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Artigos Educacionais

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JOGOS NA APRENDIZAGEM

Izabel Sadalla Grispino *

No mundo moderno, na velocidade em que se processa a informação global on line, o conhecimento, mais do que nunca, tornou-se o protagonista da evolução de todo avanço social. O progresso é filho do aprendizado, de um saber, cada vez mais apurado, sofisticado.

A evolução traz aperfeiçoamento, reforça ou enfraquece convicções. Em todas as áreas da educação, os avanços são enormes. Ganha fôlego o estudo da criança, a pedagogia referente à educação infantil. Desenvolve-se uma maior consciência sobre a importância de bem conduzir a criança nesse período.

Brincar, para a criança, é essencial para o seu desenvolvimento, para o seu aprendizado. Brincando ela vai se preparando para vivenciar a realidade, para transformá-la, desenvolvendo habilidades sensoriais e cognitivas. Vai aprendendo a lidar com valores simbólicos e sociais. Na área da brinquedoteca, têm surgido brinquedos educativos cada vez mais atraentes, aperfeiçoados, destinados a cada fase do desenvolvimento infantil e que transformam a hora de brincar em hora de aprender. São brinquedos que dão espaço para a imaginação, que estimulam a criança no brincar. Levar a criança a fazer muitas experiências, apoiadas em instrumentos facilitadores como são os jogos, torna sua aprendizagem prazerosa, convidativa. Experiências com o corpo, o tato, o olfato, os movimentos, o raciocínio...

Não se deve, contudo, entregar unicamente o brinquedo à criança. Para que ela desenvolva suas potencialidades e para que o brinquedo venha a ser realmente educativo, faz-se necessária a participação dos pais ou dos professores. O brinquedo não é auto-educativo; ele é caminho para a educação. Ao adquiri-lo, o professor deve inteirar-se bem de seu funcionamento, da finalidade a que se propõe. Deve haver afinidade entre o brinquedo e a criança. Ele deve proporcionar interação, provocar reação, estimular a observação; caso contrário, não vai cumprir sua função educativa. A criança, por sua vez, não deve se sentir pressionada, cobrada, com obrigação de corresponder à expectativa.

O brinquedo, quando bem situado, auxilia o professor em suas múltiplas tarefas, alfabetiza a criança lentamente, ensina paulatinamente conceitos matemáticos, desenvolve sua autonomia no ato de aprender. O jogo vem sendo reconhecido e utilizado no mundo inteiro como uma ferramenta educativa de largo alcance. O jogo nos faz lembrar Anísio Teixeira, ao dizer: “Quando monto na asa de um pensamento, de uma idéia, eu vôo nessa idéia como se ela fosse minha ave”. Um bom jogo, faz voar nas asas da criatividade, descortinando horizontes inimagináveis. Ele faz cumprir seus objetivos, a finalidade a que se propõe, tornando-se realmente educativo.

O mercado de brinquedos educativos aumenta a cada ano, mediante um público exigente, professores, escolas que selecionam pelo visual brinquedos atraentes, coloridos, variados e pelo caráter científico. A Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos Educativos e Afins (Abrine) estima que os fabricantes, de pequeno, médio e grande porte, de brinquedos no País ocupam de 15 a 20% do mercado, enquanto há 5 anos essa porcentagem era cerca de 5 a 8%.

Os fabricantes mais idôneos têm a seu serviço psicólogos e pedagogos especializados, capazes de oferecer um produto à altura da demanda exigida. Para cada faixa etária, para cada fase do desenvolvimento infantil, oferecem brinquedos apropriados. Até os 15 primeiros meses, criam objetos macios e sonoros, que estimulam o tato, a audição, o olfato. Até 5 meses, a criança precisa de estimulações basicamente sensoriais, para estimular o tato, o paladar, o olfato e a audição. Do zero aos 8 meses, são indicados chocalhos com sons suaves e diversificados, móbiles, que podem ser manipulados pela criança, bolas e dados de espuma, com diferentes texturas. Objetos moles, com reentrâncias para morder, por causa do início da dentição. Após os 9 meses, usar brinquedos com encaixes, pinos cilíndricos e coloridos de vários tamanhos. A criança, nesse período, começa a executar diversos movimentos com as mãos, ter noções de direção e relações de causa e efeito.

No período dos 15 meses a 2 anos, inicia-se a estimulação da coordenação motora. São recomendados brinquedos com figuras grandes, coloridas, comunicativas e de encaixar. Auxilia na coordenação e na descarga de agressividade da criança e também no desenvolvimento da linguagem e expressão. Para esse período são aconselhados, ainda, instrumentos de percussão, de sopro simples, como tambores, cornetinhas e gaitas.

Dos 2 aos 3 anos, a criança começa ordenar, classificar, aprender as cores e os tamanhos. Brinquedos com caixas grandes, com peças de montar e ordenar, ensinam cores e tamanhos. Blocos inteiros para manipular, empilhar e armar, como um quebra-cabeça simples, ajudam a exercitar noções de equilíbrio, de ordem, estimular a criatividade e ter a percepção de tamanho e alteridade, período de criação e descoberta.

Dos 3 aos 5 anos, a criança associa números, quantidades e formas geométricas com mais facilidade. É o momento para brincar em grupos, é quando desenvolve comportamentos de grupos e consegue compreender regras simples. Conjuntos desmontáveis e coleções mostrando animais domésticos e selvagens são aconselháveis.

Dos 5 aos 7 anos, usam-se brinquedos com seqüências para lógica, matemática e universo lúdico. Fazem parte os jogos de memória e atenção, jogos que exigem ordenação e raciocínio. Recomendam-se, nessa fase, brincadeiras com teatros de fantoche, fantasias representando animais e personagens do mundo infantil.

Dos 7 aos 10 anos, para estimular a habilidade motora, o desenvolvimento da linguagem escrita e cálculos matemáticos, pensamento abstrato, usam-se livros, CDs e jogos. As brincadeiras ficam mais complexas, aumenta a capacidade de fantasiar. Para tanto, usam-se o jogo de xadrez, com peças diferentes, no lugar de figuras tradicionais, histórias de montagem, microscópios, lentes de aumento, kits científicos de iniciação à química, física e biologia e outros.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em janeiro/2005)

CRIANÇA HIPERATIVA

Izabel Sadalla Grispino *

Múltiplas são as funções da escola. Educar para a vida todas as crianças que acolhe em sua instituição é para ela um desafio, que se acentua pela complexidade que resulta da diversidade que marca a clientela escolar. A escola precisa compreender e atender os alunos em suas diferentes especificidades.

Educar, atendendo as diferenças individuais, requer muita dedicação, habilidade, competência e predisposição ao trabalho educativo. Vejamos o caso de crianças com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), uma doença infantil conhecida apenas por hiperatividade.

Os sintomas das crianças hiperativas podem ser observados desde os primeiros anos de vida. Segundo recentes estudos, mães de crianças hiperativas relatam que seus filhos se mexiam muito, mesmo antes do nascimento, sentiam uma certa agitação da criança no útero materno.

As escolas confirmam seu diagnóstico conversando com as mães. Desde pequeninhas, essas crianças mostram-se irritadiças, choram muito nos primeiros anos de vida e apresentam sono agitado. São crianças que precisam de vigilância redobrada, expõem-se, constantemente, a riscos de acidentes. Elas quebram, com freqüência, seus brinquedos, perdem rapidamente o interesse por brincadeiras ou situações, necessitando, sempre, de novos estímulos.

Muitas mães chegam a se queixar de esgotamento. São crianças indisciplinadas, problemáticas, por vezes, avoadas e malcriadas. Em determinados momentos parecem estar “no mundo da lua” e têm seus relacionamentos agravados pela impulsividade.

Quando o hiperativo vai à escola, a situação se complica. Ele dá muito trabalho, tem grande dificuldade de permanecer no lugar, agita pés e mãos em demasia, corre ou fala demais, não respeita os momentos da aprendizagem. Chamar a atenção, castigar, não resultam efeito, ao contrário, geram conflitos nas relações pessoais.

A hiperatividade é mais freqüente no gênero masculino e os estudos mostram influência dos fatores genéticos. Vem demonstrando que o hiperativo apresenta essa característica ao longo da vida, com acentuadas melhoras se atendido corretamente em termos comportamentais, educacionais, ambientais e, quando necessário, medicamentosos.

A hiperatividade é uma doença que causa, pela constante agitação, pela dificuldade de concentração e instabilidade emocional, transtorno à aprendizagem. Os psicólogos a definem como doença neuropsiquiátrica, que traz dificuldade de atenção, de percepção, planejamento, organização, com falhas de comportamento. A criança se distrai com tudo, não consegue avaliar o que é mais importante, porque o cérebro trabalha mais lentamente.

