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Artigos Educacionais

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TRABALHO VOLUNTÁRIO

Izabel Sadalla Grispino *

Uma face do assistencialismo social que vem surgindo e se aprimorando é o trabalho voluntário. Hoje, educa-se para ele, ressalta-se a sua importância humana, o seu alcance social.

Esse trabalho, em seu assistencialismo, ajuda a melhorar as condições de vida de quem precisa, colaborando com o desenvolvimento geral da sociedade. Já se forma conceito sobre o papel que o voluntariado exerce na formação do caráter do jovem, na sua formação humana. Ele traz benefício para os dois lados, de quem recebe e de quem pratica. Quem pratica, desenvolve uma personalidade altruísta, ganha um encaixe real à existência, deixando reflexos durante o resto de sua vida.

Hoje, o voluntariado se faz presente em todas as instituições. Nas organizações religiosas, grupos formados por diferentes religiões discutem a melhor forma de o voluntariado atuar nas diversas religiões, assim como trabalhar com pessoas de religiões diferentes das suas.

Há instituições que fazem uma espécie de capacitação de voluntários, tornando sua atuação mais eficiente, alcançando melhor os objetivos visados. Selecionam os candidatos de acordo com o perfil mais afinado às atividades – se bem que o trabalho voluntário não implica em nenhum tipo de remuneração, nem vínculo contratual. Treinam e orientam o voluntário para que sua atuação ocorra de acordo com as necessidades e filosofia da entidade. Do mesmo modo, os funcionários são preparados para trabalhar, em conjunto, com os voluntários.

A Pontifícia Universidade Católica (PUC) realizou em dois de julho do corrente ano o 1.º Congresso Brasileiro de Voluntariado, com a presença de Douglas Evangelista, coordenador do programa das Nações Unidas de Voluntariado para a América Latina, Caribe e países árabes.

Nesse 1.º congresso, surgiram como principais propostas a formação de uma rede mundial de entidades voluntárias e a criação de uma resolução que liga assistencialismo ao desenvolvimento social. Foi pedido aos delegados brasileiros que, na Organização das Nações Unidas, fizessem pressão para a aprovação dessa resolução.

A rede, pela Internet, colocada entre as diferentes comunidades, servirá para a troca de experiências, ajudando as entidades que trabalham com voluntários. “A rede servirá para criar vínculos e trocar experiências entre as organizações de diversos países”, disse Evangelista, acrescentando que o Canadá mede, em termos econômicos, a participação dos voluntários na sociedade, sendo o campeão mundial de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), instituição que afere a qualidade de vida das nações. “Lá, o voluntariado chega a 8% do Produto Interno Bruto (PIB), entre doações a entidades e tempo despendido pelos voluntários no atendimento”, arrematou.

Dia 5 de dezembro, Dia Mundial do Voluntariado, em assembléia-geral, a Comissão de Desenvolvimento Social da ONU vai tentar aprovar a resolução, para incentivar esse trabalho nos países-membros. Desse modo, as nações terão a obrigação de oferecer apoio ao trabalho voluntário.

Trabalho voluntário é ato de doação, de conscientização da parcela, pequena que seja, de contribuição de cada um, no ressurgimento de um mundo mais igualitário, menos doloroso e, por conseguinte, menos conturbado. A sociedade precisa educar-se para a ajuda mútua, aprender a dar evasão aos bons sentimentos, a acolher os necessitados, se quiser ter um amanhã sorrindo para a paz.

A situação social, todos nós sabemos, é caótica, violenta, com tendência a piorar, caso não caminhemos em direção à cura de seus males, ao alívio de suas dores. E nesse caminho, não há fórmula mágica ou fórmula inovadora, ela é a mesma máxima milenar pregada por Nosso Senhor Jesus Cristo ao querer redimir o mundo da maldade, a das mãos estendidas, do pão repartido.

Não há mais que retardar, tem-se que começar a espalhar largamente a semente do amor, para não se arcar com o pesado e doloroso ônus da omissão, do desinteresse e do culto ao individualismo. É preciso expandir a consciência da participação comunitária, orientando, educando para a formação ética e humanitária da sociedade. É preciso trabalhar a solidariedade, a comiseração, sentimentos não tão fáceis de se conseguir no mundo competitivo em que vivemos.

Diz o adágio popular: “Solidariedade não tem preço, mas ninguém dá um centavo por ela”. Vamos educar na direção oposta!

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em agosto/2001)

INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS

Izabel Sadalla Grispino *

O grande problema da frustração, que acompanha o ser humano a vida toda, tem sua origem, quase sempre, na infância: uma criança comparada com outra, tendo que se sair tão bem ou melhor que a outra!

As crianças entram numa competitividade desigual, fortemente desgastante e sem sentido. Elas são potencialmente diferentes e vão se aflorar em direções diferentes. Ninguém é igual a ninguém; difícil na educação é conduzir as individualidades, as especificidades.

O grande slogan das escolas atuais é o atendimento individual, o desenvolvimento das potencialidades. O avanço do método científico vem se apoiando, cada vez mais, no ensino diferenciado, personalizado, fundamentado nas diferentes habilidades de cada indivíduo. As mentes são diferentes e não há uma única inteligência capaz de comparar as crianças, diz a ciência. É preciso, pois, respeitar as diferenças.

A moderna pedagogia escolar apóia-se na teoria das inteligências múltiplas, estudadas, entre outros, pelo psicólogo e professor americano Howard Gardner, da Escola de Educação de Haward. Sua teoria diz que as pessoas são potencialmente múltiplas e possuem oito habilidades cada uma, ou seja, oito inteligências. São elas: inteligência musical, lógica – matemática, lingüística, corporal cinestésica, naturalista, intrapessoal, interpessoal e espacial.

A escola deve desenvolver a potencialidade de seus alunos, estimulá-los em todas essas inteligências, respeitar, porém, suas preferências, seus interesses.

Um outro aspecto importante da aprendizagem é a evolução natural dos processos psíquicos do educando. Professores e pais devem acompanhar, passo a passo, os avanços adquiridos e exigir das crianças apenas aquilo que elas podem conseguir fazer por si mesmas.

Um trabalho apresentado por uma criança que não corresponda ao seu nível de entendimento, ao seu nível de ensino, deve ser questionado sobe a real procedência. Teria tido o trabalho a participação de uma outra pessoa? Muitas vezes, os próprios pais, no afã de o filho vencer uma competição, de impressionar o professor ou visando a obtenção de notas altas, encarrega uma terceira pessoa  para “melhorar” o trabalho do filho.

Isso caracteriza um desvirtuamento da aprendizagem. A criança se refugia na ajuda, se encosta e se acomoda. Não evolui e se torna incapaz de avançar com autonomia e condições próprias, incapaz de transpor barreiras e enfrentar desafios, utilizando-se das próprias armas. Reforço na aprendizagem é de grande valia, contudo a elaboração dos textos é de exclusiva competência do aluno.

Pedir ou permitir que se façam exercícios, redações, resumos de livros, críticas literárias, para os filhos, é prejudicá-los, torna-los inseguros ao enfrentar, por si, algo a cumprir.

Ademais, esses pais estão ensinando os filhos a camuflar, a serem desonestos, perdendo, aos poucos, a sua autenticidade. Não os ensinam a crescer com responsabilidade, a fazer aquilo do que são capazes, a trilhar e desenvolver os próprios caminhos, a perceber a sua vocação, o seu limite, a sua tendência profissional. Essa criança não recebe estrutura mental compatível com as dificuldades da vida.

Um professor atento, zeloso do atendimento individual, perceberá, facilmente, as fraudes projetadas. Deverá conversar com os pais e elucidar a questão.

Educar é processo complexo, de estudo e reflexão. É um colocar frente ao espelho e definir, para o seu educando, linhas honestas, coerentes, de atuação.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em novembro/2006)

AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM: MOMENTOS DA AVALIAÇÃO

Izabel  Sadalla  Grispino*

No artigo anterior, constatamos que aspectos amplos do desenvolvimento do aluno devem ser avaliados. O professor busca informações para obter a compreensão do comportamento demonstrado pelo aluno. Essas informações, para efeito de organização, foram classificadas em três aspectos: físico e motor, social e afetivo e intelectual.

Para se avaliar hábitos de trabalho, responsabilidade, participação, relacionamento com colegas etc., deve-se levar em conta que as provas onde o aluno utiliza lápis e papel não são suficientes para dar informações sobre os aspectos do desenvolvimento considerados. Para saber se estes comportamentos ocorrem ou não, é necessário observar e estudar o comportamento dos alunos quando eles reagem em matemática, português, artes etc.

