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Artigos Educacionais

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REFLEXÕES SOBRE O RESULTADO DA PROVA BRASIL

Izabel Sadalla Grispino *

Estuda-se o porquê de o ensino no interior do Estado, principalmente nas pequenas cidades, ser melhor que nas escolas da capital. A Prova Brasil confirmou, no começo de julho, que as escolas públicas do interior têm, em média, desempenho melhor que as das cidades grandes.

A Prova Brasil, um importante mecanismo de avaliação do ensino básico, revelou, nos testes, que a grande maioria dos alunos apresenta um aproveitamento bem abaixo do desejado. Revelou, também, um ensino de melhor qualidade nas escolas do interior.

Essa Prova foi aplicada em novembro de 2005 a 3,3 milhões de alunos em 40.920 escolas públicas urbanas de 5.398 municípios. Competência, como domínio de linguagens, capacidade de comunicação e interpretação, construção de argumentos, ficaram fortemente a desejar. Uma grande parte de alunos não consegue identificar o tema de narrativas simples e entender textos com um mínimo de complexidade. O resultado foi deveras frustrador.

Os estudos, sobre a vantagem do ensino no interior do Estado, concluíram o que de velho já se sabe: baixa rotatividade de diretores e professores, participação dos pais e da comunidade, praticamente, no dia-a-dia da escola, professores, em grande escala, formados no ensino superior e freqüentando cursos de reciclagem profissional, tendo salários mais condizentes com a vida simples do interior.

Muitas escolas utilizam-se da metodologia de levar informações constantes aos pais, estimulando-os a participar da escola, do processo de avaliar constantemente o aluno e verificar em que ele pode estar falhando e aplicar a recuperação paralela. Além das provas, os alunos são avaliados por comportamento e participação em sala de aula.

As funções sociais assumidas pela escola devem vir acompanhadas da gestão pedagógica. Devem-se diminuir os encargos burocráticos do diretor de escola para não afastá-lo do foco principal, que é o acompanhamento do ensino-aprendizagem, que é saber se os alunos estão, realmente, aprendendo.

A idéia que vem dominando no Estado de São Paulo, como resultado dos estudos, é eliminar os três turnos diários da escola, deixando apenas dois, o que seria um grande passo.

É evidente que a atuação devotada e criteriosa da escola e do professor resulta no bom andamento do ensino. Sem uma boa escola, como formar capital humano necessário ao desenvolvimento da Nação?

* Supervisora de ensino aposentada        
(Publicado em agosto/2006)

ATIVIDADES EXTRACLASSES E EXTRA-ESCOLARES, INCLUÍDAS NO SISTEMA DE AVALIAÇÃO ESCOLAR

Izabel  Sadalla  Grispino *

O aluno é o vetor que traz para a escola o assunto, o tema. Analisa-se o conhecimento à luz de quem aprende e não de quem ensina. Quanto à ação, tira-se o foco do professor e passa-se para o aluno. Aprende quem faz e não quem ouve. A diferença está entre professor que faz e professor que manda fazer.

Levar o aluno a agir facilita o desenvolvimento do método construtivista. Ademais, a ação confere ao homem a superação de si mesmo. Ele é compelido a agir, é de sua natureza. Mesmo sabendo-se mortal, mesmo sabendo-se um peregrino que transita, temporariamente, por esse mundo, não sabe por qual elan extraordinário é impulsionado a agir, a se estruturar, a deixar, na passagem, a sua contribuição.

A preocupação com a educação integral do aluno tem ensejado atividades extraclasses, atividades que saiam do discurso da sala de aula e se materializam em ações. O professor deve pesquisar processos educacionais diferenciados, perceber que educação não se confina a espaços escolares tradicionais. Levar os alunos a observações locais, em diferentes pontos da cidade, ou de outras localidades, além de favorecer o desenvolvimento de habilidades de pensar, de associar causa e efeito, de tomar decisões, propicia vivenciar o companheirismo, a compreensão, o respeito. Vai tornar a teoria mais perto da realidade, quebrar a distância entre conhecimento e vida, facilitar a comunicação.

Atividades organizadas fora da sala de aula complementam o trabalho do professor. Não é recreação, as visitas têm objetivos determinados num momento do currículo. Os caminhos para a aprendizagem são amplos, os estímulos diversificados, tendo sempre que se ressaltar as potencialidades anunciadas pelo aluno.

A escola deve, também, considerar as atividades extra-escolares, como a formação de um coral, de um torneio de vôlei etc. e anexá-las às atividades curriculares. Não é só em sala de aula que se aprende. A escola dedica-se, sob as mais diversas formas, a um processo humano de crescimento, de conscientização dos valores perenes da alma, do significado maior da vida. Numa de suas últimas palestras, Darcy Ribeiro perguntava: “Será que se perdeu o sentido real do processo educativo, confundido com ensino?”

Todos os momentos do processo educativo devem passar pelo processo de avaliação, sejam os desenvolvidos em sala de aula ou fora dela. O professor precisa avaliar como educador e não como um comunicador de informações, interessar-se pelos alunos enquanto pessoas, valorizando suas atitudes e responsabilidade. A cada tópico, deve o professor ter conhecimento do grau de assimilação do conteúdo e dos comportamentos esperados, abrangendo, simultaneamente, informação e formação. Deve considerar a avaliação como parte integrante do processo de aprendizagem, como trabalho contínuo e sistematizado e não, simplesmente, um aspecto final da aprendizagem. Assim, por exemplo, quando um professor procura, em aula, verificar os alunos que estão com dificuldade de aprender e exatamente em que encontram dificuldade, está realizando avaliações. Quando um professor se preocupa, numa excursão, em descobrir se seus alunos estão se comunicando, comportando-se de forma independente e responsável, está pensando em avaliação.

A avaliação da aprendizagem é um problema que preocupa o professor em seu trabalho diário: a todo momento ele depara com a necessidade de avaliar. A avaliação consiste na constatação da situação do aluno e do próprio professor em relação ao plano proposto e deve abranger conhecimentos, habilidades e atitudes. Um aspecto fundamental da avaliação é a coleta de dados para o replanejamento do trabalho. Ela consiste num diagnóstico do desenvolvimento do aluno, possibilitando planejar um trabalho sobre dados reais, levando ao aperfeiçoamento das situações da aprendizagem e do currículo como um todo. Uma vez diagnosticada a situação, torna-se possível modificá-la de acordo com as necessidades detectadas. Ela é, pois, colocada numa perspectiva de diagnóstico e prognóstico. Essa proposição difere daquela em que a avaliação é um momento especial do ano letivo e cujos resultados são esperados para serem utilizados unicamente nas decisões de promoção ou retenção dos alunos ou reagrupamento de classes.

Por outro lado, a avaliação é, também, instrumento importante da integração do aluno no processo de aprendizagem, na medida em que este dela participa ativa e conscientemente, através de um sistema trabalhado de auto-avaliação.

A avaliação é um capítulo importante, essencial, no processo ensino-aprendizagem, se mal compreendida, portanto, mal aplicada, os resultados serão desastrosos. Comumente, a escola utiliza-a num processo de medida, aferindo apenas conhecimento

Avaliar é diagnosticar o desenvolvimento do aluno, ao invés de julgar. Enquanto medida restringe ao aspecto quantitativo; avaliação aplica-se tanto aos aspectos quantitativos como qualitativos do desenvolvimento. Deve focalizar especialmente aspectos do desenvolvimento como: relacionamento social, interesses, sentimentos em relação a si mesmo e em relação aos outros, processo de trabalho...

As atividades extraclasses, extra-escolares favorecem a educação integral, auxiliam o desenvolvimento dos aspectos comportamentais na formação de valores, ao mesmo tempo que trabalham os aspectos quantitativos, as habilidades e as competências.

* Supervisora de ensino aposentada       
(Publicado em julho de 2000)

UM OÁSIS NO MEIO DO DESERTO

Izabel Sadalla Grispino *

Num cenário de desolação do nível de ensino de grande parte das escolas oficiais, surgem, esporadicamente, escolas abraçando experiências educacionais promissoras, alentadoras. São escolas que não nos deixam esmorecer e nos fazem acreditar que a reabilitação do ensino pode ainda ser real.

É preciso haver curiosidade, vontade de conhecer, de aprender. Aparentemente, uma escola igual às demais torna-se realce nos processos de ensino-aprendizagem. É uma escola que tem muito a mostrar, a ilustrar, o passar experiências e ajudar os professores no trajeto da sua prática didático-pedagógica.

A pesquisadora educacional Jane Wreford, a serviço do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, analisou várias escolas públicas da Grande São Paulo, em 2002. Meio a muitos desencantos, como a falta de preparo do professor da rede oficial para atrair a atenção dos alunos, ela se deparou com uma escola estadual, na periferia de São Paulo, que computou excelente. A Escola Parque Piratininga II, escola de comunidade pobre, em Itaquaquecetuba, extremo leste da metrópole, chamou-lhe a atenção pelo bom estado de conservação e pelo seu processo de aprendizagem.