Aconselha-se aos pais que a encaminhe a um tratamento que, geralmente, envolve a administração de medicamentos estimulantes, para que o cérebro volte à atividade normal, diz o psiquiatra Ênio Roberto de Andrade, do Hospital das Clínicas da USP/São Paulo.

Escolas despreparadas para lidar com o problema agravam a situação. Precisam utilizar-se de uma metodologia específica, com professores treinados para trabalhar com o quadro hiperativo.


* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em março/2007)



 

 

O PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO DO BEBÊ

Izabel Sadalla Grispino *

Hoje, há comprovação científica dos benefícios advindos dos carinhos espontâneos feitos pelas mães, ao cuidarem de seus bebês. Através de balbucios, caretas, brincadeirinhas, ruídos com chocalhos, as mães estimulam sensações com toques, ajudam a criança a explorar o espaço. Tudo feito de maneira lúdica, de mera distração.

A medicina neurológica, por instrumentos sofisticados, consegue detectar movimentos cerebrais mínimos e vem demonstrando que esses gestos maternos trazem efeitos, que vão muito além do lúdico. Na fase dos 0 a 3 anos, são considerados fundamentais e influenciam a vida toda do bebê. É nesse período que o cérebro desenvolve os sentidos, a linguagem, os movimentos, as emoções.

Essas descobertas científicas vêm reforçar comportamentos praticados naturalmente. As creches mais evoluídas mudaram, a partir de então, seus métodos de atendimento, transformando-os em atividades mais científicas que intuitivas. É uma nova visão que não diz respeito à escolarização precoce, mas à estimulação do cérebro. Desde o útero materno, os neurônios do bebê fazem contatos, transmitem informações entre eles, nas chamadas sinapses. Ao nascer, a maioria das conexões fica à espera de estímulos que darão continuidade a essas sinapses. É como um instrumento musical, pronto para produzir som, esperando que alguém o toque, surgindo a música.

Sem esses estímulos, muitas das conexões se perdem e dificilmente são recuperadas. As pesquisas revelaram que animais, privados de receber luz nos primeiros meses de vida, podem perder a visão para sempre. Considera-se que com os bebês haja o mesmo risco.

Os neurologistas explicam que, nos primeiros 3 anos de vida, quanto mais estímulo, mais e melhores conexões serão escolhidas. As que não são usadas sofrem um processo de regressão.

É preciso que fique claro ao educador que essa atitude não significa encher a criança de atividades, ensinar matemática, música, línguas, antes de completar 3 anos. Esse tipo de conhecimento não desperta nenhum interesse na criança pequena e não favorece seu desenvolvimento.

A professora Marieta Nicolau, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), orienta: “Não tem nada mais saudável para a criança do que brincar. É assim que ela aprende as palavras, faz comparações. Os cuidados rotineiros, como trocar a fralda ou dar banho, não podem ser automáticos. É importante conversar sempre com o bebê, mesmo que ele não entenda o que está sendo dito. Ele capta a sonoridade e se sente querido, porque tem a atenção do outro.”

Em escolas de educação infantil que adotam esse processo renovado, bebês convivem com crianças de 5 anos, ouvem música, histórias, brincam juntos. Ficam no berço só enquanto dormem. Aquários, salas temáticas, fantasias, ajudam nas atividades. As crianças de 0 a 3 anos divertem-se com as estimulações e aprendem limites, cuidam de si próprias, convivem socialmente, em um ambiente que nada se parece com a sala de aula. A criança fica mais ativa, mais comunicativa na convivência com outras crianças. As creches perdem, gradativamente, seu caráter assistencialista, colocando ao lado da necessária assistência, como trocar fralda, dar banho, comida, levar o bebê para dormir, a preocupação com a correta estimulação, propiciando a esta criança, amanhã, uma melhor escolaridade, uma melhor aprendizagem.

Quanto mais estímulo receber a criança, melhor. A ciência nos mostra que o cérebro humano, em seu desenvolvimento, passa por etapas. Antes do nascimento, os cerca de 100 bilhões de neurônios fazem a maioria das conexões, chamadas sinapses. Depois do nascimento, os estímulos recebidos  levam  o  cérebro  a  selecionar  as conexões que vão permanecer. Depois dos 3 anos de idade, o sistema nervoso entra no processo de maturação. Em um cérebro já amadurecido, novas conexões são muito mais difíceis.

O processo de valorização das atitudes, em relação à criança, ainda é muito recente. O desenvolvimento do bebê ainda é desconhecido por grande parte dos educadores. Foi só na metade do século XX que a pedagogia começou a voltar-se mais para a educação da criança pequena. Até pouco tempo, acreditava-se que qualquer pessoa podia cuidar da criança, havendo, inclusive, uma desvalorização da profissão e não se exigia do professor a formação correta. A exigência atual é de que os professores tenham, pelo menos, o ensino médio. Mas, a partir de 2007, segundo reza a LDB, todos devem ter concluído o ensino superior para serem admitidos em creches.

O professor de educação infantil precisa conhecer bem o desenvolvimento da criança e ter uma boa formação geral, porque o bebê aprende, também, pelo processo imitativo, o que quer dizer: se o adulto, que está com ele, fala errado, a criança vai falar errado também. A boa formação profissional influi diretamente na boa formação da criança.

No ano de 2003, as creches públicas de São Paulo sairão da responsabilidade da Secretaria de Assistência Social para integrar a Secretaria da Educação, conforme exige a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) desde 1997.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2002)

POR QUE PROFESSORAS E NÃO “TIAS”?

Izabel Sadalla Grispino *

A escola caminha pelos olhares intrínsecos da pedagogia, pelos avanços científicos. A “tia” da escola infantil, forma de se dirigir à professora, teve seus dias contados, abolida pela linha socioconstrutivista.

Os pedagogos afirmam que o resgate do termo professora não é uma simples questão semântica. As escolas, que adotaram métodos das modernas práticas pedagógicas, ponderaram que a professora representa um novo modelo na vida da criança – ela não é, realmente, uma extensão familiar – e como tal deve ser preservada.

Paulo Freire, em seu livro “Professora sim, tia não”, escreve: “Ser professora implica assumir uma profissão, enquanto ser tia é viver uma relação de parentesco. Chamar a professora de tia é no fundo uma ideologia que trabalha contra o rigor da profissionalização da educadora, como se para ser boa professora fosse necessário ser pura afetividade”.

O professor é uma imagem importante para o aluno; ele não substitui afetos familiares. O componente afetivo deve existir, mas nunca como ideologia. A criança precisa de alguém que a oriente com firmeza, que lhe transmita os valores de vida, e o professor é o mentor desse processo de criação.

O costume de chamar a professora de “tia” vem da década de 60. As mulheres, ao buscar afirmação profissional, recorriam às escolas para cuidar de seus filhos e, de certa forma, segundo relato de mães, entregar os filhos à tia e não à professora lhes aliviava a culpa. Contudo, esse tratamento dissimula a relação de autoridade. A criança precisa diferenciar universos e perceber que cada espaço tem seus próprios valores, concluíram os pedagogos. Assim, as então chamadas escolas alternativas, hoje socioconstrutivistas, começaram a rever o tratamento nos anos 70.

A relação de aprendizado é uma nova aquisição na vida da criança. A professora é portadora de um conhecimento, abre as portas de um novo mundo, não estando, portanto, em situação de igualdade com as crianças. O psiquiatra infantil Haim Grunspun completa a análise: “Como “tia” a profissional acaba não considerando o seu próprio processo, do qual é proprietária. Existe uma ideologia de desprofissionalização do educador. A afirmação profissional emerge da conquista dos direitos do exercício pleno da função. O aluno aprende a respeitar a partir do próprio respeito. Pergunta: “Como as crianças podem entender 10 mil “tias” em greve?”

As crianças acabam percebendo por si que professora é a pessoa que educa, ensina brincadeiras, criar, inventar; tia é a irmão da mãe ou do pai. Hoje, se a dúvida persiste, ela está entre aqueles que escolhem a escola de acordo com suas convicções. Voltando a Paulo Freire, ele disse (1993): “Uma das características básicas do construtivismo é não estar demasiado certo da certeza. Se você absolutiza não tem oportunidade de crescer. Tenho 72 anos e estou aberto. Tenho este gesto da incerteza do certo”.

Porém, no caso da denominação professora ou “tia”, fica evidente que a primeira é um procedimento bem mais saudável e real.