O professor deve avaliar como um educador, não como um comunicador de informação, deve interessar-se pelos alunos enquanto pessoas, valorizar suas atitudes e responsabilidade. Ao levantar os objetivos dos Planos de Ensino, deve assinalar os essenciais e dar conhecimento aos alunos. Deve colocar os padrões de rendimento aceitável, tomando por base os objetivos essenciais, em todas as atividades que serão avaliadas.

Depois de se ter decidido o que avaliar, uma outra questão surge: quando deve ser feita a avaliação?

MOMENTOS  DA  AVALIAÇÃO

“Tenho a cada momento uma ação,                 Tem sutil função controladora,                                                        Antes de uma seqüência de ensino,                  Recupera o ensino regular,
A diagnóstica faz sua função,                             Tem finalidade formadora,
Evita trabalho sem destino.                                  Escolaridade salutar.

Diagnostique o nível do aprendiz,                       Recuperar a avaliação
Planeje de acordo à realidade,                            Nas ações formativo-diagnósticas,
O aluno aprende e avança feliz,                          É da escola séria atribuição,
Visto no potencial, na irmandade.                      Pra alçar vôo, atingir veias humanísticas.

Antes do programa, dê pré-teste,                      No final da seqüência de ensino,
Para auscultar possibilidade,                             Pra promover e classificar,
No final, aplique o pós-teste,                               A somativa indica o caminho,
No confronto, a confiabilidade.                           Que o intelecto deve conquistar.

Durante o processo-aprendizagem,                  Aqui os desempenhos cognitivos,
Corrigindo o desvio quando ocorre,                   Pelos objetivos essenciais,
A formativa traz sua mensagem,                       Em avaliações cumulativas,
E o estudo paralelo socorre.                               Ditam os resultados finais.

Avaliação de acompanhamento                         Não cobre apenas uma só vez,
Não visa promover, nem reter,                           Pratique revisões espaçadas,
Aspectos do desenvolvimento                           Conduza o educando à solidez,
São objetivos a recorrer.                                     Testando atuações reiteradas.

É pro mestre valioso recurso,                            Usando bom senso e equilíbrio,
De identificação de fatores,                                Desprezando padrão absoluto,
Que ajudam ou esbarram o percurso,             Qualquer método, em bom desígnio,
E a adequação dos fios condutores.                Desempenha um papel enxuto.”

 

*Supervisora de ensino aposentada          
(Publicado em agosto/2000)

OS DESMANDOS DA CORRUPÇÃO

Izabel Sadalla Grispino *

Os caminhos abertos, a que proporciona a democracia, vêm conduzindo o povo a manifestações explícitas, a favor da moralização do nosso sistema nacional carcomido. A mídia esclarecida vem alertando a população para os desmandos da corrupção, para os prejuízos que ela causa ao País, empobrecendo-o.  As denúncias de corrupção, veiculadas pelos meios de comunicação, encontram forte ressonância junto à população, que começa a exigir transparência de atos e de fatos.

A conjuntura nacional vem se transformando, realinhando-se com vistas à moralização. Caminhando nessa direção, será ela, a corrupção, quem, em breve, entrará em crise, com estreitamento das possibilidades de sua ocorrência e com exigência de sua punição.

Sob forma clara ou velada, a corrupção se instala na educação, na saúde, na segurança, marca presença maciça no comércio. Ela chegou num grau extremo de aceitação e, conforme nos ensina a própria vida, os extremos tendem a chocar-se, trazendo o verso da moeda. Nesse preceito reside a grande esperança.

Ao penetrar no interior das instituições, poucas são as que se mantêm impolutas. No artigo da semana passada, abordei a desmoralização reinante nos cursos supletivos particulares a distância e os passos enérgicos tomados pelo Conselho Estadual de Educação (CEE) de São Paulo, a respeito. Nem mal a decisão do Conselho saiu publicada no Diário Oficial, já se iniciavam tentativas de driblá-la.

Uma escola foi flagrada cobrando R$ 4 mil para cada nível de ensino, com certificado pronto em sete dias. Para os 1.º e 2.º graus juntos, o preço subiria para R$ 5 mil. A atendente insistia que se fechasse o negócio o mais rápido possível, porque com o passar dos dias, devido à nova regra, a coisa ficaria mais difícil. Ela, ainda, se oferecia para responder à prova. “Você só precisa assinar”.

Inteirando-se dessa situação, Arthur Fonseca Filho, presidente do Conselho Estadual de Educação (CEE), desabafou: “Foge até da esfera da educação, passa para a policial”. Acrescentou: “Os vendedores de diploma devem estar adulterando documentos e cadastrando os novos alunos como se tivessem sido matriculados há 90 dias”. Uma fiscalização rigorosa faz-se necessária para identificar os alunos que se matricularam antes da nova regra.

Um outro segmento educacional que começa a preocupar são os recém-criados cursos de pós-graduação, por inúmeras faculdades. Está havendo grande procura por esses cursos. Apenas o diploma de graduação não é mais suficiente para se ter, hoje, uma carreira de sucesso. No mercado competitivo, o grau de exigência vem crescendo e coloca nos cursos de pós-graduação o diferencial. A especialização abre caminho no trabalho.

Até uns anos atrás, fazer uma pós-graduação requeria passar por uma seleção em uma universidade pública ou em uma grande instituição particular. A realidade mudou. As faculdades, percebendo a correlação, passaram a manter estruturas de pós-graduação, oferecendo cursos em várias modalidades.

Está havendo uma verdadeira proliferação e já começa a suscitar dúvidas sobre a honestidade e a qualidade de ensino dos cursos. O Conselho Nacional de Educação (CNE), órgão responsável por esse nível educacional, defende uma ampla avaliação do segmento: “A expansão precisa ser acompanhada de qualidade. Está na hora de fazer um mapeamento para ver onde e como a expansão está ocorrendo para evitar um crescimento desordenado”, arrematou Arthur Roquete de Macedo, presidente da Câmara de Ensino Superior do Conselho.

A cada dia nos deparamos com diferentes denúncias de corrupção, nos mais diferentes setores. Presentemente, confrontamo-nos com uma produção e um comércio ilícito de cópias piratas de softwares, discos, livros e fitas de áudio e vídeo, em todo o País. O mercado de fitas de áudio estima-se ser, praticamente, pirata. O desrespeito aos direitos autorais chega a um patamar absurdo e vem prejudicando as relações comerciais do Brasil com outros países, especialmente com os Estados Unidos.

O mercado de produtos pirateados impõe barreiras comerciais, causando perdas consideráveis. As campanhas antipirataria, feitas por indústrias, têm trazido algum resultado. Mas, infelizmente, está sendo de muito difícil reprimenda; burlam-se os regulamentos, em variadas estratégias.

A desonestidade reinante nos alerta para a necessidade de uma contínua vigilância, nos mostra que postergar problemas é aumentar  a dificuldade em corrigi-los.

Para conseguirmos vencer situações lastimáveis como essas, é preciso investir-se, e muito, na educação, as escolas abordando educação politizada, educando para a cidadania, para a participação consciente dos problemas político-sociais, no engajamento do sentimento patriótico.

Foi com pesar que escrevi os versos abaixo: “Corrupção viciada”.

CORRUPÇÃO  VICIADA

Que lástima, esse nosso amado País!
Só CPIs cavando a podre raiz,
Gritante aberração e deformação
Do ideal de um povo em busca de afirmação.

Se lá em cima há muita roubalheira,
Que freio botar no batedor de carteira?
Que exemplo passar a fim de educar
E conseguir intento em moralizar?

Essa terra fértil, rica em mil produtos,
Na pilhagem embarga variados frutos,
Nunca se tem dinheiro para o social,
Saúde e educação sempre em baixo astral.

O povo indignado se revolta,
Apavorado anseia proteção, escolta,
CPI não salva, não marca confiança,
Deixa, contudo, laivos de esperança.

Sistema viciado em gatunagem
Arrasta a plebe pra triste engrenagem,
Cria cultura propícia à vil esperteza,
E sintoniza formas de safadeza.

Como sair dessa aviltante emboscada?
Como trocar sufoco por gargalhada?
-- A educação, a mudança cultural,
São saídas pra essa vergonha nacional!

 

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2001)

REUNIFICAÇÃO DOS ENSINOS MÉDIO E TÉCNICO

Izabel Sadalla Grispino *

A quebra de continuidade de um sistema ou de uma modalidade de ensino, sem comprovação de avaliação que a referenda, pode criar desencontros incompatíveis à boa formação do educando. Educação é um processo a médio e a longo prazo. É preciso, pois, um tempo para avaliar com propriedade os resultados que se quer alcançar.