Logo, ao entrar, observou um salão de entrada pintado, decorado com trabalhos dos alunos, mobiliado com cadeiras e mesa de junco, aspecto de sala de espera. A escola possui uma organização pedagógica capaz de servir de modelo. Nas paredes da sala dos professores, havia gráficos expostos, um para cada série, que mostravam as mais recentes avaliações de professores de cada matéria. Ao observá-los, notavam-se as áreas preocupantes por classe e por disciplina. Junto aos gráficos, no lado oposto, estavam os planos de trabalho de cada uma dessas áreas.

A diretora da escola conta com indicadores de rendimento próprios. O ensino é planejado e avaliado. Os novos professores são treinados para usar método de ensino interativo, aplicar projetos que atraem o interesse dos alunos e possibilitam trabalhos originais. Ficam à disposição dos professores substitutos os dados sobre cada classe, com planos de ensino em andamento e cópia da ficha de cada aluno.

Os alunos depositam sugestões numa caixa que serão, semanalmente, avaliadas pelos professores. Os períodos escolares são organizados por faixa etária, propiciando um convívio mais harmonioso e salas de aula montadas com materiais e livros apropriados. Nelas encontram-se expostos trabalhos dos alunos, desenhos, numa apresentação agradável. Incentivam-se os alunos a permanecerem na escola após o término das aulas. A biblioteca da escola, embora modesta, com cerca de 6 mil livros, é muito bem organizada. Todos os livros são identificados por títulos, na lombada, e expostos de modo atraente. A biblioteca fica aberta aos alunos e à comunidade por todo o horário de aula. Os atendentes são voluntários, entre eles alunos mais velhos, fora do período de aulas.

Os maiores problemas, relatados pela direção, são a grande rotatividade e as faltas dos professores. A maioria vem de outras regiões da cidade, sem incentivo para trabalhar na periferia. Ao lidar com tantos funcionários novos, a escola despende muito tempo treinando-os para o método adotado.

Esse treinamento dado a todos os professores, novos e antigos, é uma forte característica positiva, da escola, a ser ressaltada. Outras características são a ênfase ao trabalho de equipe, à auto-estima dos profissionais e  currículo e gráficos da avaliação dos alunos, expostos nas paredes da sala da diretoria.

Apesar de a escola estar inserida numa região assolada pela violência, não havia paredes pichadas. A escola, ao trabalhar a comunidade, passou a ser respeitada e protegida por ela. Os alunos limpam a sola do sapato, tiram o barro quando chove, para entrar na escola. São alunos envolvidos com a aprendizagem, não faltam às aulas e interessam-se pelo material didático; muitas salas têm TVs e vídeos, bastante usados pelos alunos. Os professores aprendem que nessa escola “as aulas precisam chamar a atenção dos alunos”. Vem daí, em grande parte, a presença maciça dos alunos em sala de aula. O nível de conhecimento dos alunos é tido como muito bom, assemelhando-se ao das escolas particulares. Cultiva-se um ambiente escolar cooperativo, evitando a competição, gerando calma, ausência de brigas. A orientação dada é para que todos os alunos se sintam igualmente importantes na escola.

O rendimento dos alunos é discutido em reuniões semanais e mensais, em conselhos formados por professores e estudantes. O aluno participa da avaliação e conscientiza-se da importância de estudar.

A escola aprimora-se na oferta da merenda escolar. É feita com alimentos frescos, de qualidade e preparada diariamente. Servem-se verduras, legumes e frutas todos os dias. Carne e ovos regularmente. A higiene da cozinha e do refeitório é notável. É oferecido aos alunos um complemento nutricional que os revigora e os deixa mais aptos às aulas. Os alunos elogiam a comida que comem.

Dentre os projetos da escola, há projetos-piloto destinados a promover a inclusão social, fortificar as relações comunidade/escola, criando entre elas cumplicidade e ajuda mútua. Os pais começam a entender a importância da participação direta na escola do filho, passando, inclusive, a ela a sensação de mais segurança. Quando os filhos têm problemas no estudo estes são discutidos por pais e professores, evitando que um culpe o outro, mas fazendo com que cada um dê  o melhor de si para a aprendizagem do aluno. Cria-se um pacto de responsabilidade mútua pelo comportamento e pela aprendizagem do aluno.

Essa é uma escola que deve ser preservada. É uma referência educacional que precisa ser cuidada, referência que reverterá em benefício dos estudantes, recursos de que a nação precisa para se desenvolver.

* Supervisora de ensino aposentada.     
(Publicado em março/2004)

FACES DA VIOLÊNCIA

Izabel Sadalla Grispino *

A criminalidade está crescendo e o povo está em pânico. Ela se expande, evolui de tal modo que vivemos por ela cercados, em período integral.

Há alguns meses, escrevi sobre violência no artigo “A violência nas escolas”, revelando a face da miséria, do abandono, do desemprego, da exclusão social. Retratava a classe pobre, crianças e jovens das favelas, das periferias. Dizia eu: “A violência, entretanto, não é fruto da escola, não se origina nela. A escola trabalha com o efeito, as causas lhe são externas. A violência nasce nos becos das favelas, nas ruelas escuras das periferias, na urbanização desenfreada, desordenada. Ela nasce da miséria, do desajuste familiar, da ausência de condições razoáveis de vida, da ausência de educação. A violência é fruto de um conjunto de fatores socioculturais, por isso a escola sozinha não tem como resolver o problema. É necessário uma ação de todas as instituições, ações multidisciplinares, interdisciplinares, envolvendo escola, família, igreja, judiciário, polícia e governo”. Pesquisa feita pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade de São Paulo demonstra a relação direta entre pobreza e violência. Demonstra, ainda, que a violência se concentra em áreas de maior população, com moradores de menor renda e de baixa escolaridade.

Hoje, outra face da violência se descortina. De suas origens maltrapilhas, ela avança e atinge a classe média e a classe média-alta. Notamos, com freqüência, em noticiário policial, crimes, vandalismo, consumo e tráfico de drogas, estampando jovens de perfil revelador de classes abastadas. O novo delinqüente veste roupa de grife, freqüenta colégios caros, tem carro próprio. É jovem bem-nascido, que se caracteriza por comportamento anti-social. Os fatores apontados para esse desajuste recaem, prioritariamente, sobre a desestruturação da família. Pais separados, desestabilizando o emocional dos filhos, a perda de referência ou pais, mesmo juntos, que pecam pela falta do exercício da paternidade. Pais excessivamente preocupados com sua ascensão profissional, sem tempo e nem vontade para conversar, para interessar-se pelo dia-a-dia do filho ou simplesmente sem vontade de abraçar, fazer o filho sentir-se amado e importante. Esse distanciamento derruba pilares na estrutura da alma, cria vazios afetivos. Esses pais procuram compensar suas ausências com valores materiais, carro, boa mesada, jóias, celular, empurrando o jovem para o consumismo. Na ânsia de querer bens, cada vez mais sofisticados, os jovens acabam enveredando por sendas ilícitas.

Os pais, sempre distantes, sempre “ocupados”, abrem caminho para que a permissividade aconteça, para uma educação sem limites, sem balizas éticas. Os jovens começam por transgredir normas e valores e acabam caindo num consumismo agressivo. Filhos precisam de pais por perto, de carinho, de atenção, de companheirismo. Precisam de uma mão firme, conduzindo, orientando. A falta do suporte emocional gera insegurança, fragiliza e torna o jovem presa fácil do ilícito. O fortalecimento da família, as relações pais e filhos devem ser aprimoradas e pais conscientizados da importância do diálogo, do amor na criação dos filhos e do sentimento de religiosidade.

Entre outros agravantes da violência, citam-se a influência via TV, cinema, os delírios dos shows de auditório, a valorização do sucesso, independente do meio utilizado, ou os desvios comportamentais, vistos com aparência de normalidade.

O crime evoluiu em toda a sua dimensão. A criminalidade atinge todas as camadas sociais. Agiganta-se e tem sua outra face nas megas organizações nacionais e internacionais, que se apoiam no próprio progresso tecnológico e empresarial. O crime organizado atua com eficiência, portando poderoso arsenal bélico. Confronta-se, entre nós, com uma polícia depauperada, tanto em recursos humanos quanto instrumentais, sempre havendo grande possibilidade de o bandido não ser apanhado e, quando preso, se evadir. Ele foge pelo subsolo, por terra, pelo ar, quando não, garante sua impunidade através de um esperto advogado, que encontra no Código de Processo Penal chances de recurso e de prescrição da pena. A violência tem, também, a face das táticas de guerrilhas, dos movimentos armados, que se especializam em assaltos a bancos e, mais freqüentemente, em seqüestros milionários.

Tráfico de drogas, contrabando de armas e seqüestros saem dos  bilhões de dólares que se sustentam, largamente, pela lama das favelas. Hoje, populações inteiras de  favelas vivem à custa das drogas, único emprego ali existente. A miséria, material ou espiritual, é o instrumento que sustenta o banditismo, que lhe dá suporte financeiro.