No processo de ensino-aprendizagem, o importante é a escolha, por parte dos pais, de uma instituição idônea, capaz de oferecer aos seus alunos o que de melhor a época exige. Como escolher uma boa escola infantil?

A escolha deve partir primeiramente de sua situação legal, isto é, deve ser regularizada, com autorização do município para funcionar. A escola tem de estar dentro da lei. Ela deve aproveitar o potencial enorme que a criança tem em aprender, estimulá-la corretamente e oferecer-lhe espaços para que possa brincar. Há muitas especificidades na educação de crianças de 0 a 6 anos e professores não capacitados e ausência de um projeto pedagógico podem impedir esse processo. As crianças precisam brincar e se movimentar, os espaços não podem ser pequenos e pouco arejados. O imóvel precisa ser adequado para receber crianças: mesas com cantos arredondados não deve ter  escadas e tomadas de luz aparentes.

Só depois da Constituição de 1998 a educação passou a ser direito das crianças com menos de 7 anos. Até então, a criança brasileira não tinha direito a educação. A Constituição de 1998 reconheceu a Educação Infantil como direito da criança e dever do Estado. Assim, deixou de ser vinculada à assistência social. A exigência do registro no município por parte do estabelecimento de ensino infantil veio apenas em 1996, com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Esta lei definiu o município como responsável pelo ensino infantil e exigiu formação mínima de nível médio para os professores. Porém, até 2007 este professor deve possuir licenciatura de nível superior. O Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado em 2001, dá prazo até 2006 para que os estabelecimentos de ensino infantil cumpram padrões de infra-estrutura para funcionamento.

Todos esses aspectos legais, estruturais, para o bom funcionamento de uma escola, são importantes, mas a tudo sobreleva, a atuação do professor. Um bom método de trabalho, consciência profissional, competência e afetividade são ingredientes indispensáveis à educação. O professor que trabalhar mais como um facilitador da aprendizagem será insubstituível e inesquecível como é, para qualquer um de nós, a figura da primeira professora.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em março/2003)

EQUOTERAPIA

Izabel Sadalla Grispino *

Os avanços na metodologia educacional alcançam dimensões criativas e surpreendentes. Em casos de atendimento específico, como do aluno com deficiência, a natureza trouxe o cavalo como um auxiliar poderoso na reabilitação motora e neurológica.

A prática da equoterapia traz benefícios físicos, como a melhora do tônus muscular, maior equilíbrio para andar, maior equilíbrio espacial e benefícios psicológicos e afetivos. A criança e o jovem aprendem a relaxar e melhora o medo que têm de tudo.

Esta é a grande vantagem da equoterapia,  alia o tratamento físico ao psicológico. O trabalho é com o cavalo e sobre o cavalo, traçado a partir de um plano individualizado. A terapia é acompanhada por uma equipe multidisciplinar, o trabalho é gradual e acompanhado de perto pela equipe de profissionais.

Quem estipula as metas é a equipe, que inclui psicólogo, fisioterapeuta, instrutor de equitação, condutor de cavalo e um profissional de educação. Os alunos interagem com o animal em várias situações e começam a reter melhor as informações, ajudando-os até no processo de alfabetização e na melhora da fala.

A prática é recomendada para crianças a partir de 2 anos, especialmente para casos de paralisia cerebral, síndrome de down, acidente vascular cerebral (AVC), traumas, autismo, déficit de atenção, estresse, síndrome de pânico, esquizofrenia, entre outros.

Há restrições para quadros de luxação de quadril e instabilidade severa  de pressão, mas, mesmo nesses casos, é possível determinar um bom programa de equoterapia, respeitando-se os limites.

Depois da Segunda Guerra Mundial,  os  médicos  começaram  a notar que o cavalo podia ser um aliado da saúde do homem. Na Europa, os homens mutilados ou depressivos, que praticavam equitação, tinham uma melhora mais rápida e logo voltavam à vida social.

Com o estudo desses benefícios, foram surgindo centros de equoterapia na França, Itália e Inglaterra. No Brasil, a prática é mais recente, chegou há 18 anos, com a Associação Nacional de Equoterapia (Ande-Brasil), cuja sede fica na Granja do Torto, em Brasília.

O número de adeptos brasileiros começou a crescer consideravelmente. Segundo a Ande-Brasil, em 1989 havia 6 alunos e o último levantamento, de 2005, aponta 13.760, com crescimento contínuo. No Estado de São Paulo, há 65 centros filiados às atividades, com uma média de 1.400 atendimentos por mês. No Brasil, são 250 centros filiados.

Os centros credenciados seguem as regras estipuladas: necessidade de uma equipe interdisciplinar e todos os membros com curso feito de equoterapia na Ande-Brasil. Os cavalos são treinados para ter um modo específico de andar. Para cada caso, a fisioterapeuta determina o ritmo do animal – o único animal que reproduz a marcha humana.

A equipe traça em conjunto os objetivos, levando em conta aspectos físicos, psicológicos, educacionais. Reavaliam o projeto a cada semestre.

Surpreendente descoberta no meio animal: o cavalo é uma valiosa ferramenta educacional e medicinal. É ajuda e remédio para muitos males.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em agosto/2007)

RETROSPECTIVA HISTÓRICA: “A ESCOLA PÚBLICA NA DÉCADA DE 60”

Izabel  Sadalla Grispino *

Surge nos anos 60, precisamente em sua 2ª metade, manifestação explícita, até, então, a maior, por parte da Secretaria da Educação pela democratização do ensino. Expandiu-se a construção de prédios escolares e novas metodologias, em função da nova clientela, novas abordagens pedagógicas, começaram a ser divulgadas e implementadas nas escolas da rede estadual.

Em 1962, criava-se, sob a orientação da Profa. Maria Nilde Mascellani, o Serviço de Ensino Vocacional (SEV), com a instalação de 5 ginásios vocacionais no estado de São Paulo. Paralelamente, foram instituídos, na gestão do secretário da Educação Prof. Paulo Nathanael, os chamados ginásios pluricurriculares, polivalentes.

Nesse período eu era diretora de uma escola estadual que mantinha os cursos: colegial, normal e ginasial. Por volta de 69/70, esse ginásio passou a ser pluricurricular.

Como o próprio nome o definia, ele oferecia aos alunos um leque de opções curriculares, permitindo-lhes descobrir tendências vocacionais e encaminhá-los, quando fosse o caso, a uma profissionalização de nível médio. Seria como um desmembramento do ginásio vocacional. Uma de suas bases de sustentação era a criação da oficina de artes e ofícios.

Era uma nova proposta de escola com um embasamento teórico e experimental de longo alcance. Para ser melhor compreendida e ajustada à sua aplicabilidade, necessitava de um profissional que se dedicasse exclusivamente à coordenação pedagógica. Foi, praticamente,  o início dessa função nas escolas públicas.

Contudo, o seu maior desafio consistia na capacidade de seus integrantes alcançarem a metodologia emergente, com sua pedagogia da cooperação e sua valorização das individualidades. Revolucionavam-se a abordagem do conteúdo e toda uma estrutura comportamental vigente.

O ensino começava a se distanciar da linha cartesiana que ostentava bandeiras com lemas da eletizada escola da disciplina, austeridade, honra e excelência. Escola que, contudo, respondia, favoravelmente, à sua clientela, seleta, oriunda de classes abastadas, dominantes, aspirantes ao ingresso nas universidades.

O advento da era industrial, gerando um grande contigente populacional urbano, pedia mudanças estruturais na sua conceituação. A visão cartesiana, inspirada, por longas décadas, na filosofia da racionalidade do francês René Descartes, século XVII, era tida, para a situação, como linear, maciçamente repressora, passando sobre a individualidade das pessoas.

A Escola precisava diversificar as ofertas  educacionais,  adequar-se  ao  trabalho industrial  e às características desse aluno proveniente, neste momento, das  mais  diferentes  classes  sociais. Surgiram mais escolas estaduais industriais com profissionalização de nível médio, passando, depois, a chamar-se “Escolas Técnicas Estaduais”, agora, ligadas à Fundação Paula Souza.

Nessa evolução, entendeu-se como fundamental olhar para dentro do aluno, valorizar suas aspirações, o seu modo peculiar de ser. A pedagogia se aparelhava da psicologia. Despontava a visão dialética, holística do homem. O aluno passava a ser visto no seu todo, compreendido e ajudado nos aspectos cognitivo, afetivo e psicomotor.

Surgiam frases de efeito, representativas da nova mentalidade: “o trabalho dignifica”, “liberdade com responsabilidade”, “educar é libertar”, “educar é um ato de amor”, “respeito às individualidades”, “só é mestre quem sabe aprender”...