Um governo lança um programa, mal toma posse o outro, modifica-o, iniciando novas posturas conflitantes. Foi o que aconteceu com o Exame Nacional de Cursos, o Provão, que avaliava a qualidade de ensino dos cursos de graduação, através do desempenho dos alunos, com uma prova aplicada, todos os anos, aos alunos que estavam concluindo o curso. Quando parecia que o processo ia tomar vulto, firmar-se, sinalizando melhorias no aprimoramento do ensino, é banido e substituído por um outro processo de avaliação, pelo Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade).

Falta-nos uma política de Estado para educação, um pacto nacional envolvendo todos os partidos políticos, como vem acontecendo em países avançados. Políticas de educação têm maturação lenta, resultado de longo prazo.

O “Provão”, mais que o resultado das provas, trazia importante efeito sobre as faculdades, abrindo, entre elas, uma salutar concorrência, em direção à qualidade do ensino. O Enade fará uma avaliação por amostragem, duas vezes durante a graduação, no 2.º ano e no fim do curso, sendo tão-somente um aspecto de uma avaliação, que terá como foco a instituição. A avaliação dos alunos perde peso para a avaliação institucional.

Todo educador sabe que a avaliação é um processo contínuo, abrangente. Avalia-se todo o contingente educacional, o conjunto da estrutura institucional, o currículo, a pertinência dos cursos, em termos de exigência social, de mercado de trabalho, a infra-estrutura, a titulação do corpo docente, mas sabe, também, que é o resultado do aproveitamento emitido pelos alunos que define, prioritariamente, a qualidade da instituição.

Agora, deparamo-nos com a mudança de um outro sistema de ensino, que fora acolhido com entusiasmo quando de sua implantação em 1997, separando o ensino técnico do ensino médio, funcionando, até então, de modo integrado. Passaram a ser duas realidades distintas, pertencentes, contudo, a um mesmo sistema. O aluno para receber o diploma de técnico teria de freqüentar as duas realidades. O curso técnico, um ensino paralelo, não interferia no ensino médio.

O MEC lança a proposição de unificar, novamente, o ensino médio e o ensino técnico, permitindo a oferta concomitante e integrada dos dois tipos de ensino. A mudança permitirá ao aluno cursar a educação profissional numa escola regular; cursar os dois níveis de ensino numa mesma instituição ou em instituições diferentes. A conclusão dos dois cursos deverá ser unificada. A idéia é permitir que escolas profissionalizantes e também as da rede pública tradicional ofereçam um curso de nível médio com formação técnica, o que aumentaria de três para quatro anos a duração do ensino médio.

O MEC é de opinião de que o atual sistema prejudica o ensino técnico durante o ensino médio. Porém, o que poderá prejudicar o ensino técnico é a falta de uma boa formação acadêmica, que o ensino médio deveria proporcionar. O mercado de trabalho hoje pede um técnico com formação básica, com uma cultura geral mais abrangente, para poder enfrentar os desafios das inovações tecnológicas. O técnico necessita de formação geral para ajustar-se, com mais facilidade, a um mercado de tantas mudanças ocupacionais. Ele não pode ser um especialista apenas em sua função, precisa estar antenado, ter conhecimento geral, expandindo a visão. Só uma boa formação geral dará  ao estudante condições de exercer com êxito a função de técnico. O mercado de trabalho vem pedindo cada vez mais o que se chama de confluência de competências, um profissional pedindo ajuda a outro.

O ensino médio é um grande aliado da formação de técnico, deve ser levado muito a sério. A unificação das duas modalidades já foi experiência do passado. Surgiu com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, 5.692, de 1971, quando era possível discutir o conceito de “terminalidade”, em relação ao exercício profissional. Por essa lei, o aluno, ao cursar o 2.º grau, podia, de forma integrada, receber uma formação acadêmica e uma educação profissionalizante, obtendo o diploma de técnico. Constatou-se, posteriormente, que a preparação para o trabalho se enfraquecia e a parte acadêmica não trazia um resultado consistente.

É preciso encorajar, estimular o jovem a freqüentar as duas modalidades, o ensino médio e o curso técnico. Um complementa o outro, um reforça o outro. A necessidade de técnicos no País é premente, de técnicos afinados com a função, mas capazes de ramificar, de transitar entre ocupações afins, mobilidade que somente o conhecimento amplificado poderá lhe dar.

É um tanto temerário tentar unificar, novamente, os dois cursos, voltar a uma experiência malograda do passado.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em setembro/2004)

CONSIDERAÇÕES SOBRE CONCURSO PÚBLICO

Izabel Sadalla Grispino *

Participando de um encontro de estudos sobre problemas sociais, numa determinada altura, abordou-se o tema concurso público. Havia um grupo de descontentes com o resultado de um concurso público municipal, de uma cidade da região. O grupo colocava sérias dúvidas sobre sua honestidade, portanto de sua validade. As dúvidas aumentaram depois da prova oral, as ditas “entrevistas”, que, segundo se acredita, são as facilitadoras das conveniências eleitas.

Ainda, após o resultado do concurso, as críticas surgiram contundentes, apontavam conteúdo desatualizado, falha na formulação dos testes, querendo, inclusive, que se procedesse a uma revisão de prova, o que não estava estabelecido em edital.

A série de artigos que vimos publicando semanalmente tem, entre outros, o objetivo de colocar os leitores a par da situação atual do ensino, em seus diferentes níveis, bem como dar uma visão dos aspectos relevantes da atual reforma da educação. Concurso público insere-se no contexto, faz parte da engrenagem educacional. É ele o balanceamento de uma aprendizagem adquirida, um caminho de realização que passa pela estrada do saber.

As prefeituras, seguindo o que dispõe a Constituição da República Federativa do Brasil, em seu Capítulo VII, Da Administração Pública, Secção I, Disposições Gerais, art. 37, inciso II, vêm abrindo concursos públicos para admissão de funcionários. “A investidura em cargo ou emprego público depende da aprovação prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos, ressalvadas as nomeações para cargos em comissão, declarados em lei de livre nomeação e exoneração”, reza a Constituição.

Quando desconfianças ocorrem, o que fazer? Que trilha percorrer? Nossas reflexões se encaminham no sentido de sugerir às prefeituras a eliminação de procedimentos que possam dar margem a desencontradas interpretações, como, por exemplo, as “entrevistas”. Por que não isentar o concurso dessa parte subjetiva? Por que não aferir personalidade, cooperação, humor, relação interpessoal através de testes escritos?

Em contrapartida, orientamos os candidatos no sentido de observar os procedimentos contidos no edital publicado, que contém regulamentos, datas, prazos previstos para atos e recursos, conteúdo e bibliografia da área em questão. Fora dos prazos estabelecidos não adianta impetrar recurso, como não adianta reivindicar algo que não esteja contido no edital. É preciso estar vigilante, reclamar o que é devido no momento certo. Há situações na vida que se assemelham a um tribunal: “Ou fale agora, ou se cale para sempre”. Deve-se exigir, do concurso, a maior transparência e, se for o caso, admitir fiscais comunitários junto com os oficiais, gerando confiança, maior aceitação, tanto de aprovados como de não aprovados.

O concurso público é a oportunidade isenta que o homem precisa.  É  um  instrumento  imparcial –  ou  deve  ser  --, indiscriminatório, com a finalidade de proporcionar oportunidades iguais a todos. É encarado como um processo moralizante da administração pública, aquele que outorga ao indivíduo o uso pleno da cidadania. Afasta – ou deve afastar --, a sombra do protecionismo, do compadrio, permitindo a todo cidadão sonhar, aspirar à ascensão social e profissional por mérito.

Com a realização de concursos, mudam-se os sistemas de contratação de pessoal. Processos de mudança implicam em mudança de mentalidade. Fazendo uma sucinta análise sociológica, constatamos um arraigado comportamento nacional paternalista, protecionista, que vem desde os primórdios da nossa civilização, da era colonial. Essa era caracterizou-se pela distribuição de favores, de benesses do rei aos protegidos, semelhantes aos feudos herdados de pais a filhos. E a cultura do apadrinhamento instalou-se entre nós.

O concurso quebra essa cultura, a forma arcaica de contratação, repleta de vícios e improbidades. A democracia traz uma nova visão de mundo, impõe uma nova ordem social, apoiada nos princípios de liberdade, igualdade e fraternidade, conforme preconizou a revolução francesa, do fim do século XVIII. Durante anos, na época da repressão, teceu-se a cultura do silêncio. Na atualidade, a convivência democrática rompe esse silêncio ancestral. Felizmente, podemos opinar, sugerir, reivindicar, esclarecer, como fazemos agora.