Voltando à escola, direi que ela precisa conhecer para combater, para conscientizar. Deve aproveitar as reuniões de Pais e Mestres, os Conselhos de Escola, oportunizar outros encontros, para esclarecer, para discutir e atuar, conjuntamente, na prevenção da violência. A escola exercerá um papel fundamental no combate à criminalidade, na medida em que conclamar pais, comunidade a se juntarem a ela, nessa luta de extrema gravidade e que exige a participação de todos nós. Este artigo inspirou-me os versos abaixo:

 

SOCIEDADE AO DEUS-DARÁ

 

Abro o jornal; morte, violência,

É o caos, uma irreverência!

São barbáries tão recorrentes,

Que passam como inexistentes!

O homem parece anestesiado,

Prostra-se, não tem mais reação,

É um ser vivendo angustiado,

Sofrendo, sem apelação!

Miséria e lama nas favelas,

Todo um pessoal desempregado,

Coabitando à luz de velas,

Num viver marginalizado!

Brutal inversão de valores,

Cultiva dores, nunca flores,

Cidadania que é bem comum,

Torna-se privilégio de alguns!

O grito rouco de socorro

Fica congelado no morro,

Ensurdecido ao governante,

Com seu discurso humanizante!

De oratória em oratória,

Fica mais negra a trajetória,

E essa vida, que é tão bela,

Está virando triste cela!

 


* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em agosto/2005)

UM PARALELO ENTRE O ENSINO OFICIAL E O ENSINO PRIVADO

Izabel Sadalla Grispino *

Pesquisa da Unesco, sobre o ensino médio, em 13 capitais brasileiras, mostrou o desinteresse dos alunos pelo aprendizado da escola. Mostrou sonhos diferenciados ente alunos de classe abastada e de classe pobre. Alunos de escola particular estão preocupados com o vestibular e os da escola pública, em arrumar emprego ao terminar o ensino médio.

Os alunos da escola pública estão em desvantagem na aprendizagem, especialmente no que se refere ao acesso à informática, ao uso de laboratórios e às atividades extracurriculares. A grande maioria não tem computador em casa. Nas escolas públicas 76% não usam computador em classe, na particular apenas 14%.

O livro “Ensino Médio: Múltiplas Vozes”, lançado em abril de 2003, coordenado pelos pesquisadores da Unesco Miriam Abramovay e Mary Garcia Castro, traz um retrato do ensino médio. Foram entrevistados mais de 7 mil professores e 50.740 alunos de 673 escolas públicas e privadas em 2001. Um dado triste e que revela falta de auto-estima é o fato de os alunos mostrarem tendência a se culpar pelo fracasso na escola. Os professores, também, atribuem ao desinteresse do aluno os maus resultados obtidos. Em São Paulo, os professores disseram que 71% dos problemas da escola são o desinteresse dos alunos e a maioria dos alunos, 57%, concordou.

A pesquisa revela que para os professores a repetência está simplesmente ligada a causas externas à escola, como família e condições socioeconômicas. Não há, entre eles, um questionamento sobre as falhas do sistema, ou a ausência de um ensino de qualidade, capaz de atrair e motivar o aluno. A repetência é grande, metade dos alunos já foi reprovada pelo menos uma vez nas escolas públicas. Nas particulares, o percentual fica em 25%. A reprovação é maior entre os estudantes do período noturno, 65%, do diurno, 40%. Entre a escola pública e a particular, a pública registra uma porcentagem bem maior de repetência: 43% por 19%.

Quanto à infra-estrutura, a escola pública perde de longe das privadas. Os alunos da escola pública ressentem-se da falta de um centro de informática, de laboratórios e de mais computadores. Os alunos das escolas particulares pedem mais liberdade, mais atividades extraclasses e mais esporte, reivindicando mais espaço. Segundo o relatório da pesquisa, numa escala de 0 a 10, os alunos das escolas públicas deram notas entre 4,7 e 6,3 para as salas de aula e os das escolas particulares, entre 6,4 e 7,8.

Uma grande ausência das escolas públicas é o computador. Dados do Ministério de 2003 mostram que o número de computadores nas escolas públicas é bem inferior ao das escolas  particulares. Se essa distância for mantida, a informatização das escolas públicas pode demorar 40 anos para terminar. Segundo o MEC, para que todas as escolas tenham uma média de um computador para cada 50 estudantes, são necessárias 800 mil máquinas. A rede pública recebeu apenas 42 mil computadores.

Entre 1999 e 2002, a quantidade de micros no ensino público subiu de 111.986 para 226.986. O setor privado, com muito menos alunos, as máquinas passaram de 184.371 para 263.001. Temos 179.935 escolas públicas e 34.258 estabelecimentos particulares. Na rede pública, o percentual das escolas que contam com computadores subiu de 13% (25.705) para apenas 23% (42.488) nos últimos três anos. Nas escolas particulares, a relação cresceu de 60% (17.735) para 70% (24.008) no mesmo período.

As escolas públicas estão ainda em defasagem bem maior no que se refere à disponibilidade de acesso à Internet. O número de escolas públicas, onde se pode usar a rede, em 1999, era de 1,3% (2.528) e em 2002, 8,2% (14.773). No ensino particular, os estabelecimentos com conexão à Internet subiram de 17% (5.157) em 1999 para 32% (13.320) em 2002. Essa defasagem será de difícil correção, estampando na rede oficial um ensino de baixa qualidade e uma fraca formação em informática. Como concorrer em igualdade de condições no mercado de trabalho, no ingresso ao ensino superior de uma boa faculdade?

Enquanto o setor privado forma cidadãos aptos a enfrentar os desafios que lhes vêm pela frente, o setor público vem formando não-cidadãos, fracassados por falta de conhecimento. O setor privado está bem próximo, segundo a pesquisa, de conseguir dar acesso à informática a todos os seus alunos; o ensino público coloca-se à margem, bem distante desse objetivo.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em abril/2004)

CONSIDERAÇÕES SOBRE CONCURSO PÚBLICO

Izabel Sadalla Grispino *

Participando de um encontro de estudos sobre problemas sociais, numa determinada altura, abordou-se o tema concurso público. Havia um grupo de descontentes com o resultado de um concurso público municipal, de uma cidade da região. O grupo colocava sérias dúvidas sobre sua honestidade, portanto de sua validade. As dúvidas aumentaram depois da prova oral, as ditas “entrevistas”, que, segundo se acredita, são as facilitadoras das conveniências eleitas.

Ainda, após o resultado do concurso, as críticas surgiram contundentes, apontavam conteúdo desatualizado, falha na formulação dos testes, querendo, inclusive, que se procedesse a uma revisão de prova, o que não estava estabelecido em edital.

A série de artigos que vimos publicando semanalmente tem, entre outros, o objetivo de colocar os leitores a par da situação atual do ensino, em seus diferentes níveis, bem como dar uma visão dos aspectos relevantes da atual reforma da educação. Concurso público insere-se no contexto, faz parte da engrenagem educacional. É ele o balanceamento de uma aprendizagem adquirida, um caminho de realização que passa pela estrada do saber.

As prefeituras, seguindo o que dispõe a Constituição da República Federativa do Brasil, em seu Capítulo VII, Da Administração Pública, Secção I, Disposições Gerais, art. 37, inciso II, vêm abrindo concursos públicos para admissão de funcionários. “A investidura em cargo ou emprego público depende da aprovação prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos, ressalvadas as nomeações para cargos em comissão, declarados em lei de livre nomeação e exoneração”, reza a Constituição.

Quando desconfianças ocorrem, o que fazer? Que trilha percorrer? Nossas reflexões se encaminham no sentido de sugerir às prefeituras a eliminação de procedimentos que possam dar margem a desencontradas interpretações, como, por exemplo, as “entrevistas”. Por que não isentar o concurso dessa parte subjetiva? Por que não aferir personalidade, cooperação, humor, relação interpessoal através de testes escritos?

Em contrapartida, orientamos os candidatos no sentido de observar os procedimentos contidos no edital publicado, que contém regulamentos, datas, prazos previstos para atos e recursos, conteúdo e bibliografia da área em questão. Fora dos prazos estabelecidos não adianta impetrar recurso, como não adianta reivindicar algo que não esteja contido no edital. É preciso estar vigilante, reclamar o que é devido no momento certo. Há situações na vida que se assemelham a um tribunal: “Ou fale agora, ou se cale para sempre”. Deve-se exigir, do concurso, a maior transparência e, se for o caso, admitir fiscais comunitários junto com os oficiais, gerando confiança, maior aceitação, tanto de aprovados como de não aprovados.

O concurso público é a oportunidade isenta que o homem precisa.  É  um  instrumento  imparcial –  ou  deve  ser  --, indiscriminatório, com a finalidade de proporcionar oportunidades iguais a todos. É encarado como um processo moralizante da administração pública, aquele que outorga ao indivíduo o uso pleno da cidadania. Afasta – ou deve afastar --, a sombra do protecionismo, do compadrio, permitindo a todo cidadão sonhar, aspirar à ascensão social e profissional por mérito.