Derrubava-se a muralha existente entre a escola e a comunidade. No lugar da rigidez, passou-se à flexibilização de atitudes e de conteúdo. O professor não mais impunha, ao aluno, seu planejamento --  agora elaborado de modo interdisciplinar --  ao contrário, planejava com a sua colaboração,  observando  o  nível  da  classe, respeitando o seu ritmo e sua potencialidade. Dialogava, construía o conhecimento juntamente com ele, considerando-o um ser capaz de criar, o agente da aprendizagem. Entre as técnicas de ensino, a  pesquisa, com  a  utilização estimulada  das  bibliotecas,  era  de primordial importância.A avaliação, antes centrada no aluno, passou a ser de mão dupla, centrada, também, no professor, com a conceituação não mais de medir, de reprimir, mas de verificar o crescimento do aluno. Uma avaliação que proporcionasse verificar a evolução da maturidade do aluno, num progresso gradual e constante.

A comunidade passou a ser chamada a participar do plano escolar, a esclarecer-se e acompanhar o desenrolar das atividades-meio e atividades-fim. A Escola tornou-se mais aberta, mais humanizadora, menos soberana.

Seus grandes princípios continuam bastante atuais, compreensivelmente, com ajustes aperfeiçoados ou complementados pelas exigências de adaptação aos avanços tecnológicos e conseqüente transformação social.

Foi, sem dúvida, a grande semente didático-pedagógica e democrática, lançada na rede do ensino oficial do estado de São Paulo. Com o tempo e seu amadurecimento, esses princípios culminaram no processo atual de ensino-aprendizagem, no qual ressaltamos: a formação de ciclos no ensino fundamental, a diversificação das maneiras de classificar e reclassificar os alunos  da educação básica e a reiterada afirmação do método construtivista.

* Supervisora de ensino aposentada.    
(Publicado em abril 2000)

O ENTENDIMENTO QUE DEVE SER ALCANÇADO

Izabel Sadalla Grispino *

O nosso sistema de ensino, no grau debilitado em que se encontra, vem minando a estabilidade e o desenvolvimento futuro do País. A falta de conhecimento da população está diretamente ligada à desordem social.

Que sociedade teremos, daqui a alguns anos, se nossas crianças não conseguem aprender? Enfrentar o fracasso de nossas escolas requer uma análise profunda das falhas de estrutura e incentivos ao sistema. Pensa-se, hoje, numa ação conjunta, integrada de todos os Estados e municípios.

As universidades e institutos de pedagogia preparam mal o professor para o exercício em sala de aula. Ainda, observa-se pouco interesse na solução de problemas sistêmicos do ensino público. O sistema tem negligenciado os resultados acadêmicos, voltando-se mais aos benefícios de infra-estrutura que do produto de seu ensino, levando os nossos jovens ao analfabetismo e a nação à pobreza.

Desenvolver capacidades institucionais, nos diversos domínios da educação escolar, vem alcançando o entendimento geral, a fim de viabilizar soluções de ordem pedagógica e da desordem crônica das escolas.

Uma consistente reforma educacional deve ser providenciada se quisermos salvar nossos jovens do analfabetismo e a não da pobreza. A coisa é mais preocupante do que se apresenta. Entram em jogo o desenvolvimento econômico, a desordem social, gerando violência e perturbações de toda ordem.

Na constatação de que a baixa escolaridade – o jovem, em média, tem 8,5 anos de estudo – é entrave ao desenvolvimento, o Banco Mundial (Bird) apresenta um trabalho em que demonstra o tamanho do estrago que ela traz ao social e ao sistema econômico. Apresenta um relatório “Jovem em situação de risco no Brasil”, divulgado em 25 de julho p.p., mostrando que os custos para o País são muito mais amplos: violência, aids, gravidez precoce, desemprego, abuso de drogas e álcool. Custos não só em despesas diretas do País, quanto no que esse jovem deixará de produzir para si e para o País.

O Banco Mundial conclui que o Produto Interno Bruto (PIB) deixa de crescer meio ponto percentual por ano, porque um grande contingente de jovens não consegue terminar a escola, não consegue aprender. Essa porcentagem, explica o Banco, significa que em uma geração (30 ou 40 anos, neste caso) o Brasil deixa de ganhar R$ 300 bilhões, o equivalente a 16% do Produto Interno Bruto.

O Banco conclui que “a baixa acumulação de capital humano permite antecipar uma futura geração que não será competitiva nem na região, nem no mundo”. Mostra que o número de jovens, que chega ao ensino superior no Brasil, é o menor da América Latina. A pobreza, aliada à incompetência escolar, faz com que todos os demais riscos aumentem.

Assim, uma nova escola deverá surgir, na conscientização da boa educação a ser dada aos jovens, a essa parcela da população mais importante do processo de desenvolvimento do País. Se se conseguir avançar nessa direção, os demais problemas decorrentes serão amenizados.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em agosto/2007)

CONSIDERAÇÕES SOBRE CONCURSO PÚBLICO

Izabel Sadalla Grispino *

Participando de um encontro de estudos sobre problemas sociais, numa determinada altura, abordou-se o tema concurso público. Havia um grupo de descontentes com o resultado de um concurso público municipal, de uma cidade da região. O grupo colocava sérias dúvidas sobre sua honestidade, portanto de sua validade. As dúvidas aumentaram depois da prova oral, as ditas “entrevistas”, que, segundo se acredita, são as facilitadoras das conveniências eleitas.

Ainda, após o resultado do concurso, as críticas surgiram contundentes, apontavam conteúdo desatualizado, falha na formulação dos testes, querendo, inclusive, que se procedesse a uma revisão de prova, o que não estava estabelecido em edital.

A série de artigos que vimos publicando semanalmente tem, entre outros, o objetivo de colocar os leitores a par da situação atual do ensino, em seus diferentes níveis, bem como dar uma visão dos aspectos relevantes da atual reforma da educação. Concurso público insere-se no contexto, faz parte da engrenagem educacional. É ele o balanceamento de uma aprendizagem adquirida, um caminho de realização que passa pela estrada do saber.

As prefeituras, seguindo o que dispõe a Constituição da República Federativa do Brasil, em seu Capítulo VII, Da Administração Pública, Secção I, Disposições Gerais, art. 37, inciso II, vêm abrindo concursos públicos para admissão de funcionários. “A investidura em cargo ou emprego público depende da aprovação prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos, ressalvadas as nomeações para cargos em comissão, declarados em lei de livre nomeação e exoneração”, reza a Constituição.

Quando desconfianças ocorrem, o que fazer? Que trilha percorrer? Nossas reflexões se encaminham no sentido de sugerir às prefeituras a eliminação de procedimentos que possam dar margem a desencontradas interpretações, como, por exemplo, as “entrevistas”. Por que não isentar o concurso dessa parte subjetiva? Por que não aferir personalidade, cooperação, humor, relação interpessoal através de testes escritos?

Em contrapartida, orientamos os candidatos no sentido de observar os procedimentos contidos no edital publicado, que contém regulamentos, datas, prazos previstos para atos e recursos, conteúdo e bibliografia da área em questão. Fora dos prazos estabelecidos não adianta impetrar recurso, como não adianta reivindicar algo que não esteja contido no edital. É preciso estar vigilante, reclamar o que é devido no momento certo. Há situações na vida que se assemelham a um tribunal: “Ou fale agora, ou se cale para sempre”. Deve-se exigir, do concurso, a maior transparência e, se for o caso, admitir fiscais comunitários junto com os oficiais, gerando confiança, maior aceitação, tanto de aprovados como de não aprovados.

O concurso público é a oportunidade isenta que o homem precisa.  É  um  instrumento  imparcial –  ou  deve  ser  --, indiscriminatório, com a finalidade de proporcionar oportunidades iguais a todos. É encarado como um processo moralizante da administração pública, aquele que outorga ao indivíduo o uso pleno da cidadania. Afasta – ou deve afastar --, a sombra do protecionismo, do compadrio, permitindo a todo cidadão sonhar, aspirar à ascensão social e profissional por mérito.

Com a realização de concursos, mudam-se os sistemas de contratação de pessoal. Processos de mudança implicam em mudança de mentalidade. Fazendo uma sucinta análise sociológica, constatamos um arraigado comportamento nacional paternalista, protecionista, que vem desde os primórdios da nossa civilização, da era colonial. Essa era caracterizou-se pela distribuição de favores, de benesses do rei aos protegidos, semelhantes aos feudos herdados de pais a filhos. E a cultura do apadrinhamento instalou-se entre nós.