Em relação ao concurso, o candidato não pode criar falsa ilusão, encará-lo como uma aventura. Tem que estudar, tem que ralar, apropriar-se do conhecimento. É o conhecimento que vai premiá-lo, empurrá-lo para o sucesso. É ele a mola-mestra do emprego nos dias presentes e futuros. Quando discorremos sobre o ensino técnico, no subtítulo: “A supremacia da informação”, dissemos: “Já se apregoa que a boa formação do futuro tem que estar apoiada em dois vetores: o da formação do consumidor da cultura e o do produtor da cultura. O profissional do próximo milênio terá que estudar a vida toda. O analfabeto funcional não é mais aquele que aprendeu sofrivelmente a ler e a escrever, mas aquele que não cultivou o exercício continuado da leitura e da escrita, aquele que não acompanhou a evolução tecnológica”.

Para se galgarem os degraus do sucesso, há que se passar pelos obstáculos.  O  primeiro pode significar a superação do outro. Precisamos aprender a aprender com as mais variadas situações existenciais. Tentativas para fraudar concursos podem até existir, mas há mecanismos para combatê-las. O que não pode acontecer é o indivíduo desanimar, deixar de acreditar.

Falamos como educadores, como alguém que tem os pés no chão e a cosmovisão no futuro, como alguém que passa a vida orientando jovens e adultos e é como tal que incitamos nossos caros pretendentes a cargos públicos, ou a outros, a se apegarem à idéia de concurso. Esse processo de seleção veio para ficar e é praticamente a única opção de muitos para encontrar o seu lugar ao sol. Resta torcer para que os concursos evoluam em qualidade, que apresentem testes  tecnicamente bem formulados, com conteúdos atualizados, nos quais raciocínio e criatividade cresçam em importância na mesma proporção em que decresça memorização.

Vamos nos conscientizar, nos preparar convenientemente para enfrentá-lo. O concurso é sempre uma aula dada; a lição depende da maturidade de cada um.

“Há derrotas que são triunfos maiores do que algumas vitórias”.

* Supervisora de ensino aposentada.            
(Publicado em outubro de 2000)

ESCOLAS, PEQUENAS ILHAS DE EXCELÊNCIA

Izabel Sadalla Grispino *

O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) leva em consideração dois fatores que interferem na qualidade de ensino: o rendimento escolar, por meio das taxas de aprovação, reprovação e abandono, e as médias de desempenho dos alunos nas avaliações nacionais – Saeb e Prova Brasil. A combinação entre o fluxo e a aprendizagem resulta em uma média para cada Estado, município, escola e País, que varia numa escala de 0 a 10.

Países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), para qualidade de ensino, consideram como índice médio o igual ou maior que 6,0. De um total de mais de 55 mil escolas, apenas 160, de acordo com a classificação do Ministério da Educação (MEC), ou seja, apenas 0,2% das escolas públicas brasileiras chega a este índice.

A comparação com nações da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é possível, levando em conta a participação em avaliações internacionais, como o Pisa – que mede conhecimentos de leitura, matemática e ciências, e a criação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que considera o desempenho dos alunos na Prova Brasil, exame realizado por todas as crianças de 4.ª à 8.ª série do País, e o Sistema de Avaliação Básica (Saeb), feito por amostragem.

A média dos países da OCDE é de 6,0 (a Holanda ficou com Ideb 7,0 e o Reino Unido, com 6,5), valor que também foi considerado como meta a ser atingida pelo Brasil até 2021. Hoje, o Ideb médio nacional é de 3,8 nas séries iniciais do ensino fundamental.

Contudo, nem todas as escolas ou municípios, segundo o MEC, precisam de ter esse valor de índice. Cada escola tem uma meta diferente para 2021, de acordo com seu desenvolvimento. Mesmo escolas que tenham passado da média 6,0, hoje, terão de melhorar. O Ideb vai de 0 a 10.

Como sói acontecer, pouquíssimas escolas brasileiras atingiram a média 6,0 e, excepcionalmente, uma escola chegou a suplantar países com educação de excelência, como a Coréia do Sul e a Finlândia. A escola Professora Guiomar Gonçalves Neves, em Trajanos de Morais, no Estado do Rio de Janeiro, teve Ideb 8,5, o melhor índice do País.

Uma outra escola, municipal, Helena Borsetti, na cidade de Matão, interior do Estado de São Paulo, teve Ideb superior ao projetado para a Holanda, 7,8. Ficou classificada como a 3.ª do ranking das melhores do Brasil e a mis bem colocada de São Paulo. Uma escola que reflete a comunidade e o ambiente locais.

É na verdade muito pouco, mas é algo a se considerar, a se ir buscar como fonte, como elixir da boa aprendizagem. São escolas que vivem a sua realidade, que criam, da relação dos alunos com seu meio, estímulos para o aprender.

A escola de Matão está situada na zona rural e tem seu currículo adaptado às crianças desse meio, incorporando noções de agricultura e pesquisas da realidade vivida pelos alunos.

Firma-se, cada vez mais, o conceito de escola inserida em seu meio. Os rankings mostram que as escolas do interior do Brasil são as mais bem colocadas, quando se fala das séries iniciais do ensino fundamental. São escolas que têm um trabalho mais próximo da comunidade, comunidade que valoriza a atuação do professor, a sua atitude em sala de aula

Dentre as 55.967 escolas que fazem parte do índice, apenas, 0,01%, ou seja, 9 delas, tem Ideb, como a de Matão. Outras 33 unidades de ensino, o que representa 0,05% do total, chegam a 6,5 e se equiparam ao Reino Unido.

É ponto significativo, mas é ponto mínimo. Daria para dizer: “Vá em frente, sacode a poeira e dá a volta por cima”?

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em agosto/2007)

PARÂMETROS DE QUALIDADE

Izabel Sadalla Grispino *

O Estado de São Paulo, por sua Secretaria Estadual da Educação, realiza mudanças no seu sistema de ensino. Iniciou, em maio p.p., com um novo sistema de avaliação. Todas as escolas da rede estadual passaram a adotar um mesmo padrão de médias bimestrais, com notas em números inteiros que vão de zero a 10. Os valores decimais são arredondados para cima. A proposição foi mudar a avaliação da progressão continuada, do ensino fundamental, que passou a ser de cada 2 anos e não mais de 4.

Recentemente, um mês depois, em junho, a Secretaria montou um esquema de controle de qualidade de ensino: a partir de 2008, o ensino médio receberá um material didático, elaborado pelo Estado, para cada uma de suas séries. Após essa primeira etapa, a Secretaria fará o material para o ensino fundamental, de 5.ª à 8.ª série; uma versão para professores e outra para alunos. Para a 1.ª à 4.ª série, o Estado vai utilizar o material já produzido pela Prefeitura de São Paulo, com seu enfoque em leitura e escrita.

Essas preparações fazem parte do projeto intitulado “Percurso de Aprendizagem”. O objetivo do projeto é delinear o conteúdo mínimo que os alunos das escolas públicas devem aprender, conteúdo que será cobrado em exames, como no Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), avaliação externa à escola que visa aferir o rendimento escolar da rede pública de ensino.

Os materiais didáticos têm como suporte os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), elaborados pelo Ministério da Educação (MEC) no fim dos anos 90. Os Parâmetros foram criados para servir de referência, de orientação, à elaboração de currículos às escolas públicas e privadas do País.Fornecem recomendações gerais para as disciplinas, enfatizam a ministração do conteúdo, sem fim em si mesmo, trabalhado por meio do desenvolvimento das competências e das habilidades dos alunos.

Os materiais elaborados pelo Estado abordam áreas de estudos semelhantes às dos Parâmetros. Não são divididos em disciplinas e sim em três grandes áreas: Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias, que incluem matemática, física, química e biologia; Ciências Humanas e suas Tecnologias – história, geografia, sociologia e filosofia; e Linguagens, Códigos e suas Tecnologias – língua portuguesa e literatura, artes, educação física, língua estrangeira.

Esses materiais serão como guias e trarão síntese de conteúdos, indicações bibliográficas, recomendações de estudos e exercícios. Segundo a Secretaria, eles não substituirão o livro didático. Diferentemente dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), o material, elaborado pela Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, vai além das recomendações gerais para as disciplinas, vai conferir, posteriormente, em avaliações, sua aplicabilidade.

O professor deverá fazer uma adequação do livro didático ao novo material, processo, hoje, nada fácil ao professor. Buscam-se caminhos revigoradores do processo ensino-aprendizagem, mas essas inovações cairão em terreno fértil, adubado para a nova colheita?

Continua-se o processo de reformar a casa pelo teto, deixando as paredes trincadas, o alicerce abalado!

