo Instituto de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), do Ministério da Educação, divulgado em julho. “No Enem, se sai melhor quem está exposto a uma maior quantidade de informação”, diz o reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Carlos Henrique de Brito Cruz.

O Enem é um exame aplicado desde 1998 para os concluintes do ensino médio. No ano passado, teve a participação de 1,3 milhão de estudantes. A média geral na prova objetiva, que tem 63 testes, foi de 49,5. Essa é a primeira vez que se quantifica a diferença nas notas dos alunos de acordo com suas classes sociais. Estudantes de famílias de até um salário mínimo distanciam-se até 30 pontos daqueles de mais de 50 salários. O estudo do Inep mostrou que jovens cujas famílias têm bens como computador, internet e TV por assinatura tiveram média de 63 pontos na prova, numa escala de 0 a 100. Quem não tem nenhum desses bens ou pouco deles ficou com média de 41 pontos no Enem. A diferença de notas entre alunos que nunca lêem jornais, revistas, livros e leitores assíduos ficou em 7 pontos.

A escola, ao elaborar seus projetos, deve ter presente dados de avaliações, situar-se no plano real, pisar em terra firme e abraçar com vontade e honestidade o seu propósito de avançar com acertos.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em novembro/2004)

UM QUADRO DO ENSINO SUPERIOR NO BRASIL

Izabel Sadalla Grispino*

O Censo do Ensino Superior divulgado, em 22 de novembro de 2002, pelo Ministério da Educação (MEC) mostra um crescimento de matrículas nesse nível de ensino. O número de alunos freqüentando o ensino superior privado foi quase três vezes maior do que nas instituições públicas, em 2001. No total de 3 milhões de alunos na graduação, mais de 2 milhões estudam em escolas particulares. 395 mil alunos se formaram no ensino superior, sendo o curso de Direito o que mais concedeu diplomas, graduando 44.202 bacharéis.

Entre os formandos, 35.149 concluíram o curso de Administração, pouco abaixo de Pedagogia, com 37.083. De acordo com o censo, as universidades formaram 8.004 médicos e 12.767 jornalistas. Do total, 263 mil cursaram a rede privada de ensino superior, enquanto 55 mil estudaram em instituições estaduais, 65 mil em federais e 12 mil em municipais.

A expansão é bem mais rápida na área privada. Nas universidades federais, o número de alunos cresceu 4,2%, em 2001, enquanto a taxa de expansão das instituições privadas foi quatro vezes maior: 15,7%. O censo revela a predominância do sexo feminino sobre o masculino na freqüência às faculdades. Os universitários são na maioria mulheres e estudam em cursos noturnos.

O crescimento em larga escala no ensino superior da área privada não trouxe correspondência quanto ao quesito qualidade dos profissionais formados. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) tem sido uma das entidades mais combativas contra o surgimento do que classifica de “fábricas de diplomas”, pelo baixo nível de conhecimento generalizado dos bacharéis.

O conjunto das instituições de ensino superior brasileiras oferecia, em 2001, 12.155 cursos de graduação. Porém, estudar numa universidade pública e gratuita é um sonho quase impossível para a maioria dos estudantes brasileiros, estudantes que freqüentam ou freqüentaram a educação básica pública, com seu baixo nível de ensino. Como sabemos, a expansão quantitativa do sistema educacional brasileiro não foi acompanhada da qualidade e a maior escolaridade, ou seja, o maior número de anos na escola, não se traduz em mais renda e melhor qualidade de vida para os futuros profissionais. Sem uma educação de qualidade, no sistema geral de ensino, não se pode esperar, de fato, um equilíbrio social, um contexto capaz de criar oportunidades iguais para todos.

Além da qualidade, existe, também, a falta da educação infantil, um grande fator da dificuldade de alfabetização do ensino fundamental. Segundo o Censo do IBGE, das crianças que chegam analfabetas à 4.ª série desse nível, 81% não passaram pela pré-escola. Pelas avaliações do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão do MEC, uma considerável parcela dos estudantes sabe menos do que deveria, na série escolar em que se encontra, e, outro tanto está atrasado quanto à idade e série. Freqüentam uma série que não tem correspondência com a idade.

Há muito, pois, que fazer para que o sistema escolar público represente fator de oportunidades para a classe social menos favorecida.

Os alunos devem prestar atenção às características que indicam  uma boa faculdade, quais sejam:

n  Turmas com, no máximo, 50 alunos;

n  Maioria dos professores com títulos de mestres e doutores;

n  Maioria dos professores em tempo integral;

n  Boas instalações de laboratórios e bibliotecas;

n  Além de graduação, cursos de pós-graduação.

Contudo, no ensino superior, surge uma luz através dos cursos de graduação de serviços do Senac. As Faculdades Senac, que se expandiram no fim dos anos 90, com seus cursos técnicos, oferecem graduação de alto nível, ligada aos serviços e comércio. Encontra-se em fase final de construção um moderno complexo educacional, um campus, em Santo Amaro/SP, de 120 mil metros quadrados para o ensino superior. Em áreas nada tradicionais, oferecem cursos de Moda, Hotelaria, Turismo, Gastronomia, Fotografia, Meio Ambiente, entre outros. O campus terá biblioteca, quase do tamanho de um campo de futebol e com um acervo especial sobre moda. Grandes espaços serão destinados a laboratórios e a um centro para estudo de gastronomia. A meta é ampliar o número de alunos de 4.200 existentes hoje para 14 mil até 2010.

A preocupação maior dos dirigentes do Senac é com a qualidade dos cursos, com a aprimorada formação dos educandos e colocar esses cursos em sintonia com o mercado de trabalho. Preocupa, também ao Senac, oferecer uma formação profissional sólida, humana e ética.

Em algumas áreas, o Brasil precisa mais de técnicos do que de acadêmicos e sua maior viabilidade é que os cursos do Senac seguem a demanda do mercado de trabalho e, caso este mude, mudam-se também os cursos.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2003)

A PRESENÇA DOS PAIS NA ESCOLA

Izabel Sadalla Grispino *

Cada vez louva-se mais a participação dos pais na vida escolar. Diante da atual conjuntura social, da rebeldia e violência juvenil que reinam na sociedade e que acabam por se infiltrar nas escolas, diante da dificuldade organizacional por que passam as instituições públicas, por falta de recursos humanos e financeiros, a presença dos  pais e de voluntários da educação, vem sendo vista como de alta valia.

 

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A INCLUSÃO DIGITAL

Izabel Sadalla Grispino *

As novas tecnologias são ferramentas importantes para a escola atingir a modernidade. Contudo, o que se constata é uma forte resistência em utilizá-las, aproveitá-las, dando mais sentido à aprendizagem.

 

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A JUVENTUDE BATE À PORTA DE DEUS

Izabel Sadalla Grispino *

A violência juvenil disseminada por toda parte, as apreensões, os estremecimentos, levam a conjeturar sobre o futuro da juventude. Assusta-nos ver transitando pelo mundo uma população jovem transviada, desenfreada, perdendo, para as drogas, a capacidade de viver, de sonhar.

 

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