Com a realização de concursos, mudam-se os sistemas de contratação de pessoal. Processos de mudança implicam em mudança de mentalidade. Fazendo uma sucinta análise sociológica, constatamos um arraigado comportamento nacional paternalista, protecionista, que vem desde os primórdios da nossa civilização, da era colonial. Essa era caracterizou-se pela distribuição de favores, de benesses do rei aos protegidos, semelhantes aos feudos herdados de pais a filhos. E a cultura do apadrinhamento instalou-se entre nós.

O concurso quebra essa cultura, a forma arcaica de contratação, repleta de vícios e improbidades. A democracia traz uma nova visão de mundo, impõe uma nova ordem social, apoiada nos princípios de liberdade, igualdade e fraternidade, conforme preconizou a revolução francesa, do fim do século XVIII. Durante anos, na época da repressão, teceu-se a cultura do silêncio. Na atualidade, a convivência democrática rompe esse silêncio ancestral. Felizmente, podemos opinar, sugerir, reivindicar, esclarecer, como fazemos agora.

Em relação ao concurso, o candidato não pode criar falsa ilusão, encará-lo como uma aventura. Tem que estudar, tem que ralar, apropriar-se do conhecimento. É o conhecimento que vai premiá-lo, empurrá-lo para o sucesso. É ele a mola-mestra do emprego nos dias presentes e futuros. Quando discorremos sobre o ensino técnico, no subtítulo: “A supremacia da informação”, dissemos: “Já se apregoa que a boa formação do futuro tem que estar apoiada em dois vetores: o da formação do consumidor da cultura e o do produtor da cultura. O profissional do próximo milênio terá que estudar a vida toda. O analfabeto funcional não é mais aquele que aprendeu sofrivelmente a ler e a escrever, mas aquele que não cultivou o exercício continuado da leitura e da escrita, aquele que não acompanhou a evolução tecnológica”.

Para se galgarem os degraus do sucesso, há que se passar pelos obstáculos.  O  primeiro pode significar a superação do outro. Precisamos aprender a aprender com as mais variadas situações existenciais. Tentativas para fraudar concursos podem até existir, mas há mecanismos para combatê-las. O que não pode acontecer é o indivíduo desanimar, deixar de acreditar.

Falamos como educadores, como alguém que tem os pés no chão e a cosmovisão no futuro, como alguém que passa a vida orientando jovens e adultos e é como tal que incitamos nossos caros pretendentes a cargos públicos, ou a outros, a se apegarem à idéia de concurso. Esse processo de seleção veio para ficar e é praticamente a única opção de muitos para encontrar o seu lugar ao sol. Resta torcer para que os concursos evoluam em qualidade, que apresentem testes  tecnicamente bem formulados, com conteúdos atualizados, nos quais raciocínio e criatividade cresçam em importância na mesma proporção em que decresça memorização.

Vamos nos conscientizar, nos preparar convenientemente para enfrentá-lo. O concurso é sempre uma aula dada; a lição depende da maturidade de cada um.

“Há derrotas que são triunfos maiores do que algumas vitórias”.

* Supervisora de ensino aposentada.            
(Publicado em outubro de 2000)

SUPREMACIA DA EDUCAÇÃO

Izabel Sadalla Grispino *

Já há algum tempo, escrevendo sobre educação e sociedade, eu comentava a costumeira expressão que diz ser a educação a primeira necessidade do homem, depois do pão. Disse eu na ocasião: educação e pão são necessidades concomitantes, educa-se à medida que se dá o pão. Sem educação, o pão perde qualidades, perde valores nutricionais.

Recentes pesquisas, divulgadas em fevereiro de 2003, feitas para o programa Fome Zero, do presidente Lula, aliás, muito bem recebido pela sociedade, mostraram que a desnutrição infantil é maior entre mães analfabetas. Segundo pronunciamento de José Graziano, ministro da Segurança Alimentar, o Fome Zero estabeleceu como objetivo, além de combater a desnutrição no País, alfabetizar as mães de famílias carentes. As pesquisas acentuaram a correlação entre desnutrição, fome e analfabetismo.

Combater o analfabetismo é uma das mais relevantes metas do programa Fome Zero. O Brasil tem, de acordo com o IBGE, 16,3 milhões de analfabetos, com idade igual ou superior a 15 anos. Erradicar o analfabetismo, para o desenvolvimento equilibrado das nações, vem sendo prioridade universal. Em janeiro de 2003, seu combate ganhou apoio da Organização das Nações  Unidas (ONU), que determinou, a partir deste ano, a década da alfabetização. O lançamento foi feito em fevereiro, em Nova York. A Unesco, braço da ONU para a educação, promove a idéia por meio de parcerias.

Se a educação é primordial ao pão, em contrapartida o pão é primordial para o desenvolvimento mental e físico. No meu artigo “Brasil e condições de pobreza”, eu relatava as seguintes situações:  O geógrafo Josué de Castro, natural de Pernambuco, há décadas, chamou a atenção para o surgimento de um novo biótipo humano, o homem gabiru. Um homem raquítico, pouco mais que um anão, com altura de, no máximo, um metro e meio. Esse homem gabiru, segundo seus estudos, é resultado de anos e anos de miséria e desnutrição.

Como alfabetizar, perguntava eu, o homem gabiru e seus descendentes? Uma vez perdidas as vitaminas na primeira infância, jamais serão repostas, afirma a ciência. O médico Deodécio Campos Júnior, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, reforça esta idéia: “Está cientificamente provado que, em crianças desnutridas, o número de células é menor. Elas já entram na vida inferiorizadas... Carências na infância afetam da função cognitiva à função motora”.

Esta comprovação, mais o resultado das pesquisas Fome Zero, nos certificam da necessidade de compatibilizar educação e pão. A educação sozinha não salva, mas sem educação não há salvação. A educação irradia-se por todos os campos do saber. É mola-mestra de todas as atividades humanas. Constata-se, por exemplo, que o grau de instrução das mães exerce papel fundamental na formação escolar do filho.

Todos nós, assim como a escola, temos um papel social a cumprir. Quando a ONU fala em parcerias, estende o olhar para a sociedade civil, pensando em uma educação ministrada com eqüidade social. Só a conscientização de todos rasgará o véu da exclusão, da marginalização das classes menos favorecidas.

Para que a grande massa alcance a educação, a escola precisa combater a seletividade, não barrar o direito à educação, em nome de uma falsa pedagogia. É preciso que ela crie condições, mecanismos pedagógicos para que todas as crianças saibam ler e escrever, tenham acesso ao patrimônio científico e cultural da humanidade e venham a participar do enriquecimento desse patrimônio. É preciso que crie projetos de ensino que correspondam às necessidades concretas do aluno carente, perfil do aluno da escola pública.

Temos que tornar o ensino acessível à grande maioria da população para torná-lo efetivamente democrático  e democratizar a sociedade brasileira.

José M. Pires Azanha, em “Democratização do ensino”, diz: “... Não se democratiza o ensino reservando-o para uns poucos sob pretextos pedagógicos. A democratização da educação é irrealizável intramuros, na cidadela pedagógica; ela é um processo exterior à escola, que torna a educação como uma variável social e não como simples variável pedagógica”.

Democratizar o ensino, não apenas no sentido de universalizá-lo, mas ministrá-lo com qualidade para todos, formando cidadãos do mundo globalizado. A qualidade provém de vários fatores: condições de trabalho docente, melhor remuneração, levando à melhor qualidade de vida, número de alunos por classe, infra-estrutura escolar, culminando na formação dos profissionais da educação. Também tem peso considerável, no âmbito interno da escola, entre outros fatores, o apoio ao que os professores fazem, sua valorização, ajuda para que trabalhem unidos e se envolvam com suas escolas. É importante criar uma comunidade de professores que discuta, de modo a criar um senso comum da missão a cumprir em suas escolas. Precisamos derrubar as paredes do individualismo das escolas, caso queiramos a ocorrência de mudanças.

O pensamento de grupo, a formação de colegiados e a colaboração entre professores são indispensáveis. A sala de aula é um microcosmo de problemas sociais e o entrosamento entre professores clareia e reforça atitudes na resolução dos problemas. O professor experimenta o desafio do profissionalismo interativo. O de atuar em conjunto, um aprendendo com o outro, melhorando sua qualificação como uma comunidade. Porém, não se deve desconsiderar o trabalho individual, a atitude pessoal quanto ao aperfeiçoamento. A reação pessoal é tão importante quanto a reação coletiva. Ensinar é uma profissão, ao mesmo tempo, intelectual, envolvendo conhecimento, e afetiva, envolvendo relações e atitudes.

Monteiro Lobato dizia: “Um país se faz com homens e livros”. É preciso, pois, mobilizar governo e sociedade, investir num sistema educacional que nos tire da condição de País da pobreza.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em abril/2003)

AJUDA À VISTA AOS UNIVERSITÁRIOS

Izabel Sadalla Grispino *

Ajudar o aluno pobre a enriquecer a sua formação acadêmica é, sem dúvida, o melhor caminho para o  ingresso à universidade. A instituição de cotas poderá representar uma ajuda vazia, um castelo de areia, que viria contra o próprio beneficiado.