* Supervisora de ensino aposentada.     
(Publicado em agosto/2007)

O NÍVEL SOCIOECONÔMICO E A APRENDIZAGEM

Izabel Sadalla Grispino *

Comprovadamente, o nível socioeconômico dos alunos repercute no seu desempenho escolar. A condição social e familiar são fatores que influenciam a aprendizagem.

O Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), de 2004, anexou à prova de leitura um questionário aos alunos da 3.ª série, sobre sua condição de vida, dedicação à escola e escolaridade dos pais.

O desempenho geral da série, sem levar em conta a condição dos estudantes, foi de 0,3% no nível ótimo de leitura, 5,8% no muito bom, 27,1% no bom, 37,7% no regular, 12,1% no insuficiente e 17,1% no abaixo do insuficiente. Os alunos da 3.ª série tiveram resultados semelhantes aos apresentados nas demais séries.

Um cruzamento de dados revelou que mais de 60% dos alunos que vivem em casas sem luz elétrica, por exemplo, ficaram em níveis de leitura insuficiente ou abaixo de insuficiente. As notas ruins se repetem entre os que moram em ruas sem calçamento ou casas que não têm água encanada.

A escolaridade dos pais também revelou conseqüência ao desempenho do aluno na prova. Mais de 54% das crianças cujas mães ou pais nunca estudaram estão nos piores níveis, significando que elas não são capazes de ler qualquer tipo de texto apresentado no exame, mesmo tendo, no mínimo, 9 anos de idade; a maioria tem mais.

Quando os pais cursaram o ensino superior ou mesmo o ensino médio, mais de 40% dos filhos estão nos níveis bom, muito bom e ótimo de leitura. Já compreendem trechos de reportagens, fábulas, propagandas em histórias em quadrinhos.

A tabulação mostrou, ainda, a influência negativa de defasagem entre idade e série. Mais de 67% das crianças que têm 13 anos ou mais e continuam na 3.ª série se encontram nos níveis insuficientes ou abaixo de insuficiente. Entre os que estão com 9 anos, 24,4% tiveram esse desempenho e 75,6% ficaram acima do nível regular, isto é, acertaram mais de 50% das questões.

Um grande princípio pedagógico é a escola aproximar-se da vida de seus alunos. Conhecer a realidade que os cerca e suprir, de alguma forma, as deficiências encontradas. Alunos marcados pela pobreza, pela ausência de bens culturais, devem encontrar na escola meios de suprir suas necessidades. Se moram em localidades onde não há eletricidade em casa, não têm, nessas condições, acesso à TV, ao vídeo, ao computador, sem falar das condições financeiras que não permitem tais comodidades.

A escola pública oferece a possibilidade de reposição desses recursos, que auxiliam a aprendizagem? O professor não pode se valer da idéia de que o aluno não vai aprender porque é pobre. Não pode se apoiar em suas condições de pobreza para justificar seu atraso. A escola tem que se preparar para desenvolver esses alunos, chegar até eles, reconhecer suas falhas, suas dificuldades e trabalhar as deficiências apresentadas.

No meu livro “Prática Pedagógica” (Estruturando Pedagogicamente a Escola), no tópico “A inclusão do aluno à escola”  (pág. 55) eu digo: “Um dos objetivos prioritários da escola refere-se à inclusão do aluno no ambiente escolar. Em muitas localidades, especialmente nas periferias, é necessário incentivar o aluno a ir à escola, fazê-lo trocar o cotidiano das ruas pelo da escola. Nessas regiões, a escola compete com a rua... A escola precisa adotar projetos que resgatem a cultura popular da região. A construção da identidade, com base na educação que leva em conta as raízes, ajuda as novas gerações a manter o vínculo com a terra, sua gente, suas tradições.

O nível socioeconômico é um forte ponto a se considerar, tem séria influência, séria repercussão no andamento do projeto pedagógico e a ele deve ser ajustado...

O objetivo maior da educação é o aluno, ajustar-se a ele, conquistá-lo, ajudá-lo no desenvolvimento de sua personalidade, significa ganhar esse aluno para a escola... Tudo em educação gira em torno do aluno, em torno de sua boa formação... A escola não pula etapas, não tem como “fazer de conta”; a realidade é seu espelho, seu suporte, sua consistência. Ela parte do nível encontrado, seja do mais elementar e busca atingir um nível mais elevado, numa progressão continuada. Vale-se da conceituação de que a sala de aula é uma comunidade de investigação, um espaço de relações humanas, um lugar de interação social, zona de desenvolvimento proximal (Vigotsky). O grupo é sempre heterogêneo. O professor deve ficar atento às diferenças individuais, às diversidades e valorizá-las...

A escola vale-se da alternativa de que a escolaridade é a variável capaz de eliminar as diferenças sociais. “Educação é um ato de amor, de conexão, um ato de responsabilidade, de compromisso, de consciência social”.

A escola, imbuída desses conceitos, saberá encontrar o caminho da realização do aluno carente. Saberá programar ações, currículos, capazes de alcançar esse aluno. Saberá prever-lhe em seus projetos pedagógicos um lugar de tratamento adequado, definindo instrumentos que cheguem até ele. A escola abraçará o desafio de vencer a crise de aprendizagem, descobrindo o potencial do aluno, indo a ele não pelas deficiências, mas pelo que ele pode oferecer.

Esse comportamento da escola é inevitável. Com pesar vemos a divulgação da avaliação do Saresp, em que o maior contingente  dos alunos das escolas estaduais de São Paulo tem nível regular de leitura. Isso significa que muitos deles, dependendo da série, não são capazes de interpretar um texto, se os conteúdos não forem explícitos, identificar a seqüência dos fatos em uma reportagem ou perceber a ironia na literatura, informa o resultado do Sistema de Avaliação do Estado de São Paulo (Saresp).

O Saresp assinalou que a maioria das crianças que não freqüentou pré-escola se saiu pior e isso reforça a importância da educação infantil.

Quando uma boa parte dos alunos não aprende a falha é da escola. É ela quem precisa mudar, rever seus métodos de trabalho e atuar de maneira mais eficiente.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em julho/2005)

CONCLUSÕES SOBRE O RESULTADO DO ÚLTIMO ENEM

Izabel Sadalla Grispino *

Precisamos incentivar, reconhecer as boas escolas, não desanimar o ensino público.  Mas,  como  fechar os olhos diante de uma imensa rede de escolas públicas despreparadas, dotadas de fraca infra-estrutura, sem laboratórios de ciências, de informática, sem bibliotecas atualizadas, com jornais e revistas, com segurança ao deus-dará e com professores, na grande maioria, mal formados?

É preciso investir, de verdade, na classe popular, não apenas lançar discursos inflamados, em épocas de eleições. Na prática, usa-se a estratégia do tapa-buraco, dos arranjos e remendos provisórios.

Pesquisas têm mostrado que os professores da rede pública chegam a ser tão carentes quanto os seus alunos. Ganham mal, trabalham muito, não têm estímulo, nem dinheiro para investir na sua atualização, no seu aperfeiçoamento profissional. Os alunos, por sua vez, estão longe de conviver com um ambiente familiar que propicie a cultura, nem têm com quem falar sobre as coisas que acontecem ao seu redor e no mundo.

Essa falta de contacto do estudante com o conhecimento acaba por dificultar o pleno desenvolvimento de suas potencialidades, dificultar o desenvolvimento das competências e das habilidades. O mais comum é ele freqüentar a escola sem motivação por parte de sua família. É um quadro desolador que reforça a inferioridade educacional do estudante pobre e que acentua as desigualdades sociais.

Não nos causou surpresa o resultado do último Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), noticiando que alunos das grandes escolas particulares do País são os detentores das melhores notas. No ensino público, a média mais alta chega a 41%, no limite de que o Enem considera ruim (40%). No privado, quase atinge a excelência, com 68%, com algumas escolas conseguindo nota acima de 70%.

Os jornais estampavam a receita das escolas campeãs: bons professores e boa infra-estrutura. São professores bem informados, bem preparados, atualizados, utilizando-se de uma metodologia avançada, que leva o aluno a produzir. Os alunos dessas escolas vão às aulas motivados pelas famílias, que pensam em deixar para os filhos a educação como herança.

O Enem revelou não apenas a disparidade entre escola particular e escola pública, mas, desigualdade entre escolas públicas do País e desigualdade entre as escolas particulares. Em São Paulo, o resultado de 10 escolas públicas assemelha-se ao das escolas particulares. São escolas tidas como grupos de excelência, ligadas a universidades, centros tecnológicos ou a militares, escolas existentes também em outros Estados do País e que apresentam muito bons resultados. No ensino público, os alunos que obtiveram melhor desempenho são oriundos de escolas técnicas.