O concurso quebra essa cultura, a forma arcaica de contratação, repleta de vícios e improbidades. A democracia traz uma nova visão de mundo, impõe uma nova ordem social, apoiada nos princípios de liberdade, igualdade e fraternidade, conforme preconizou a revolução francesa, do fim do século XVIII. Durante anos, na época da repressão, teceu-se a cultura do silêncio. Na atualidade, a convivência democrática rompe esse silêncio ancestral. Felizmente, podemos opinar, sugerir, reivindicar, esclarecer, como fazemos agora.

Em relação ao concurso, o candidato não pode criar falsa ilusão, encará-lo como uma aventura. Tem que estudar, tem que ralar, apropriar-se do conhecimento. É o conhecimento que vai premiá-lo, empurrá-lo para o sucesso. É ele a mola-mestra do emprego nos dias presentes e futuros. Quando discorremos sobre o ensino técnico, no subtítulo: “A supremacia da informação”, dissemos: “Já se apregoa que a boa formação do futuro tem que estar apoiada em dois vetores: o da formação do consumidor da cultura e o do produtor da cultura. O profissional do próximo milênio terá que estudar a vida toda. O analfabeto funcional não é mais aquele que aprendeu sofrivelmente a ler e a escrever, mas aquele que não cultivou o exercício continuado da leitura e da escrita, aquele que não acompanhou a evolução tecnológica”.

Para se galgarem os degraus do sucesso, há que se passar pelos obstáculos.  O  primeiro pode significar a superação do outro. Precisamos aprender a aprender com as mais variadas situações existenciais. Tentativas para fraudar concursos podem até existir, mas há mecanismos para combatê-las. O que não pode acontecer é o indivíduo desanimar, deixar de acreditar.

Falamos como educadores, como alguém que tem os pés no chão e a cosmovisão no futuro, como alguém que passa a vida orientando jovens e adultos e é como tal que incitamos nossos caros pretendentes a cargos públicos, ou a outros, a se apegarem à idéia de concurso. Esse processo de seleção veio para ficar e é praticamente a única opção de muitos para encontrar o seu lugar ao sol. Resta torcer para que os concursos evoluam em qualidade, que apresentem testes  tecnicamente bem formulados, com conteúdos atualizados, nos quais raciocínio e criatividade cresçam em importância na mesma proporção em que decresça memorização.

Vamos nos conscientizar, nos preparar convenientemente para enfrentá-lo. O concurso é sempre uma aula dada; a lição depende da maturidade de cada um.

“Há derrotas que são triunfos maiores do que algumas vitórias”.

* Supervisora de ensino aposentada.            
(Publicado em outubro de 2000)

A POBREZA E O ENSINO SUPERIOR

Izabel Sadalla Grispino *

A realidade brasileira é marcada por forte desigualdade social e um caminho a trilhar, nessa direção, é a educação. O acesso ao 3.º grau é uma das formas mais seguras de ascensão social no Brasil. A população carente começa a entender o processo, a necessidade de se cursar uma universidade para se afirmar socialmente.

 

EDUCAR PARA OS DIREITOS HUMANOS

Izabel Sadalla Grispino *

O avanço no processo educacional ganha dimensões humanas inusitadas. A escola volta seu olhar para as pessoas de risco, buscando resgatar sua dignidade, na prática do exercício da cidadania. Em localidades carentes, a escola predispõe-se a regularizar a vida da criança, partindo do registro civil.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou, em 16 de dezembro de 2002, que em 2000, em um ano, mais de um milhão de crianças não têm certidão de nascimento. Em 2000, 3,2 milhões de crianças nasceram em hospitais brasileiros, mas apenas 2,5 milhões foram registradas em cartórios. Além desses bebês – 700 mil  que não entraram nas estatísticas oficiais -- o IBGE calcula que outros 370 mil nascimentos ocorreram em casa e não foram notificados, levando a um total de 1.070.000 de crianças sem certidão de nascimento, em apenas um ano.

Os chamados sub-registros afetam não só os dados de nascimentos, mas também os óbitos. O IBGE estima que,  nas regiões Norte e Nordeste, 48,2% e 35,6% dos nascimentos não foram registrados em 2000.

A escola, considerando que o sub-registro é um problema sério, envolve a questão da cidadania, entende que o primeiro passo é providenciar o registro dessas crianças. Afinal, quem não tem certidão de nascimento não existe e não pode exercer seus direitos.

Criou-se, assim, a concepção de sujeito de direito, conceito que a escola quer desenvolver nos alunos. Mostrar à criança novos caminhos, estimular a vontade de ser alguém, desenvolver nela a consciência de que tem direitos, tem direito a ser criança, de que é uma pessoa capaz. Estes aspectos são pontos de partida para a educação da cidadania.

Sujeito de direito é uma louvável vertente da escola que quer educar a criança para os direitos humanos, procedimento que atinge tanto a educação formal, como a informal. A educação dos direitos humanos é multidimensional, abrange não só a dimensão cognitiva do aluno, mas a dimensão comportamental, social, afetiva, emocional. Prepara o aluno para ser um cidadão cônscio de seus deveres, suas responsabilidades e dos direitos a que tem e que pode usufruir.

*    *    *

FELIZ  ANO  NOVO

É o que desejo a todos vocês, queridos leitores. Que 2003 os conduza em direção à estrela-maior, reinado do amor, da fé, da esperança. Que sua irradiação transforme a terra num oráculo de canto e de paz.

 

PASSAGEM DE ANO

PASSAGEM DA VIDA

A vida desponta:

Crescemos,

Lutamos,

Construímos,

Energia total.

Vivemos junto à esperança,

Futuro e sonho,

Escritos em aliança.


Eis que o sol poente aparece,

Quanta mágoa, quanta desilusão!

Ausência de fantasia,

Realidade e sangria.

A realização é inconsistente,

A vida é estreita demais,

Sempre se espera fazer mais.

Agora, pouco se olha pra frente,

O passado vira alimento,

A vida se torna lembranças,

Volta-se ao solar da criança.

A vida é canto sonoro,

Passos leves, sem esmagar,

A estrela que tanto brilha,

Lentamente se apaga ao luar,

Andamos tropeçando em túmulos,

Sabendo que haverá a hora de lá chegar!

Vida e tarde que escurece,

O esperar, o desesperar,

Chorar a saudade,

Viver o conflito,

A dor que arrebenta,

Um amor que nos sustenta;

Vão-se as noites de verão,

O inverno chega de antemão.

A vida vale pela paz,

Águas mansas que deslizam devagar,

Não há tempo, nem espaço para a insensatez,

O universo dá a todos pouca vez.

 

* Supervisora de ensino aposentada.    
(Publicado em dezembro/2002)

ENSINO SUPERIOR PARA O ÍNDIO

Izabel Sadalla Grispino *

Uma outra minoria que desponta em direção à afirmação, ao enfrentamento do preconceito, é a do índio. O índio começa a entender o valor da educação e sai à procura de escolas. Desperta-se para uma nova realidade, valorizando a formação profissional. Quer ter acesso ao ensino superior, melhorar o conhecimento, aperfeiçoar-se.

A sociedade também começa a dar mais atenção aos grupos étnicos discriminados. Já se manifesta, em pontos localizados, exortando medidas governamentais, que garantam escolas, de todos os níveis, à população indígena.

A exclusão é sempre lastimável, tanto para os grupos marginalizados, como para o desenvolvimento do País, que se vê limitado no avanço das competições, no mercado internacional. Embora haja toda uma legislação favorável, a política educacional de apoio às minorias é lenta e desestimulada. No Brasil, surgiu, neste segundo semestre, a primeira universidade estadual, localizada em Mato Grosso (Unemat). É uma iniciativa pioneira, onde serão oferecidos cursos de licenciatura, exclusivos para formar professores índios em nível superior. É um passo que se dá em direção à criação de uma universidade abrangente do gênero no País. Matricularam-se na Unemat 300 alunos de 35 etnias.

Os cursos serão dados no campus de Barra do Bugres, a 160 quilômetros da capital Cuiabá. O que antes parecia um sonho distante,  hoje, a idéia de reunir só universitários indígenas em sala de aula torna-se realidade. Levantamento estatístico mostrou existir, entre nós, 207 povos indígenas, com mais de 62 mil alunos freqüentando o ensino fundamental de 1.ª a 8.ª série. Temos 3.041 professores índios, espalhados em 1.666 escolas e que cursaram, com dificuldade, o 1.º e o 2.º graus. São considerados professores leigos porque lecionam sem diploma universitário.