Alunos que ingressam na universidade com deficiência de conhecimento poderão vir a ter sentimentos de desânimo, de desistência, sem falar da repetência. Para que isso não ocorra, a instituição terá que baixar o seu padrão de ensino, conseguir um nível inferior, que permita ao aluno dar seqüência aos seus estudos. A instituição não vai poder atender a padrões de qualidade e desempenho, o que traria queda na qualidade do ensino superior, como já existe na educação básica. Essa é uma estrada que não culmina com a melhoria do ensino, porque transitada por alunos sem o devido preparo.

É necessário que se forme conceito a respeito e que se tomem providências para se alcançar um porto seguro. Investir, primeiramente, e com seriedade, na qualificação da educação básica, fazendo as escolas públicas aproximarem-se das escolas particulares. Aumentar a oferta de cursinhos pré-vestibulares e bolsas de estudo à população carente. O cursinho pré-vestibular, lutando para suprir as deficiências de aprendizagem, fornecendo aos alunos um conhecimento mais compatível com a carreira universitária, e a bolsa permitindo-lhes a possibilidade de estudo.

Conforta-nos saber que os cursinhos pré-vestibulares multiplicam-se não só na capital, como no interior do Estado. Tomei conhecimento da existência do Curso Unificado do Campus de Araraquara (Cuca), através de seu coordenador e orientador, Prof. Miguel Jafelicci Júnior. Esse curso surgiu em 1994, por iniciativa dos alunos do Instituto de Química. Em 2002, foi implantado o Cuca/Prefeitura, resultado de uma parceria da Prefeitura de Araraquara com o Campus de Araraquara da UNESP, num projeto pioneiro na região, neste tipo de convênio.

O Cuca/Prefeitura atende atualmente 300 alunos em 5 salas localizadas em três bairros de Araraquara, Selmi-Dei, Vale do Sol e Jardim Martinez. Estes alunos são isentos de quaisquer pagamentos – matrícula, mensalidade e material didático. É atendido por 40 professores e 2 coordenadores, todos alunos de graduação da UNESP, que recebem bolsas de Extensão Universitária.

Essa é uma iniciativa que merece aplauso e que deve ser seguida por outras localidades. Parabéns aos organizadores e aos alunos que, através desse cursinho, elevam seu padrão de ensino e podem sonhar com horizontes mais claros, com um futuro mais consistente.

Um outro aspecto, que seria interessante divulgar, são as oportunidades de trabalho que surgem na própria universidade aos alunos que precisam trabalhar ou aos que querem já dar os primeiros passos na carreira durante a graduação. Estes alunos devem procurar por vagas oferecidas dentro do campus, publicadas em editais, divulgados nos murais de aviso e no site da instituição. As principais fontes de informação vêm, contudo, de alunos veteranos, de funcionários e de professores da universidade.

A falta de comunicação acaba por dificultar as chances existentes. Para os interessados, a Coordenadoria Executiva de Cooperação Universitária e de Atividades Especiais (Cecae) deixa o endereço eletrônico – www.cecae.usp.br. O Cecae oferece, entre outras atividades, estágios aos programas sociais da USP. Conta com mais de 100 alunos, que participam de trabalhos, como programas de reciclagem, de inclusão social de crianças carentes, de desenvolvimento tecnológico para pequenas empresas e de evolução ambiental.

Há, também, estágios no setor responsável por reformas das unidades da instituição. São formados por grupos de 7 alunos, que analisam as necessidades das faculdades, traçam planos de reforma e consultam preços dos materiais para o projeto. Cada aluno recebe cerca de dois salários mínimos por 20 horas semanais e trabalha nas horas em que há tempo entre uma aula e outra, no caso do curso ser integral.

Ao lado da divulgação das vagas de trabalho ou de estágio na universidade, os próprios alunos podem anunciar serviços, como tradução e revisão de textos e cursos de idiomas ou de instrumentos musicais. Há ainda a possibilidade de o aluno desenvolver o seu próprio projeto, como, por exemplo, o de revitalização de uma área da cidade e pedir ajuda à instituição para conseguir parcerias ou financiamento. Na USP, o estudante deve procurar o Cecae; em outras universidades, procurar auxílio no serviço de atendimento ao estudante.

Também existem as oportunidades de trabalho temporário, como as oferecidas no período dos vestibulares, no processo seletivo. Geralmente, esse trabalho tem duração de 4 meses e as funções são as de atender o público, cadastrar vestibulandos, cuidar da distribuição dos materiais, como os manuais do candidato e fiscalizar os procedimentos de inscrição. Ganha-se cerca de R$ 500,00 por mês, trabalhando 6 horas diárias. Durante as provas, ganha-se mais R$ 200,00 por dois dias de trabalho, como fiscal.

Espera-se que os universitários tomem conhecimento dessas possibilidades e que busquem concretizá-las.

* Supervisora de ensino aposentada.          
(Publicado em maio/2004)

CURSOS DE MBA

Izabel Sadalla Grispino *

Os cursos de Master Business Administration (MBA) vêm ao encontro à necessidade do funcionário ou empresário se reciclar e saber empreender. O foco dos cursos está no aperfeiçoamento da gestão de empresas, mas, também, despertam o lado empreendedor de seus alunos, desenvolvem habilidades administrativas e de gestão.

Os projetos de conclusão de curso acabam sendo usados para a abertura de um negócio, para montar a própria empresa. Muitos alunos ou executivos transformam-se em seus próprios patrões. Este é um aspecto dos cursos MBA, ensinar a ser patrão.

As aulas preparam para o empreendedorismo, os alunos recebem orientação dos professores para desenvolver os projetos. O MBA prioriza não só o projeto de conclusão de curso, como, também, as atividades em grupo desenvolvidas durante o período de estudos.

As aulas ajudam a conceber o negócio, a definir local e a melhor maneira de atuar no setor. Ajudam a embasar o futuro empreendimento.

Os que já trabalham em empresas ou já têm o seu próprio negócio encontram nos cursos de MBA a oportunidade de compartilhar idéias com pessoas que estão no mercado e bem posicionadas. Nesse contato evoluem, descobrem processos, melhores condições de analisar planos estratégicos de negócio.

Segundo levantamento, 60% dos alunos dos cursos, que já fizeram o último módulo, interessam-se por empreendedorismo, têm vontade de abrir negócio próprio. Sentem que o mercado exige perfil empreendedor, profissionais mais ativos, por isso buscam os cursos de MBA.

Alguns indivíduos têm qualidade nata de empreendedor. São líderes, mas, é possível despertar habilidades em pessoas com essa propensão, dar subsídios aos menos desenvolvidos.

Para atender essa clientela, o MBA oferece cursos de formação específica para empreendedorismo. Desmistificam o empreendedorismo e dão ferramentas adequadas aos alunos.

Geralmente, os alunos, em fim de cursos, que conseguiram uma rede de contatos e acumularam certo capital, 10 ou 15% acabam montando o próprio negócio. Os cursos disseminam o conceito de empreendedorismo ao longo deles e em todas as disciplinas. Periodicamente, os alunos discutem o assunto, não só entre si e com seus professores, mas com grupos formados por outras instituições, desenvolvendo núcleos de estudos.

Alargando o conhecimento, a visão dos negócios, avançam com mais segurança, na linha de frente do próprio negócio. Adquiriram conhecimentos galgados na teoria e na prática, habilidades flexíveis e comportamentos alinhados à vantagem da estratégia de negócios e à visão multifuncional da empresa.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em fevereiro/2007)

CONTROVÉRSIAS SOBRE A MUNICIPALIZAÇÃO DO ENSINO

Izabel Sadalla Grispino *

A municipalização do ensino foi bastante contestada, e ainda continua, pelas entidades de classe de professores e por setores da oposição. Consideram-na como um viável caminho à privatização do ensino público. Partidos de esquerda, como PT, PDT e PC do B, entraram no Supremo Tribunal Federal, no início de sua implantação – 1998 – com uma ação direta de inconstitucionalidade, tentando impedir sua aplicação. Alegavam não caber ao governo federal determinar como estados e municípios devam aplicar suas cotas dos fundos de participação.

Outra contestação surgiu por parte de professores da rede pública do ensino superior, que rejeitavam o modelo educacional adotado pelo MEC. Criticavam e denunciavam o sistema de parcerias com o setor privado adotado pelo governo para mudar o ensino. No ensino municipalizado, diziam, a reforma inclui a integração entre estado, iniciativa privada e comunidade, em modelos de parceria para criar novas fontes de financiamento. Essa relação deve ser intermediada pelas organizações não-governamentais (ONGs).

As entidades de docentes são contra a municipalização e afirmam que o projeto de políticas sociais serve de suporte para a municipalização do ensino fundamental. Com a criação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério (Fundef), criticado pelas entidades, o governo quer abrir caminho para que haja um aumento da participação da sociedade no processo. Seguindo as regras do Banco Mundial (Bird), o governo aposta na municipalização do ensino de crianças de 7 a 14 anos, como ponto de partida para a reforma. Segundo essas entidades, o governo repassa, aos poucos, o controle da educação brasileira ao Banco Mundial, dando sinal verde para a privatização do ensino no Brasil.