Outras conclusões do Enem são possíveis assinalar:

a) Na rede particular, a avaliação revela que vários colégios particulares, com mensalidades caras, oferecem ensino precário, tendo seus alunos obtido resultados semelhantes aos de escolas públicas, fator que revoltou muito os pais, que não viram resultado de seus sacrifícios!

b) As escolas públicas com pior desempenho são as situadas nas zonas rurais e as que oferecem ensino do antigo supletivo: alunos da Educação de Jovens e Adultos (Eja). Alunos do Eja não revelam perfil de quem quer cursar o ensino superior.

Os resultados do Enem também mostram as desigualdades entre as regiões do País. As 6 piores capitais, segundo as médias de seus alunos, estão na região Norte, das 7 melhores capitais, 6 estão nas regiões Sul e Sudeste, mostrando as disparidades regionais.

O Enem é um exame realizado pelo MEC para concluintes do ensino médio. Ele não é obrigatório e sua nota é aproveitada em vestibulares e no programa de bolsas do governo federal, o ProUni.

O Enem é elaborado segundo as novas diretrizes curriculares do ensino médio, não é dividido em disciplinas e afere habilidades e competências dos alunos. Não mede conteúdo; pede interpretação de textos, relações e leitura de gráficos.

Os resultados do Enem apresentaram uma radiografia desfavorável ao conhecimento dos alunos que terminaram o ensino médio. Fala-se em investir no ensino médio, mas de que valerá investir num ensino médio com alunos egressos de um ensino fundamental fragilizado da rede pública? Uma boa educação depende de um percurso bem feito ao longo de todo processo. Precisa de um bom alicerce e o nosso não é bom.

A má qualidade do ensino público fecha a principal via de ascensão social para estudantes de lares pobres! A nossa desigualdade educacional cria um sistema de ensino de, pelo menos, dois níveis, um beneficiando pessoas bem nascidas, projetando-as socialmente, e outro, das pessoas carentes, deixando-as no anonimato, na marginalização social.

* Supervisora de ensino aposentada.             
(Publicado em março/2006)

ESCOLA E FORMAÇÃO DE VALORES, POR SUA EDUCAÇÃO INTEGRAL

Izabel  Sadalla Grispino *

Tem-se hoje que a evolução humana é basicamente cultural. O fator genético permite posturas biológicas iguais, mas só é possível alterar o futuro de uma criança investindo em sua educação. Segundo estudos do Genoma, tudo o que somos tem razão genética, porém, costumes, características de vida são incorporados a partir de uma herança cultural local.

Educação é um processo constante de renovação. Educador é a pessoa compromissada com o outro. Para se achegar ao outro e ajudá-lo, deve inserir-se num mundo que exige atualização constante, revisão sucessiva de métodos e técnicas. Ele tem a função da pesquisa, da reflexão contínua sobre sua prática pedagógica do dia-a-dia, colocando-a a serviço da exigência atual.

O ensino escolar não pode estar desvinculado do que acontece no mundo. O mundo ficou muito complexo e tem, com razão, intimidado o professor. Transformar a escola é uma grande revolução. O professor, em geral, tem deficiência de formação, tem dificuldade para adequar o programa à realidade vivida pelos alunos, e fica, assim, preso ao livro didático. Ele é um profissional gravemente injustiçado, desvalorizado. Aviltantes salários forçam-no a uma sobrecarga de trabalho, roubando-lhe tempo precioso à sua reciclagem. O próprio MEC revela que baixos salários, falta de infra-estrutura das escolas e baixa qualidade de vida constroem o quadro de fracasso escolar que se vê hoje.

Johan H. Pestalozzi (1740-1827), um clássico da Pedagogia e considerado o pai da educação integral, dizia: “O amor é o instrumento da educação”. É esse amor que inspira o professor, que o leva a sublimar sua função, caminhando em correspondência ao pensamento: “Mesmo correndo entre pedras, as águas cumprem sua missão. As árvores plantadas são testemunhas disso”.

Recentes pesquisas têm mostrado que a grande maioria das escolas vem-se negligenciando da parte formativa do aluno, com reflexos negativos no comportamento social. A escola tornou-se uma entidade repetitiva de informação, sem priorizar a educação integral, nos aspectos: cognitivo, afetivo, psicomotor. A educação integral engloba comportamento e conhecimento. A construção do conhecimento, o desenvolvimento das habilidades, devem processar-se paralelamente à formação do educando. Formação das capacidades cognitivas de caráter geral e formação de valores, de ordem ética, moral e religiosa.

A abordagem holística do homem é hoje prioritária em todos os setores. No diagnóstico da doença, examinam-se componentes genéticos, emocionais e ambientais. Saber ler, escrever, contar, raciocinar, é pouco, tem que haver a cultura mais profunda da alma, do sonho, da criatividade.

A escola precisa repensar sua atuação e, num processo de reeducação, tornar-se uma unidade formadora de caráter, de cidadania.

Cidadania não é ensinada como uma disciplina, ela se aprende na vivência, na convivência. É um exercício que se conquista na exigência da ética, da justiça. É o respeito que se tem pelo outro, por sua identidade, pelos bens alheios, pelo patrimônio coletivo, pelo sentido de igualdade de condições. Implica em comportamento responsável, em noção de limite, dentro do preceito de que o direito de cada um termina onde começa o do outro. Já dizia Rui Barbosa: “Educa-se muito mais pelo exemplo que pela doutrina”.

Estamos vivendo uma sociedade violenta, individualista, arbitrária. Formam-se grupos oportunistas, que não têm outra finalidade senão a de se promover e a de tirar proveito do outro. O outro só existe como elemento de conveniência. Uma sociedade onde os fins justificam meios ilícitos, desumanos, onde Deus é uma presença vaga, indefinida, distante. Uma sociedade sem luz, sem fé.

É, principalmente, neste quadro social que se pensou na volta do ensino religioso como obrigatório, não mais como facultativo, conforme reza a Constituição.Por tudo isso, começa haver uma preocupação de educadores de que valores sociais, como amizade, amor, solidariedade, cooperação, lealdade... devam fazer parte dos currículos escolares. Montam projetos que vêm de encontro à proposta do MEC, quando fala em currículos transversais. Permeiam a educação com temas transversais, como política, sociedade, sexualidade, droga, ética, cidadania e outros.

São temas tratados não como disciplina específica, mas como um espaço a ser discutido em sala de aula, por um componente ou por vários. Dependendo da abrangência do tema, projetam atividades interdisciplinares, como um leque de assuntos ofertados. Cada disciplina encontrará um conteúdo correspondente.

É a escola exercendo sua função social na orientação dos jovens, na formação de uma sociedade mais humana, mais ordeira, criando vínculos de inter-relações humanas.

Até recentemente, o grande objetivo da escola era preparar o aluno para o futuro. Hoje, o grande intento é prepará-lo para o presente, para a resolução de seus problemas imediatos, de suas necessidades atuais. Preocupa-se com sua inserção em uma sociedade produtiva, ética, solidária, capaz de ajudá-lo, de maneira saudável, a se realizar. A escola faz uma ponte, ligando a percepção do aluno entre o que aprendeu e a vida. Ele se apodera do saber e aplica-o à sua vida do dia-a-dia, vivencia na escola comportamentos salutares e os desenvolve na comunidade, na sua vida social. A  aprendizagem vai se processando a partir de sue próprio interesse e das condições ambientais que o cercam.

A escola trabalha o presente, ousa, alça vôos, para alcançar o futuro. Busca integrar-se no conceito apregoado pelo consultor americano Michael Hammer: “O segredo do sucesso não é prever o futuro. É preparar-se para um futuro que não pode ser previsto”.

Para tanto, diferentemente do passado, o aluno não consome, mas produz o conhecimento e, assim, como o professor, torna-se um pesquisador permanente, um observador zeloso das relações interpessoais.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em julho/2000)

A EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE TÉCNICO

Izabel Sadalla Grispino *

O técnico sempre foi visto pela sociedade como uma função menor, menos conceituada e, por isso, desprezada pelas classes sociais mais altas. A freqüência ao ensino técnico parecia aos jovens um jogo de cartas marcadas, no qual eles aprendiam, desde cedo, a cultivar um certo ceticismo acerca das perspectivas que esse ensino lhes oferecia. Viam nele um futuro menos promissor.