Os ingressantes à Unemat são, na maioria, professores em suas aldeias. Dos aprovados, 167 são homens e as idades variam de 18 a 56 anos. As aulas serão sempre em julho, janeiro e fevereiro, meses de férias escolares. Depois de cinco anos serão formatos em Matemática, Ciências Sociais e Português. Professores de outras universidades, como USP, Unicamp, Puccamp, UFRJ e UFPR, darão, para os índios, aulas em português.

Na passagem dos conteúdos, a universidade vai dialogar com os índios, relacioná-los à cultura indígena, na caracterização da pluralidade cultural e na contextualização do currículo. A metodologia privilegia o debate intercultural. Na redação do vestibular, os candidatos dissertaram sobre a vida dos índios, realidade vivida por eles.

No País, menos de 100 alunos têm acesso ao ensino superior. O Estado de São Paulo, ainda fica no magistério. Pela estatística, há 700 crianças índias, de 7 a 14 anos, tendo aulas com instrutores leigos e em salas de aula em precárias condições. No Amazonas, há 649 escolas, a maioria de madeira, em situação lastimável. É a imagem de um Brasil pequeno, vôo de tico-tico, longe do condor!

Muitos Estados ainda não se acordaram para a educação indígena, em todos os níveis.  O  Estado  do Paraná,

através da Assembléia Legislativa, aprovou, em abril p. passado, uma lei que destina 15 vagas nas universidades estaduais para índios paranaenses. Mas, eles estudarão com os brancos.

Universidades indígenas, que ofereçam cursos como de medicina, enfermagem, agronomia e direito, levarão, ainda, um bom tempo para existir, de oito a dez anos, calcula-se.

Desde 1991, a responsabilidade pelo ensino das tribos passou para o Ministério da Educação. Era da Fundação Nacional do Índio. A legislação prevê que o ensino deve ser feito, preferencialmente, por índios e que até 2007 todos os professores, dos ensinos fundamental e médio, incluindo os professores indígenas, devem ter diploma universitário. O curso universitário para os índios acaba de ser criado, o que faz concluir que para eles essa é uma realidade que se posiciona longe.

O estímulo a uma política educacional para o povo indígena teve um bom suporte, com a elaboração do Parâmetro Curricular Nacional das Escolas Indígenas, pelo Ministério da Educação (MEC), lançado em 21 de maio de 1998. Com esse referencial, as escolas das aldeias passaram a ter, desde 1999, currículos próprios, valorizando sua cultura. Até então, buscava-se apenas civilizar, integrar os índios à sociedade, deixando de preservar e valorizar as suas diferentes culturas.

O parâmetro curricular alia o ensino das matérias tradicionais à discussão de temas de interesse das comunidades, como a organização e direitos das nações indígenas no Brasil. Pela proposta do MEC, o ensino da língua portuguesa deverá ser simultâneo ao da língua indígena local. Na Matemática, além do tradicional estudo de números e operações, o aluno lidará com os sistemas numéricos usados pelos diferentes povos indígenas e pela sociedade em geral, para facilitar sua comunicação. Na geografia, a proposta é partir do espaço geográfico onde vive o aluno para ajudá-lo a entender sua localização no Brasil e no mundo. Na educação física, o aluno deverá conhecer desde os jogos e brincadeiras tradicionais de sua tribo, até as práticas esportivas brasileiras e internacionais.

O índio necessita preservar sua auto-estima, orgulhar-se de sua descendência, não negar sua condição de índio, reabilitar-se perante a sociedade. Ele não pode perder o seu arraigado sentido de grupo, devendo a escola saber conciliar tradição e modernidade.


* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em outubro/2001)

LEITURA, INTERPRETAÇÃO E REDAÇÃO

Izabel Sadalla Grispino*

Os recentes dados do MEC mostram que uma boa parte dos jovens, cursando o fim do ensino médio, é incapaz de entender o que lê. Esses jovens aspiram, geralmente, entrar numa faculdade e a interpretação do texto é a habilidade mais cobrada nos vestibulares, não apenas em português, mas em todas as matérias.

As questões exigem cada vez menos memória e em seu lugar utiliza-se de trechos extraídos de livros, jornais, revistas, tiras de quadrinhos e mesmo de propaganda. Esse processo vem ganhando as escolas em seus sistemas de construção do conhecimento, quando se prepara o aluno para desenvolver a capacidade de resolver problemas, de raciocinar, de ligar o conhecimento formal aos fatos de sua vida diária.

Para desenvolver a interpretação, o melhor caminho é a leitura. Uma leitura diversificada, de gêneros literários diferentes, jornalísticos, publicitários, poesias etc. Uma leitura atenta ao conteúdo, à forma de escrever, às regras gramaticais, tentando captar o que está nas linhas e, também, nas entrelinhas, isto é, o que está implícito no texto. Para tanto, o aluno deve ser orientado a uma leitura cuidadosa, instigado a ver além do que está simplesmente escrito.

O vestibular tem proposto questões contextualizadas, o que significa que o estudante deve analisar a situação, o contexto em que aparecem, para depois respondê-las. Deve ler jornais para se atualizar, para tomar conhecimento do que se passa ao redor, ao País, ao mundo. Aluno que lê acaba tendo um bom entendimento de texto e desenvolve a capacidade de se expressar bem. A leitura é a chave de uma boa redação, de um bom aproveitamento intelectual. Quanto mais o aluno lê, maior será a sua desenvoltura diante do saber. Infelizmente, o aluno brasileiro lê muito pouco e cada vez menos.

A escola, conhecedora dessa grave distorção no ensino da língua, deve atacar de frente o problema, criando projetos integrados a todas as áreas, não se restringindo ao português. Projetos isolados não trazem o reforço e a amplitude desejável. O que se observa, largamente, nas escolas, são experiências desarticuladas, em recursos que não se aproveitam entre si, em conteúdos que não se interligam, compartimentando o conhecimento.

Programas integrados, além do reforço, da visão ampla do assunto, fixam melhor o conteúdo e produzem, conseqüentemente, pela abrangência, melhores benefícios ao educando. Um estímulo geral, em relação à leitura, em exercícios de interpretação de textos e em redação, deve ser pensado em todas as disciplinas do currículo.

Um outro ponto importante na aprendizagem é ensinar o aluno aprender a aprender. A dedicação pode ser o grande método de estudo para quem deseja aprender. Ensinar ao aluno que ser dedicado significa trabalhar alguma coisa com determinação para atingir um objetivo; também é preciso haver motivação e essa motivação é grandemente ajudada pelo professor, pois nem todo aluno aprende de forma igual. Uns aprendem todo o conteúdo em sala de aula, outros necessitam revisar a matéria em casa ou voltar ao assunto novamente, com o professor. Cada um tem um ritmo, um estilo próprio.

O quadro atual da escolaridade brasileira é lamentável, não só em termos de qualificação, como em termos de abandono à escola. Vejamos o que nos expõe a Geografia da Educação Brasileira 2001, divulgada em março de 2003, pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep), do Ministério da Educação: a cada grupo de 100 alunos matriculados no ensino fundamental, 41 deixam a escola sem completá-lo. Os que conseguem se formar gastam, em média, 10,2 anos. Praticamente o tempo que levariam para cursar as 8 séries do ensino fundamental e as 3 do ensino médio, se não houvesse repetência.

A relação entre alunos que iniciam e terminam é melhor no ensino médio. De cada 100 alunos que ingressam nesse ensino, 74 chegam a concluí-lo e gastam, em média, 3,7 anos para cursar as 3 séries desse nível. Do total de alunos matriculados na 1.ª série do ensino fundamental, apenas 40% conseguem se formar no ensino médio. Ao repetir, o aluno acaba desanimando e saindo da escola. A repetência é uma das principais causas da perda da auto-estima do aluno e da exclusão escolar.

Junto ao atraso na escolaridade, à perda da qualidade do ensino, perde-se, também, o status social do professor. Perdem-se alunos, perde-se a boa formação acadêmica, não por se ter esgotado o papel do professor, mas pela decadência de todo um sistema de ensino. A escola, no seu âmbito, não consegue coordenar os projetos pedagógicos, que acabam ficando desarticulados, com projeções diferentes. Não consegue alcançar uma metodologia diferenciada, capaz de inclusão, não consegue entrar no mundo desmotivado do aluno carente ou exercitar estratégias que introduzam a qualidade do ensino.

* Supervisora de ensino aposentada.       
(Publicado em fevereiro/2004)

Caixa de texto: Clique para voltar ao sumário* Supervisora de ensino aposentada.