Em documento-denúncia, professores da rede pública do ensino superior alertavam, em 1998, que “havia em andamento um amplo programa de reformulação da educação no país, com a transferência do controle da estrutura do ensino público para fundações e organizações de direito. O novo sistema deverá ser instituído de forma gradativa e segue um programa que o Banco Mundial (Bird) recomenda para países pobres, prevendo uma redução da participação do poder público no ensino e parcerias com o setor privado (...). O processo de transferência de controle da estrutura educacional, para fundações e organizações de direito privado, deverá ser gradativo (...). O ensino brasileiro caminha para um sistema no qual, cada vez mais, haverá a participação do setor privado e menos do estado (...). O novo sistema misto que deve surgir no país, com a reforma do ensino, tem apoio do Bird, que vê o reforço à municipalização do ensino como uma estratégia (...).

Dois dos esteios da reformulação administrativa do ministro Bresser Pereira, em vigor, são a redução dos gastos da folha de pagamento e o incentivo ao repasse do comando de setores públicos para organizações sociais de direito privado.

O governo alega que o setor educacional comporta uma integração entre os níveis de administração pública – união, estados e municípios – iniciativa privada e ONGs. Essa tendência ocorre hoje no setor ambiental, referendam os professores. É com esse sistema que funciona o Instituto Brasileiro do Meio-Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), cada dia mais operando com convênios e parcerias para criação de fontes de financiamento, que dão suporte às ações do órgão. O setor educacional, ao que tudo indica, deve passar por um processo que o governo chama de “flexibilização” e as entidades de classe de professores classificam de privatização, reafirma o documento-denúncia.

Só o desenrolar do processo trará clareza a essas questões. O ministro Paulo Renato Souza tem passado imagem de credibilidade, de atuação coerente entre os diversos graus do ensino. Contudo, a saúde da educação não vai bem, os rumos políticos da educação não são tão animadores, sempre conflitados em suas irrisórias verbas.

O desolador é contestar que o Brasil, com seu enorme potencial de riqueza, nunca está em condições de se apoiar nas “próprias pernas”, tendo sempre que ser ajudado por “muletas”. Ainda estamos inseridos entre os países do terceiro mundo, países em desenvolvimento. Passam-se os anos e assim, como nos tempos de nossos pais e avós, somos o permanente país do futuro.

Precisamos não só de escolas para todos, mas de escolas de boa qualidade para todos, sejam ricos, sejam pobres, se querermos realmente uma pátria forte, menos injusta socialmente. Educação funciona com vontade política. Somos responsáveis pelos homens públicos que colocamos no poder. Necessário se faz formar consciência, despertar amor à terra natal, desde a tenra idade, porque os bons sentimentos, os bons propósitos, se desenvolvendo com a criança, consolidarão o caráter, o civismo.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2000)

IDADE IDEAL PARA SE COLOCAR NA CRECHE

Izabel Sadalla Grispino *

A escola é uma instituição que insere o ser humano numa sociedade cada vez mais complexa, com profundas transformações econômicas, sociais e culturais. Ainda que a escola esteja sofrendo um histórico e contínuo processo de desvalorização, ela é, ainda, o que de melhor podemos oferecer à criança, ao adulto.

O importante é escolher uma escola, no início da aprendizagem, que se afine com a subjetividade, com a identidade da criança em questão. O desenvolvimento das ciências humanas, no século XVIII, trouxe a descoberta da infância como uma fase de características próprias e de enorme importância para o seu desenvolvimento. Educar a criança desde pequena passou a ser preocupação das famílias, do Estado. Influenciadas pela valorização da escolaridade, muitas famílias passaram a querer que seus filhos se alfabetizassem o mais cedo possível. A alfabetização precoce tornou-se desejo generalizado, embora a literatura afirmasse que a forma própria de aprender da criança é a brincadeira, o jogo.

As atividades de caráter lúdico devem povoar a educação infantil. A leitura e a escrita devem entrar na vida da criança como lazer antes de qualquer processo formal de alfabetização; é o lazer que deve proporcionar o ambiente da educação infantil.

As crianças pequenas têm direito à educação infantil, mas deve ser observado o período inicial de colocarem-nas em  creches. Crianças que entram nas creches muito cedo começam a apresentar uma doença atrás da outra, dizem os pediatras. A licença maternidade de apenas 4 meses leva os bebês a freqüentarem as creches com 4, 5 ou 6 meses de idade.

Quanto mais cedo a criança entra na creche, maior a probabilidade de contrair e desenvolver doenças e nos bebês mais novinhos costumam ser mais sérias. O organismo mais novo tem poucas defesas, menos anticorpos e na convivência com outras crianças e com adultos ele fica em contato com vírus e bactérias em grande quantidade. Adquirem doenças, especialmente, respiratórias: sinusites, otites, resfriados, gripes e doenças virais.

A entrada precoce do bebê na creche apresenta aspectos orgânicos, como os já citados e aspectos emocionais, psicológicos que acabam influenciando os orgânicos. Os psicopedagogos esclarecem que dos 6 meses aos 2 anos de idade, aproximadamente, a criança passa pela chamada fase da ansiedade de separação. É um período de individualização, em que ela começa a se reconhecer como pessoa e a identificar os outros. Nesse período, a criança deve ser afastada gradativamente e por pouco tempo da mãe para não criar uma ansiedade de separação prolongada e difícil.

Ainda, entre pais, permanece o mito da socialização precoce, de que a criança que entra na creche cedo passaria a ser menos mimada e mais social. Isso  absolutamente não acontece, porque a criança de berço quase não interage e precisa brincar sozinha. Começa haver alguma interação depois de 1 ano e meio. Depois dos 2 anos, a creche passa a ser um bom lugar, um lugar interessante pelos estímulos que propicia à socialização. Afirmam os pediatras que antes disso a criança não precisa de creche e sim de alguém, de preferência a mãe, que lhe dê atenção e carinho. Por volta dos 2 anos de idade, a criança está pronta para iniciar seu ciclo escolar.

O horário que a criança permanece na escola deve ser aumentado progressivamente, na medida em que ela vai se acostumando com a nova rotina. A educação infantil é importante porque a criança pequena precisa de estimulação adequada e a escola propicia isso. Ela é essencial, pelo menos a partir dos 4 anos.

A educação infantil, que vai de 0 aos 6 anos e inclui desde a creche até a pré-escola, foi definida pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996 como a primeira etapa da educação básica no Brasil. A neurociência já mostrou que a maioria das conexões cerebrais é formada no período entre o nascimento e os 3 anos, pela interação do bebê com os estímulos do ambiente. Estudos provam que crianças que cursam educação infantil são alfabetizadas com mais facilidade.

Segundo o Ministério da Educação há no Brasil cerca de 7 milhões de crianças matriculadas na educação infantil. Enquanto os mais pobres sofrem com a falta de vagas em creches públicas, muitas escolas particulares têm pediatras, enfermeiras, nutricionistas, além de professores à disposição dos alunos. Atualmente, está-se entendendo a importância da educação para crianças de 0 a 6 anos, a importância da educação infantil para o seu desenvolvimento.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em março/2006)

JABOTICABAL DE ONTEM, DE HOJE E DE SEMPRE

Izabel Sadalla Grispino *

Tenho o privilégio de saudar a “Cidade das Rosas”, a querida Jaboticabal em seu 172.° aniversário. Cumprimentá-la pela pujança dos ideais de seu povo ordeiro, pela força de alavanca que faz dela a cidade princesa da região.

O clamor das festividades reacendeu-me a memória emocional. Recordar é viver, reconhecer é dignificar, chorar saudade é reverenciar! Voltei, na 2.ª metade da década dos anos 40, para o tão decantado Colégio Estadual de Jaboticabal, hoje “Aurélio Arrobas Martins”, para rever, na mente fotografada, meus venerandos mestres, minha “galera”, a turma de classe, os queridos colegas, a Alairce de Oliveira Delgado, os folguedos do recreio, as aulas de ginástica, as aulas de música, com o amado maestro Biagio Cimino, que ensinava as notas musicais, o compasso, juntamente com o canto, insistindo nos hinos pátrios. Cantávamos corretamente o Hino Nacional, o Hino da Independência, o Hino à Bandeira!

O passado explica o presente. Tive a felicidade de participar de um período áureo da história de Jaboticabal. Fiz as primeiras letras na cidade de Guariba, onde nasci, vindo, em seguida, juntamente com meu inesquecível irmão José, aqui continuar os estudos. Jaboticabal era o sonho do futuro, o centro cultural para onde convergiam estudantes de toda a região, na busca da escalada educacional. O então Colégio Estadual era o polo irradiador, o eixo que sustentava seu cognome de “Atenas Paulista”. Compunham seu corpo docente mestres de alta competência, que ministravam um saber à altura dos centros mais elevados do País. Era uma plêiade de iluminados!