A extinta Lei de Diretrizes e Bases da Educação, Lei de n° 5.692/71, promoveu um ressurgimento dos cursos técnicos, que, na realidade, não produziram o efeito esperado. Houve um desvirtuamento da função: as escolas técnicas federais, de equipamento priorizado e de professores com melhores salários que os da rede pública, passaram a ministrar um ensino de qualidade bem superior às das demais escolas públicas e, por isso, serviram de trampolim para a universidade. Na realidade, elas não estavam formando técnicos; a maioria dos alunos as procurava buscando a formação acadêmica de alto nível. Após receberem o diploma de técnico, iam disputar as vagas nas melhores universidades públicas e sempre com sucesso. Um estudo mostrou que entre as 10 escolas secundárias de São Paulo, que melhor preparavam seus alunos para o vestibular, estava a Escola Técnica Federal Paulista.

A procura pela parte acadêmica das escolas técnicas as distanciou do mercado de trabalho. O acesso a elas passou a ser através de “vestibulinhos”, nos quais saíam vencedores os alunos provenientes das boas escolas particulares. E, “o dinheiro público investido no que deveria ser um programa de formação de técnicos, dos quais o País desesperadamente necessitava, acabou ajudando a preparar novos profissionais liberais em áreas já saturadas (...). As escolas técnicas federais tornaram-se excelentes escolas acadêmicas, foram capturadas pela classe média-alta e se eletizaram. Deixaram de cumprir sua função original, que era a de preparar mão-de-obra intermediária de bom nível e passaram a formar candidatos para o vestibular a um custo de US$ 4,5 mil por aluno”, diz Cláudio de Moura Castro, considerado o mentor do projeto do MEC para a reforma do ensino médio.

O propósito, ao separar no ensino médio a parte acadêmica da parte técnica, foi a de levar esse ensino a redescobrir sua missão e oferecer técnicos de primeira linha, como são, em geral, os do Senai e Senac.

Mesmo com o aumento da criação dos cursos técnicos, continuava a corrida para os cursos superiores, sem um controle, sem um balanceamento das necessidades sociais. O Brasil, aliás, é conhecido pela longa tradição na valorização excessiva do diploma de nível superior, da busca do “status”, do título em si, hoje, com alguns dados agravantes, como a crise vigente do desemprego, em áreas que se tornaram quase impraticáveis. Eça de Queiroz via o Brasil como um País de doutores e Rui Barbosa assinalava-nos como um País de bacharéis.

Na contemporaneidade, essa concepção começa a mudar. Há um início de reviravolta; mudam-se os rumos da atuação profissional. As profissões técnicas começam a descortinar-se alentadoras, com colocações vantajosas de trabalho, especialmente se o profissional tiver habilidades para diferentes ocupações.

O PROFISSIONAL GLOBALIZADO – Vivemos uma época de reformulação completa dos vínculos empregatícios. No impacto da globalização, o que vem ocorrendo é a diminuição do trabalho sob a forma de emprego permanente numa única empresa e num mesmo local. Antigamente, era mais fácil associar uma pessoa a uma profissão, a um emprego, a uma empresa. Parece que a época da supervalorização do diploma está cedendo lugar para a época do profissional globalizado, em que a especialização não prejudique a amplitude do conhecimento. Um profissional multifuncional, que sabe fazer variadas tarefas. O mercado de trabalho está muito interligado.

Nossa era é a da informação e está exigindo  o que se convenciona chamar de conhecimentos transportáveis de uma ocupação para outra. A rotatividade das funções está pedindo um profissional polivalente, em permanente flexibilização e adaptação. Muitas empresas não estão dando mais a ênfase que davam no passado à especialização indicada pelo diploma. O que mais interessa são as competências e as habilidades para variadas tarefas. A demanda é por profissionais com conhecimentos transportáveis entre ocupações.

O conhecimento, a versatilidade, a criatividade, são as ferramentas básicas do momento atual. A indústria anda precisando mais de engenho e de empenho na  inovação do que propriamente de dinheiro. O publicitário norte-americano George Lois diz: “Hoje, uma idéia que esteja cinco anos à frente de seu tempo já não é mais uma boa idéia”.

Um estudo desenvolvido na Inglaterra demonstrou que entre os futuros executivos as prioridades não incluem mais apenas trabalho e dinheiro. Eles possuem expectativas bem diferentes das gerações anteriores. Os valores mudaram: conhecimento e habilidades pessoais são vistos como prioritários. O desenvolvimento pessoal levando a habilidades pessoais é o principal valor apontado pelos melhores alunos, seja em Oxford, seja na Universidade de Tóquio ou na London School of Economics. O universo pesquisado incluiu as três principais universidades na área da administração nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha, no Canadá, na Holanda, na Alemanha, na França, na Coréia do Sul, no Japão, na África do Sul e na Austrália. O crescimento pessoal alcançou a pontuação máxima nas ambições dos jovens para os próximos 10 anos.

No meu livro “Prática Pedagógica” (Estruturando Pedagogicamente a Escola), no tópico “O ensino técnico e suas oportunidades educacionais”, na página 114, eu digo: “Andrew Grove, o “Homem do Ano”, da Time (98), recomenda: “Fique atento às mudanças. Não resista a elas. Procure entendê-las. Encare-as, não como problemas, mas como soluções. O mercado vive a supremacia da informação.  Já se apregoa que a boa formação do futuro tem que estar apoiada em dois vetores: o da formação do consumidor da cultura e o do produtor de cultura. O analfabeto funcional não é só aquele que simplesmente aprendeu a ler e a escrever, mas aquele que não cultivou o exercício continuado da leitura e da escrita na sua forma evoluída de pensar, de criar, de raciocinar, de criticar”.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em agosto/2005)

CORRELAÇÃO ENTRE SISTEMA E APRENDIZAGEM

Izabel Sadalla Grispino *

O sistema de ensino interfere no resultado da aprendizagem? Determina o rendimento escolar?

O Estado de São Paulo, por sua Secretaria da Educação, realiza mudança na avaliação da progressão continuada do ensino fundamental. A progressão continuada, implementada no Estado em 1998, dispunha que as avaliações para efeito de promoção ou retenção deveriam ocorrer de 4 em 4 anos, na 4.ª e na 8.ª série. Agora, em 11 de maio, entrou em vigor um novo sistema de avaliação para os alunos da rede pública estadual. Todas as escolas vão adotar um mesmo padrão de médias bimestrais, com notas em números inteiros que vão de zero a 10. Os valores decimais devem ser arredondados para cima. 4,2, por exemplo, na média anual do aluno será arredondada para 5, sendo esse aluno aprovado. Esse arredondamento para cima, praticamente, nada significa em termos de aprendizagem, é, antes, visto como um estímulo ao aluno.

A medida visa mudar a avaliação da progressão continuada, que passa a ser de cada dois anos e não mais de quatro. Avalia nas 2.ª, 4.ª, 6.ª e 8.ª séries, para efeito de promoção ou retenção. Esse novo sistema vai unificar os tipos de avaliação das escolas da rede.

Acredito na viabilidade dessa mudança. Um espaço menor de tempo para uma avaliação conclusiva, aproxima o professor do resultado da aprendizagem de modo mais concreto, mais real. Ele não se perderá pela extensão do ciclo. Ciclos com duração maiores pedem mais do professor, em termos de organização, de controle, de acompanhamento, com elaboração de fichas minuciosas de registros das observações realizadas.

O sistema de ciclos, pedagogicamente, é visto como ideal para a aprendizagem. Sua metodologia observa as fases do desenvolvimento infantil, o processo de construção do conhecimento, o ritmo das crianças, conforme estipula Jean Piaget. Traz como base de sustentação o atendimento individual, requerendo um número menor de alunos por classe.

Este sistema vem acompanhado de uma estrutura – observação constante, avaliação contínua, recuperação paralela, aulas de reforço e recuperação no período de férias – que deve permitir a recuperação das defasagens. Contudo, é preciso que a escola se conscientize de que esses passos da aprendizagem, adotados pelo sistema de ciclos, fazem parte de não importa qual outro sistema. O importante não é, propriamente, o sistema, mas a forma como o professor ensina.

Sob esse aspecto, o meu livro “Prática Pedagógica” traz um estudo detalhado sobre a formação do sistema de ciclos, no ensino fundamental. Entre outras considerações, eu digo, na pág. 181: “Percebemos o quanto o ponto capital, para o sucesso do ensino, está visivelmente calcado na formação do professor, seguido de suas condições de trabalho. Podemos, ainda, perceber que não haverá mudanças se a cabeça do professor também não mudar, como argumentou Elba de Sá Barreto. Tem que haver mudança de mentalidade. Demerval Saviani acrescenta: “Enquanto as escolas operarem em condições precárias e com professores mal preparados, não há como esperar um resultado alentador”.

No tópico do livro “Formação deficiente dificulta a reforma do ensino” (pág. 43) ressalto: “O ensino ministrado nas escolas é muito mais o ensino organizado pelos professores, por sua forma de pensar, agir, por seu nível intelectual, do que aquele sistematizado pelos órgãos centrais”.