(Publicado em fevereiro/2004)

EDUCAÇÃO E DESENVOLVIMENTO SOCIAL

Izabel Sadalla Grispino *

Lutar para elevar o nível de ensino das escolas brasileiras, em especial das escolas públicas, é lutar pelo de-senvolvimento do País, lutar pela desigualdade social.  A diferença educacional do pobre e do rico só faz aumentar a concentração de renda. Não há ascensão social sem educação de qualidade, inexistindo a possibilidade de empregos bem remunerados.

Quanto à economia, nosso decadente ensino nega os recursos humanos necessitados pelas empresas em mão-de-obra qualificada. A produtividade fica inibida diante do fraco treinamento dos professores para encarar tecnologias mais avançadas no campo da produtividade. O baixo nível de escolaridade interfere, também, na competitividade internacional, quando países como o Brasil disputam a mesma parcela do mercado globalizado.

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é um indicador que passou a ser usado pela Organização das Nações Unidas (ONU) a partir dos anos 90. Pelo IDH, divulgado em julho corrente, o Brasil teve uma queda acentuada no ranking que mede o desenvolvimento humano no mundo. Na comparação com 175 países e 2 territórios, entre os anos 2001 e 2002, o Brasil caiu da 65.ª posição para a 72.ª, ficando abaixo da colocação que se encontrava no começo dos anos 90.

A queda brasileira no ranking deu-se pela piora nos dados de educação, principalmente pelo percentual de analfabetos entre pessoas com mais de 15 anos. A posição brasileira no ranking mundial mostra um retrocesso lamentável na educação.

O IDH mostra que a riqueza do País continua concentrada nas mãos de uma minoria da população. Mostra, no Índice, quantas vezes a renda dos 10% mais ricos no País é maior do que a dos 10% mais pobres, e o Brasil atinge 85 vezes. Vemos, então, como somos um País desigual e quanto devemos batalhar por uma educação de qualidade para as classes menos favorecidas.

O grande caminho para enfrentar a marginalidade educacional, social e econômica é assistir melhor à escola. Investir mais no ensino, melhorar e muito o salário dos professores, para que, estimulados, assumam maior compromisso com a educação. Para que se dediquem à reciclagem de conhecimentos, educando-se convenientemente, contribuindo qualitativamente com a escola que a época vem pedindo. Ao capacitar-se melhor, o professor, com mais possibilidades, entenderá que o maior objetivo da escola é fazer o aluno aprender; dar-lhe uma boa formação e não apenas fazê-lo passar de ano, muitas vezes, sem o mínimo necessário de conhecimento.

Bons professores resultam em bons alunos. Os próprios professores da rede pública, quando se trata de colocar os filhos na escola, colocam-nos em escolas privadas. Uma pesquisa realizada pela Unesco, feita com educadores brasileiros, “O Perfil dos Professores Brasileiros”, divulgada em maio de 2004, mostrou que os professores brasileiros, ganhando mal, preferem se sacrificar e pagar escolas particulares para seus filhos que deixá-los em escolas públicas. Mostrou que 54% dos 5 mil entrevistados escolheram pagar pela educação dos filhos. Querem garantir, segundo a pesquisa, uma “mobilidade social” para eles, um futuro melhor daquele  que tiveram. Ponderou Jorge Werthein, representante da Unesco no Brasil, de que “esses professores são a prova de que o investimento na educação tem altíssimo retorno”. Esses professores buscam qualidade de ensino, garantia de evolução social, que não encontram nas escolas públicas.

Um fato auspicioso que vem surgindo é o projeto de política integrada para os jovens. É um projeto que, segundo o ministro da Secretaria Geral da República, Luiz Dulci, vai integrar as políticas para a juventude, desenvolvido por várias áreas do governo, pelo Congresso e pela sociedade civil. Entre as ações que se programam está a reativação do Projeto Rondon. Luiz Dulci diz ser “um projeto totalmente novo, diferente do que era realizado no período autoritário”.

Contudo, o objetivo do novo Projeto Rondon “continuará sendo o de permitir uma integração maior dos estudantes com a realidade das regiões menos favorecidas do Brasil”. É, na verdade, um intercâmbio, onde os jovens levam seus conhecimentos e suas aptidões a outras regiões do País e, de retorno, assimilam novas culturas, ganham novas experiências.

A volta do Projeto Rondon foi proposta pela União Nacional dos Estudantes (UNE), como uma ação voltada para a área da juventude. O primeiro projeto foi criado em 1967, durante o regime militar, e durou até 1989. O propósito era levar estudantes universitários e professores para as regiões carentes do País, visando a realização de trabalhos sociais. Durou 22 anos e dele participaram mais de 350 mil alunos e 13 mil professores. O projeto atual pensa em ampliar a participação; além de universitários, incluir alunos do ensino médio.

O projeto de integração para a juventude quer priorizar ações na área do lazer, tentando combater a criminalidade. Atualmente, 18 áreas do governo têm ações voltadas para a juventude e o número de programas nessa ala chega a 48.

Integrar ações entre os jovens propicia avançar em direção à cidadania, à comunicação social. O projeto Rondon foi no passado uma iniciativa bem sucedida, em que a juventude se sentia útil na prática de ações sociais, desenvolvia a sociabilidade, o senso humanitário do viver, a responsabilidade perante a sociedade, vivenciando as desigualdades regionais. Vale a pena repetir a experiência.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em julho/2004)

ANALFABETISMO E DESNUTRIÇÃO

Izabel Sadalla Grispino *

Em dezembro de 2002, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou as Estatísticas do Registro Civil, mostrando que entre 1990 e 2001 a taxa de mortalidade infantil diminuiu. Em 1991, os óbitos de crianças menores de 1 ano correspondiam a 11,2% do total de falecimentos registrados. Em 2000, caiu para 6,02%.

Pelo último Censo do IBGE, em 1991, para cada mil crianças nascidas vivas, 45,3 morriam antes de completar 1 ano de vida. Em 2000, esse índice, segundo o Censo, era de 29,6 óbitos para cada mil nascimentos.

Esse decréscimo poderia ter sido bem mais significativo. Quase 30 óbitos para cada mil nascimentos é um índice muito alto, quando comparado, nas mesmas condições, com os de países latino-americanos, como, por exemplo, o Chile, com 10,3.

Um fator positivo a ser considerado é a queda da mortalidade infantil ocorrida em regiões pobres do Nordeste. Em 1991, a proporção de menores de 1 ano no total de óbitos da região era de 14%. Em 2000, esse índice recuou para 6%.

Investir na melhoria das condições de vida das crianças, dos pais, criar planos de assistência básica, de incentivos à educação, são caminhos para a desnutrição. Uma pesquisa feita pela Pastoral da Criança da Igreja Católica, divulgada em 10 de dezembro de 2002, aponta como uma das principais causas da desnutrição infantil no País o analfabetismo das mães.

Estudo do IBGE – “Evolução e Perspectiva da Mortalidade Infantil no Brasil” – mostra que a maior escolaridade, entre as mulheres, é fator preponderante na saúde das crianças. Cada ano a mais de escolaridade média, entre elas, reduz em 15% o índice de mortalidade infantil. Esse estudo veio comprovar a correlação entre analfabetismo e falta de obediência às prescrições dadas pelos médicos às mães, também durante a gravidez.

A pesquisa da Pastoral da Criança – Saúde e Nutrição Infantil em Áreas Pobres do Norte e Nordeste do Brasil – abrangeu 1.528 crianças de zero a 5 anos, em três mil domicílios de 18 áreas rurais e urbanas. Foi feita em nove municípios tirados de uma lista de 32 com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), do Brasil.

Dentre as crianças pesquisadas, 8% apresentaram grau de desnutrição de moderado a grave, por estar abaixo do peso, e 16% eram portadoras de desnutrição crônica. Os pesquisadores encontraram 37,2% das mães e 45,9% dos pais analfabetos, sendo que apenas 35,6% das mães freqüentaram a escola de um a três anos.

A maioria das mães respondeu corretamente que o leite materno é um inibidor de doenças infecciosas em crianças de até 6 meses de vida, mas a maior parte confirmou que deu água (81,6%), chás (73,2%), sucos (73,2%) e leite em pó (50,2%) no primeiro mês de vida. Foi alto o índice de crianças alcançado pelo esquema de vacinação de massa (85%). A falta de alfabetização da mãe é fator forte para desnutrição, conclui o estudo.

Há uma opinião generalizada de que educação é a primeira necessidade do homem, depois do pão. Porém, como vimos, a educação vem junto ao pão, caminham paralelamente, concepção fortemente referendada por pesquisas científicas.