O estabelecimento de ensino era dirigido pelo respeitado prof. Celino Pimentel, um administrador que, hoje, nada ficaria devendo aos mais apurados princípios da moderna educação escolar. Calmo, ponderado, tinha a doçura e a compreensão do diálogo espontâneo, a firmeza e a austeridade de quem não podia esmorecer nos momentos de decisão. Lembro-me de sua filha Lígia, um primor de beleza, que a todos encantava!

Caminhando para a sala de aula, deparávamos com verdadeiros baluartes da educação. Mestres precursores dos mais avançados métodos didáticos, com postura de orientadores da aprendizagem. Passam-se gerações e não é fácil encontrar um Mário de Campos, um Antônio Ruete!

Mário de Campos, o professor de Português, era o mais amado entre os amados, um intransigente defensor do vernáculo. Um professor que lecionava com o saber na mente e com o amor no coração. Numa época da escola soberana, onde se punha distância entre o professor e o aluno, entre escola e comunidade, ele era o amigo, dava ensejo a que os alunos se aproximassem. Mário de Campos seria hoje um desafio aos mais elevados conceitos da pedagogia atual. Usava da metodologia ativa, declamava-nos versos, punha-se emocionado, diante de uma classe paralisada, embevecida. Ele era a palmeira frondosa, a brisa suave que nos fazia sonhar, acreditar!

O filho Ayres de Campos também já lecionava. Era o jovem promissor, o herdeiro cultural do pai, a força nova que resplandecia. Era o filho ilustrando a imagem do pai, a garantia do texto elevado, apurado.

Um outro ícone do magistério foi o professor de latim Antônio Ruete. Um mestre de uma abrangência de conhecimentos invejável! Era a imagem da simpatia, muito querido pelos alunos. Na passagem do conteúdo, via-se, às vezes, interpelado pela alta erudição. Aprendemos muito com ele, sempre relacionando nossa língua com a língua mãe.

O professor Antônio Ruete deixou imensa saudade. Recordo com carinho de sua filha Cármen, uma colega alegre, empreendedora.

O professor de inglês, José França, risonho, extrovertido, mesclava suas aulas com música e poesia, procedimento didático muito apreciado pelos alunos. Quantos versinhos em inglês tenho, ainda, guardado de suas aulas!

Antônio Arrobas Martins, um fluente advogado, era nosso professor de ciências. Um mestre admirado pelos alunos, porém sem muito vínculo afetivo. Enérgico, um tanto eqüidistante, se colocava na docência com objetividade, porte severo.

Quantos outros deveriam entrar nesse quadro, como o competente e dedicado secretário sr. Túlio Rampazo. Mas, voltarei a novas lembranças em outra oportunidade. Porém, um nome que se prende a todos e que em todos deixou um pouco de sua marcante personalidade, não poderia, de modo algum, deixar de ser citado: professor Juvenal Passos Nogueira. Professor Juvenal é uma emoção à parte. Era o esteio do alunado, seu orientador, seu porto seguro. Respeitado e muito querido, espelhava-nos honestidade, inteligência, estudo, alguém que passava exemplo na própria conduta, alguém que com sacrifício e determinação subia a rampa do sucesso. Era, na época, inspetor de alunos e professor da maioria deles, preparava alunos para enfrentar o rigoroso exame de admissão ao ginásio. Professor Juvenal não parou de estudar, alcançando vôos profissionais de monta. Chegou, por sua competência, a diretor efetivo da escola que cresceu muito com ele e que, ainda, o representa, a EE “Aurélio Arrobas Martins”, casa de ensino, que tenho a certeza, nunca o esquecerá. Professor Juvenal é referência, é sólido pilar, é certeza de que quem se esforça chega lá. Juvenal Passos Nogueira é gente que faz, é exemplo de vida!

Jaboticabal sempre me impulsiona a retornos. Tenho a honra de saudar a Universidade São Luiz, que cresce e se firma como um dos orgulhos da cidade, universidade da qual participei dos seus primeiros passos, início da década de 70, quando fui convidada pelo seu fundador, o emérito professor Afonso Carregari, a engrossar as fileiras de seu corpo docente, e, então, nessa conceituada instituição de ensino superior, passei a dar aulas de francês, no curso de Letras.

Uma cidade se projeta no presente, com olhos no futuro, guardando a experiência do passado.

Nas pessoas dos valorosos mestres, aqui lembrados, rendo minha homenagem a Jaboticabal, que ela, a exemplo do passado, continue a caminhar a passos largos em direção à modernidade, que mire as alturas, mantendo a estrutura de sustentação presa ao solo, Que Deus continue abençoando a “Cidade das Rosas, que as rosas permaneçam desabrochadas, florindo e perfumando a terra, sinalizando portas abertas ao progresso, maturidade administrativa e farta colheita. Que os ventos lhe sejam favoráveis e que, junto a seu céu estrelado, aos seus mananciais, entoem, para Jaboticabal, o divino salmo da natureza!

*Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em julho/2000)

REALIDADE CONFLITANTE

Izabel Sadalla Grispino *

Constata-se em nosso País o estabelecimento de conexões do crime aqui praticado com o crime organizado internacional, deixando a sociedade nas mãos de bandidos de alta periculosidade.

Os descuidos políticos na área da segurança estão sendo dolorosos para o País. Poderes advindos do crime vão se firmando no mundo todo, com forte representatividade no Brasil. São as sombras do mal rondando a terra. Prendem-se à alça da ganância, do terror, da destruição, transformam-se num mercado sumamente lucrativo.

Vive-se no preceito de que vale mais quem tem mais, criando nessa inversão de valores estímulos a contravenção. O gérmen do crime está muito nesses valores invertidos, subvertidos, antiéticos e, sob esse prisma, o seqüestro atua numa sociedade onde os poderes se encontram.

Há, segundo consta, vários esquemas no País visando criar uma grade de proteção contra o crime. Porém, ao que tudo indica, as causas mais profundas, mais reveladoras da violência são de caráter social, como a miséria, o desemprego, a concentração de renda, cada vez maior e sem condições de fomentar o crescimento dessa renda em favor da população mais pobre.

O capitalismo selvagem, o mundo do grosso dinheiro, vêm trazendo comportamentos agregados, com um capital girando em torno de si mesmo e produzindo um consumismo exagerado. Paralelo a esse regime, surge o estabelecimento de poderosas organizações, possuidoras de um portentoso aparelho criminal, enfrentando com grande desigualdade e grande vantagem o desestruturado e arcaico aparelho policial do País.

A descrença é geral, a proteção, praticamente, inexistente ao cidadão. A epidemia de violência demonstra, claramente, que os bandidos estão soltos, dão pouca importância aos encarregados de manter as leis. O que tudo indica é que o crime organizado tem muito dinheiro para alimentar essa negra situação.

Diante de tanto desalento, a imagem da educação surge como o grande lenitivo, o grande socorro. A passagem, dos jovens, dos valores morais, éticos, a formação humanística, a visão de felicidade que advém de uma vida simples, solidária, o apego à religiosidade, são conceitos que, em seqüência, trarão a esperança da reversão.

Elevar o nível de ensino das escolas públicas, aparelhando-as condignamente, ministrando um ensino de qualidade, resgatam compromissos com a sociedade, no sentido da exclusão dos despossuídos Criar frentes de trabalho, dar condições de vida digna aos necessitados, são saídas que, sem dúvida, trarão o equilíbrio social tão necessário. Creio serem esses os melhores caminhos a trilhar, começando já, sem perda de tempo, para que, a médio e a longo prazo, possamos sair dessa assustadora realidade social.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2006)

AULA INAUGURAL DA REDE PÚBLICA GUARIBENSE

Izabel Sadalla Grispino *

Dia 10 de fevereiro p. passado, ministrei, com sobeja satisfação, a aula inaugural das escolas da rede pública de Guariba. Senti-me honrada com o convite da Prefeitura e da Secretaria Municipal de Educação para falar aos representantes do magistério de minha terra, logo no início do ano letivo.

Ao cumprimentar os professores e parabenizá-los pela escolha da nobre profissão de ensinar, ao cumprimentar a digníssima secretária de Educação, Profa. Vera Eliana Ambrósio Politi, e sua digníssima assessora pedagógica, Profa. Marlene Toniatti Garavelo, não pude deixar de lembrar Dr. Hermínio de Laurentiz Neto, pela admirável administração exercida, tendo sido considerada um marco na história política de Guariba. Lembrei o prefeito atual, Mário Sérgio Cazeri, desejando-lhe, com igual empenho e zelo, uma gestão tão avantajada como a de seu antecessor. Pedi a Deus que o provenha de força e coragem para dar continuidade aos avanços da cidade.

Cazeri, já no seu primeiro mês de mandato, dá sinais a que veio, deixando transparecer, na solução dos problemas da cidade, uma administração embuída de humanidade. Vem demonstrando um alto apreço pelo ser humano, mesclando agilidade administrativa e coração. No primeiro dia do ano letivo recebeu o professorado com um grande abraço e muita consideração. Presenteou a todos com um lauto café da manhã e um almoço, reunindo professores e palestrante. Sua ausência foi sentida, mas trazia a justa justificativa de sua ida à cidade de São Paulo, a serviço da Prefeitura.