Supervisora de ensino aposentada.          
(Publicado em junho/2007)

PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS

Izabel Sadalla Grispino *

Durante a gestão do ministro Paulo Renato Souza, foram elaborados Parâmetros Curriculares Nacionais para os diversos graus de ensino da educação básica. Esses Parâmetros, pelo que se consta, não estão sendo aproveitados, como se devia pelas Escolas. Eles não têm caráter obrigatório, mas são de utilidade fundamental ao processo pedagógico, voltado a uma metodologia renovadora, construtivista. São referenciais para um ensino de qualidade e contribuem para a elaboração de currículos mais ajustados à realidade da escola.

Os Parâmetros propõem critérios curriculares para os diferentes níveis, desde a creche e pré-escola ao ensino médio. No ensino infantil, os Parâmetros buscam a uniformização desse atendimento. Indicam as capacidades a serem desenvolvidas pelas crianças, de ordem física, ética, estética, afetiva, de relação interpessoal, de inserção social. A base do parâmetro é transformar o contato das crianças com os educadores em relação de aprendizado.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental se dividem em Parâmetros de 1.ª à 4.ª série e de 5.ª à 8.ª série. Propõem que os conteúdos das disciplinas se aproximem do dia-a-dia da vida dos alunos, que haja correspondência entre o que o professor fala em sala de aula e o que o aluno faz lá fora. O trabalho escolar não pode estar desvinculado da vida do aluno e deve ressaltar problemas cotidianos. A realidade vivida pelo aluno deve servir de ponte entre o dizer e o fazer, deve unir o currículo formal e o currículo oculto.

Os Parâmetros trabalham o aluno como um todo, em sua formação integral, de al modo que informação e formação caminhem em movimento circular. Dedicam amplo espaço para os chamados temas transversais – sexualidade, droga, saúde, meio ambiente, valores morais, sociais e outros – que devem permear as matérias do currículo e ser incorporadas à prática, em sala de aula, sempre que a dinâmica da classe comportar.

Os Parâmetros entrelaçam as matérias obrigatórias com educação, sociedade, escola e cidadania. Reforça a importância da ética – ética democrática que afasta a arraigada cultura autoritária, da formação moral, do convívio escolar na ação de um perante o outro – da participação e co-responsabilidade pela vida social. Há um extenso capítulo sobre convívio social e ética, cidadania e pluralidade cultural.

Os Parâmetros oferecem, dentro do processo de construção do conhecimento, forma de estimular e de avaliar os alunos. Propõem uma avaliação ampla, investigativa e final, onde se consideram os aspectos concentuais, procedimentais e atitudinais. Eles ampliam o papel do professor e reforçam a importância do trabalho coletivo, da interdisciplinaridade. O ensino-aprendizagem deve fazer do aluno um ser pensante, criativo, essencialmente crítico, deve proporcionar-lhe oportunidades de “aprender a aprender” e se tornar um cidadão.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais não podem ser esquecidos. Todas as escolas devem a eles voltar sistematicamente. Eles orientam para uma escola moderna, autônoma, sintonizada com a realidade que a circunda. Eles levam à escola do sucesso.

* Supervisora de ensino aposentada.    
(Publicado em agosto/2006)

RETROSPECTIVA HISTÓRICA: “A ESCOLA PÚBLICA NA DÉCADA DE 60”

Izabel  Sadalla Grispino *

Surge nos anos 60, precisamente em sua 2ª metade, manifestação explícita, até, então, a maior, por parte da Secretaria da Educação pela democratização do ensino. Expandiu-se a construção de prédios escolares e novas metodologias, em função da nova clientela, novas abordagens pedagógicas, começaram a ser divulgadas e implementadas nas escolas da rede estadual.

Em 1962, criava-se, sob a orientação da Profa. Maria Nilde Mascellani, o Serviço de Ensino Vocacional (SEV), com a instalação de 5 ginásios vocacionais no estado de São Paulo. Paralelamente, foram instituídos, na gestão do secretário da Educação Prof. Paulo Nathanael, os chamados ginásios pluricurriculares, polivalentes.

Nesse período eu era diretora de uma escola estadual que mantinha os cursos: colegial, normal e ginasial. Por volta de 69/70, esse ginásio passou a ser pluricurricular.

Como o próprio nome o definia, ele oferecia aos alunos um leque de opções curriculares, permitindo-lhes descobrir tendências vocacionais e encaminhá-los, quando fosse o caso, a uma profissionalização de nível médio. Seria como um desmembramento do ginásio vocacional. Uma de suas bases de sustentação era a criação da oficina de artes e ofícios.

Era uma nova proposta de escola com um embasamento teórico e experimental de longo alcance. Para ser melhor compreendida e ajustada à sua aplicabilidade, necessitava de um profissional que se dedicasse exclusivamente à coordenação pedagógica. Foi, praticamente,  o início dessa função nas escolas públicas.

Contudo, o seu maior desafio consistia na capacidade de seus integrantes alcançarem a metodologia emergente, com sua pedagogia da cooperação e sua valorização das individualidades. Revolucionavam-se a abordagem do conteúdo e toda uma estrutura comportamental vigente.

O ensino começava a se distanciar da linha cartesiana que ostentava bandeiras com lemas da eletizada escola da disciplina, austeridade, honra e excelência. Escola que, contudo, respondia, favoravelmente, à sua clientela, seleta, oriunda de classes abastadas, dominantes, aspirantes ao ingresso nas universidades.

O advento da era industrial, gerando um grande contigente populacional urbano, pedia mudanças estruturais na sua conceituação. A visão cartesiana, inspirada, por longas décadas, na filosofia da racionalidade do francês René Descartes, século XVII, era tida, para a situação, como linear, maciçamente repressora, passando sobre a individualidade das pessoas.

A Escola precisava diversificar as ofertas  educacionais,  adequar-se  ao  trabalho industrial  e às características desse aluno proveniente, neste momento, das  mais  diferentes  classes  sociais. Surgiram mais escolas estaduais industriais com profissionalização de nível médio, passando, depois, a chamar-se “Escolas Técnicas Estaduais”, agora, ligadas à Fundação Paula Souza.

Nessa evolução, entendeu-se como fundamental olhar para dentro do aluno, valorizar suas aspirações, o seu modo peculiar de ser. A pedagogia se aparelhava da psicologia. Despontava a visão dialética, holística do homem. O aluno passava a ser visto no seu todo, compreendido e ajudado nos aspectos cognitivo, afetivo e psicomotor.

Surgiam frases de efeito, representativas da nova mentalidade: “o trabalho dignifica”, “liberdade com responsabilidade”, “educar é libertar”, “educar é um ato de amor”, “respeito às individualidades”, “só é mestre quem sabe aprender”...

Derrubava-se a muralha existente entre a escola e a comunidade. No lugar da rigidez, passou-se à flexibilização de atitudes e de conteúdo. O professor não mais impunha, ao aluno, seu planejamento --  agora elaborado de modo interdisciplinar --  ao contrário, planejava com a sua colaboração,  observando  o  nível  da  classe, respeitando o seu ritmo e sua potencialidade. Dialogava, construía o conhecimento juntamente com ele, considerando-o um ser capaz de criar, o agente da aprendizagem. Entre as técnicas de ensino, a  pesquisa, com  a  utilização estimulada  das  bibliotecas,  era  de primordial importância.A avaliação, antes centrada no aluno, passou a ser de mão dupla, centrada, também, no professor, com a conceituação não mais de medir, de reprimir, mas de verificar o crescimento do aluno. Uma avaliação que proporcionasse verificar a evolução da maturidade do aluno, num progresso gradual e constante.

A comunidade passou a ser chamada a participar do plano escolar, a esclarecer-se e acompanhar o desenrolar das atividades-meio e atividades-fim. A Escola tornou-se mais aberta, mais humanizadora, menos soberana.

Seus grandes princípios continuam bastante atuais, compreensivelmente, com ajustes aperfeiçoados ou complementados pelas exigências de adaptação aos avanços tecnológicos e conseqüente transformação social.

Foi, sem dúvida, a grande semente didático-pedagógica e democrática, lançada na rede do ensino oficial do estado de São Paulo. Com o tempo e seu amadurecimento, esses princípios culminaram no processo atual de ensino-aprendizagem, no qual ressaltamos: a formação de ciclos no ensino fundamental, a diversificação das maneiras de classificar e reclassificar os alunos  da educação básica e a reiterada afirmação do método construtivista.

* Supervisora de ensino aposentada.    
(Publicado em abril 2000)

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