Sentimos a importância da educação na solução dos sérios problemas brasileiros. As políticas sociais têm relação com a educação. A educação é o elo que integra todos os programas, quer sociais, quer governamentais, não importando em que área.

Os dados do IBGE apontam o analfabetismo como entrave à reversão da mortalidade infantil. A Pastoral da Criança propõe ao governo Lula combate reforçado ao analfabetismo.

O combate ao analfabetismo deve ser uma séria prioridade governamental. Estudo divulgado pelo Inep – Mapa do Analfabetismo no Brasil – apresenta um panorama da educação de todos os municípios brasileiros. Esse estudo reúne indicadores produzidos em 2000 pelo IBGE, pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Paud) e pelo Inep. Revela que o Brasil possui cerca de 16 milhões de analfabetos com 15 anos ou mais e 30 milhões de analfabetos funcionais, pessoas que têm menos de 4 anos de estudo. O mapa do analfabetismo fornece informações para reflexão, subsidiando a formulação de políticas públicas e privadas na área da educação.

Para tentar erradicar o analfabetismo, no período de 4 anos, o Brasil precisaria de cerca de 200 mil alfabetizadores. Os analistas do sistema educacional consideram um número, que embora alto, não é inviável, principalmente pelo fato de as matrículas de 1.ª à 4.ª série no ensino fundamental estarem em queda, vagando salas e professores.

Um fator que merece preocupação é a capacitação do alfabetizador e a formulação de programas de qualidade. Como lembra Paulo Freire, alfabetizar não é apenas ensinar o b, a, bá, é dar ao alfabetizando uma visão de mundo, fazê-lo alcançar uma interpretação crítica dos fatos, desenvolver uma consciência pessoal e social.

A improvisação, em educação, só gera fracasso. O que se nota, no Brasil como um todo, é um baixo desempenho do sistema escolar, especialmente das camadas pobres da população, onde o analfabetismo chega a ser 20 vezes maior. Em apenas 19 municípios brasileiros, a população possui mais de 8 anos de estudo, um índice que corresponde às 8 séries do ensino fundamental. Em outros 1.796 municípios do País, a escolarização média da população é inferior a 4 séries concluídas. Quadro realmente preocupante!

* Supervisora de ensino aposentada.            
(Publicado em junho/2003)

EXAME NACIONAL DE CURSOS, O “PROVÃO”

Izabel  Sadalla Grispino *

Fui solicitada, por estudantes universitários, a escrever sobre o Exame Nacional de Cursos (ENC), o chamado “Provão”. Os estudantes queriam saber o porquê do Provão e qual sua real finalidade. Já discorri, anteriormente, sobre o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), quando, então, abordei, de passagem, o Exame Nacional de Cursos, o “Provão”: “O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é totalmente diferente do Exame Nacional de Cursos, o “Provão”. O “Provão” não dá conseqüências individuais, é feito para avaliar o curso superior. No Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), as conseqüências são individuais, possibilita o acesso ao ensino superior, embora não dê direito garantido como dá, por exemplo, o vestibular. Vai depender do critério adotado pela escola”.

O Exame Nacional de Cursos, o “Provão”, foi instituído pelo MEC, em 1996, com a finalidade de avaliar, através do desempenho do aluno, a qualidade de ensino das instituições de nível superior. Esse exame tem como função principal induzir a qualidade de ensino dos cursos de graduação. É uma prova aplicada todos os anos nos alunos que estão concluindo o curso de graduação. O exame mede as habilidades e as competências adquiridas pelo aluno durante o curso. O aluno é obrigado a fazer a prova, sob pena de não receber o diploma de conclusão de curso. As comissões que elaboram os exames definem os objetivos, o perfil ideal do graduando, as habilidades exigidas ao longo do curso e os conteúdos que o estudante precisa dominar ao fim da graduação.

O “Provão” visa preparar uma prova abrangente, que verifique mais a capacidade do aluno, desenvolvida no período de formação, o raciocínio, que os conteúdos memorizados, ou as fórmulas decoradas. O que se busca não são as especificidades, mas a formação geral, os conhecimentos e as habilidades fundamentais. Não se restringe ao conhecimento, quer avaliar também a capacidade de o aluno aplicar o que aprendeu.

O “Provão”  está preocupado com a formação acadêmica, com a qualidade dos cursos de graduação. O que se constata é que, freqüentemente, se colocam os profissionais mais inexperientes na graduação, diz o MEC. Os exames devem refletir o que a comunidade acadêmica pensa sobre a formação profissional na graduação.

Além da prova, o formando responderá um questionário-pesquisa sobre o perfil socioeconômico, através do qual é possível saber a avaliação que ele faz do próprio curso. O questionário é uma espécie de levantamento de opinião; traz a opinião do aluno, que se reverte numa informação importante, porque, “quando 60% dos alunos dizem que tal curso é fraco, quem vai planejar o curso terá de levar em consideração esse dado. A opinião dos alunos é um instrumento de análise”, reforça o ministro da Educação.

O Exame Nacional de Cursos, o “Provão”, tem por objetivo complementar as avaliações mais abrangentes das instituições e dos cursos de ensino superior – como análise do corpo docente e da infra-estrutura – visando a melhoria dos cursos de graduação. Ele é parte do processo de avaliação das instituições. Outros itens compõem a avaliação: grau de titulação – especialização, mestrado, doutorado – nível de dedicação dos professores, volume de publicações, adequação dos métodos pedagógicos, nível de proximidade com o mercado de trabalho, qualidade de laboratórios, bibliotecas e correlatos. São, portanto, três aspectos de universo pesquisado: qualificação do corpo docente, organização didático-pedagógica e instalações.

Considera-se que mais importante do que os resultados das provas, no entanto, serão os efeitos do “Provão” sobre as faculdades. Haverá, sem dúvida, um espaço maior em direção à qualidade da aprendizagem. O ensino superior só tem a ganhar com as avaliações. Elas promovem uma salutar concorrência entre as instituições e possibilitam, inclusive, identificar cursos conhecidos como “fábricas de diplomas”.

Os resultados acumulados em 5 anos de Exame Nacional de Cursos (ENC) serão fundamentais para o recredenciamento das instituições universitárias, pelo Conselho Nacional de Educação. Serão credenciadas a cada 5 anos como universidades, centros universitários, faculdades integradas, faculdades, instituições superiores ou escolas superiores. Se por 3 anos consecutivos esses cursos tiverem conceitos D ou E e se o MEC verificar que as providências não foram tomadas, elas podem ser descredenciadas. Em contrapartida, as faculdades que tiverem bons resultados consecutivos poderão obter a concessão para abertura de vagas e criação de novos cursos.

O MEC publicou portaria vinculando os resultados do “Provão” a uma maior autonomia das universidades e centros universitários em criar cursos ou expandir suas redes. Com o objetivo de premiar a qualidade das instituições, as universidades e centros universitários, com 2 anos de conceitos A e B, na maioria dos indicadores de avaliação, podem abrir cursos de graduação fora de suas sedes, sem autorização prévia. Já instituições com conceito A, por 2 anos, podem ampliar seus cursos em até 3 municípios, dentro do estado no qual estão instaladas.

As instituições poderão sofrer um início de processo de fechamento dos cursos se revelarem, em seqüência, mau desempenho do “Provão”. Já há casos de cursos superiores que iniciam o processo de fechamento de cursos que já receberam os piores conceitos (D ou E) nas duas últimas edições do “Provão”. Caso obtenham um terceiro resultado negativo, serão submetidos a processo de renovação do reconhecimento pelo MEC, sob o risco de serem fechados. Se vierem a repetir o mau desempenho, serão visitados por comissões de especialistas para verificar a qualidade de ensino. Com base no relatório dessas comissões, o Conselho Nacional de Educação (CNE) decidirá se renova o reconhecimento dos cursos. Ser reconhecido é condição indispensável para a validade dos diplomas. Também são submetidos à renovação, com risco de fechamento, os cursos com conceito insuficiente em pelo menos 2 ou 3 itens da “Avaliação das Condições de Oferta” – em que especialistas visitam as instituições para analisar os professores, as instalações e os currículos.

O Exame Nacional de Cursos, o “Provão”, teve o mérito de colocar na pauta da discussão a qualidade dos cursos de graduação. Sinaliza, sem dúvida, política de melhoria do sistema. É forte argumento de mobilização dos universitários e de reflexão dos dirigentes escolares para a necessidade de mudanças, de atualização dos cursos, da qualidade do ensino.

*Supervisora de ensino aposentada.            
(Publicado em junho/2000)

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