Esse almoço de confraternização simbolizou a esperança por uma educação de qualidade, que Guariba merece. Traduziu a afetividade que deve reger o comportamento humano. É como se Cazeri dissesse: “Professor, a vida é luta. Viver é lutar. Mas, lutem com fé. Tragam alento e esperança ao coração do estudante. Tragam alento e esperança ao coração dos pais, que sonham aos filhos um futuro promissor. Tragam alento e esperança ao povo guaribense, que pela educação esperam encontrar a paz, a prosperidade, e a grandeza desta terra”.

A essa exortação, juntei uma outra, quando desejei aos professores um feliz retorno às aulas. Quando lhes falei da importância de sua função. Ser professor é decidir o rumo da humanidade. Ser professor é ser condutor de almas, revigorador da sociedade, semeador do saber, de idéias, de religiosidade. Que os professores iniciem o ano letivo com entusiasmo, porque dele vai depender o entusiasmo do aluno, o seu interesse pela aprendizagem.

Este ano, os professores têm, em suas mãos, um recurso a mais, uma ajuda a mais, para o seu trabalho do dia-a-dia em sala de aula. Graças ao entendimento do Dr. Hermínio e da Profa. Vera, o meu livro “Prática Pedagógica” (Estruturando Pedagogicamente a Escola) foi adotado na rede municipal de ensino. Durante o ano letivo, novos encontros com os professores surgirão, no debate de questões pedagógicas, abordadas pelo livro.

Na oportunidade, lembrei aos professores que a Campanha da Fraternidade, desta quaresma, lançada pela Igreja Católica, traz o tema “Solidariedade e Paz”. A maior solidariedade do professor está na dedicação que devota à causa da educação, na sua compreensão pela aprendizagem, especialmente aos alunos carentes, aos mais necessitados de atenções, pela dificuldade em aprender, pela vida familiar desestruturada, conflitada, em que vivem. Lembrei-lhes que nossa missão é atuar com alma, sabedoria e conhecimento. O aluno que alcança o saber será um elemento atuante na sociedade. O aluno que abandona a escola, que não consegue aprender, será um marginalizado, um comparsa da violência, desgraça que toma conta do mundo.

Não façamos de nossos alunos tristes vítimas da desinformação. Quanto mais inculto o povo, mais fácil ele será elemento de manipulação.

Ao lado das conceituações de ser professor, falei, com adequação ao momento, sobre as novas tendências do ensino. Abordei metodologias renovadas. Fiz uma análise sucinta do meu livro “Prática Pedagógica” (Estruturando Pedagogicamente a Escola), com paradas para reflexões. Em breve, retornarei às escolas para assessorá-las no processo de ensino-aprendizagem, colaborar com a formação do professor, um dos fatores que me levaram a escrever o livro.

Meus irmãos do magistério, juntemo-nos, unamo-nos. Do nosso devotamento, da nossa bandeira de luta, dependerá a grandeza da nação. O universo tem no saber seu maior patrimônio e nós fazemos parte desse patrimônio. Se cada um de nós fizer a sua parte, pequena que seja, o mundo , tenham a certeza, será grandioso, com Deus regendo as mentes e os corações. Teremos o mundo que idealizamos, abençoado por Nosso Senhor!

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em fevereiro/2005)

AO JORNAL “A CIDADE”, O GRANDE SEMEADOR DE IDÉIAS

Izabel Sadalla Grispino *

Através do jornal “A Cidade”, deste valioso instrumento de comunicação que Ribeirão Preto aprendeu a admirar pelo alto profissionalismo, há, exatamente, um ano, venho publicando, semanalmente, artigos de fundo educacional. Este jornal amigo proporcionou-me a oportunidade de contatar-me com a sociedade ribeirão-pretana, levando conhecimento, em temas educacionais, culturais, sociais, religiosos e outros. Neste ano que se finda, propus-me a registrar os principais passos da reforma do ensino, na implantação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e a realidade educacional das escolas oficiais.

Encontrei neste jornal, com afável acolhida, um livro aberto, de folhas em branco, para serem preenchidas, tendo em vista ilustrar a comunidade, nos mais variados assuntos. Inúmeros conceitos nele passei, ressaltando a idéia de que o bom professor faz a diferença do ensino e de que ele é capaz de compensar a falta de estruturas. Passei a idéia de que a formação, a dedicação e o salário do professor são alguns dos fatores que mais interferem no ensino e de que, sem um ensino de qualidade, jamais resolveremos a questão das desigualdades sociais. Ressaltei a necessidade de cursos de reciclagem para o professor, que, de um modo geral, não está absorvendo as Diretrizes Curriculares e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), emanados pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC). O professorado não está conseguindo ensinar os alunos dentro desses novos referenciais, que abargam, principalmente, a interdisciplinaridade e a contextualização, isto é, a aproximação do conteúdo ensinado com o cotidiano do aluno.

A escola não vem acompanhando as mudanças e tem demonstrado de que os fatores que favorecem o desempenho dos alunos estão mais relacionados ao dia-a-dia da escola do que com as diretrizes elaboradas pelo MEC. Daí a importância de se dar mais atenção ao professor, dar-lhe suporte profissional, porque ele é, sem dúvida a mola-mestra, não só do progresso, mas da eqüidade social.

Neste novo ano que se inicia, continuarei, com o apoio do jornal “A Cidade” e com a proteção de Deus, a analisar situações de ensino, lutando para que a luz educacional prevaleça e ilumine a consciência nacional de sua importância, lutando para que a vontade política se manifeste com mais verbas para a educação, cuidando melhor de nossos professores.

O jornal merece nossa reverência, porque ele é uma escola aberta, o mestre maior que bate à nossa porta para introduzir conhecimentos, para formar, de modo responsável, mente e corações. Em Ribeirão Preto, já é tradicional, nos festejos de fim de ano, saudar o jornal “A Cidade”, que beira um século de existência, nas pessoas da família Camargo, de seus digníssimos diretores e de todos os seus funcionários, que, com brilho e persistente idealismo, angariam, cada vez mais, a confiança da população. O jornal “A Cidade” cresce com Ribeirão e com ele se faz pioneiro na região. Muita saúde, muito vigor, aos seus dirigentes, para que possam continuar a receber as alegrias de seu jornalismo imparcial, competente de que é marca  consagrada.

Formulo votos de um feliz Ano Novo a toda população de Ribeirão Preto. Que Deus lhe dê um ano de paz, de amor, de prosperidade. Quero também agradecer aos meus leitores pela atenção, pelas manifestações de apreço, a mim formuladas, durante a publicação dos artigos. A todos, meus versos sobre o Terceiro Milênio.


TERCEIRO MILÊNIO, ANO 2001

Izabel Sadalla Grispino

Surge um novo milênio, uma outra aurora,
A ciência comprovando Jesus,
Ventos do infinito indicam que agora
É chegada a hora de viver a luz.

Demos um salto para o espiritual,
Conciliamos ciência e fé,
Confraternizamos real e virtual,
A razão se achegou à Santa Sé.

A face de Deus deixa o lado escuro,
Terceiro milênio é porta de frente,
Mostra o claro que vem pelo futuro,
Ressalta o homem na alma e na mente.

Que saibamos entender o momento,
Que em coro, rezemos à Mãe Maria,
Ligando oração e comportamento,
Livraremos o mundo da orgia.

O homem terá um novo semblante,
Virá aterrorizante avanço,
A ciência criando um semelhante,
A bioética entrando em balanço.

A todos vocês, queridos leitores,
Que esse dois mil e um lhes seja risonho,
Caminhos abertos, muitos amores,
Que se realize seu mais lindo sonho.

 

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em dezembro/2000)

A PRESENÇA DOS PAIS NA ESCOLA

Izabel Sadalla Grispino *

Cada vez louva-se mais a participação dos pais na vida escolar. Diante da atual conjuntura social, da rebeldia e violência juvenil que reinam na sociedade e que acabam por se infiltrar nas escolas, diante da dificuldade organizacional por que passam as instituições públicas, por falta de recursos humanos e financeiros, a presença dos  pais e de voluntários da educação, vem sendo vista como de alta valia.

 

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A INCLUSÃO DIGITAL

Izabel Sadalla Grispino *

As novas tecnologias são ferramentas importantes para a escola atingir a modernidade. Contudo, o que se constata é uma forte resistência em utilizá-las, aproveitá-las, dando mais sentido à aprendizagem.

 

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A JUVENTUDE BATE À PORTA DE DEUS

Izabel Sadalla Grispino *

A violência juvenil disseminada por toda parte, as apreensões, os estremecimentos, levam a conjeturar sobre o futuro da juventude. Assusta-nos ver transitando pelo mundo uma população jovem transviada, desenfreada, perdendo, para as drogas, a capacidade de viver, de sonhar.

 

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