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Artigos Educacionais

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MELHORAR O ENSINO PELA APRENDIZAGEM

Izabel Sadalla Grispino *

Para  a  atual  sociedade,  a  escola precisa desenvolver no aluno a capacidade de pensar e de aprender. Aprender será uma característica constante, evoluindo ao longo de toda a vida.

Essa é uma condição básica de que a escola não pode se furtar na sociedade do conhecimento, no mundo globalizado. Nos últimos anos processou-se uma verdadeira revolução na ciência pedagógica, reforçando os conceitos referentes às habilidades e às competências dos alunos, no processo de aprendizagem. Passou-se à adoção de critérios objetivos para fixar metas ao ensino, aperfeiçoando os sistemas de avaliação que permitem comparar o desempenho dos alunos e das escolas com outras escolas, com outros municípios, Estados ou País, com o desenvolvimento que houve da Teoria de Resposta ao Item.

As novas dimensões pedagógicas, ao que tudo indica, não foram, ainda, devidamente absorvidas pelos profissionais da educação. Os indicadores do desempenho dos alunos não mostram evolução satisfatória, revelando que as políticas educacionais não estão vindo de encontro ao efeito desejado. Os programas de estímulos à melhoria do desempenho das escolas concentram-se nas condições de ensino, em relação aos meios, para se desenvolver uma boa aprendizagem. Referem-se ao funcionamento das escolas, à formação dos professores, em reciclagem de estudos e melhoria salarial ou equipamentos, como laboratórios e computadores.

Embora as condições de ensino sejam importantes, chega-se, hoje, à conclusão de que os resultados de avaliações da aprendizagem dos alunos são os caminhos mais seguros para se promover uma melhoria do desempenho estudantil. Os programas, que, até então, vêm focando apenas as condições de ensino, devem deslocar o foco para a aprendizagem, considerando os resultados de avaliações, seguidas dos resultados de pesquisas sérias, sobre educação.

Partindo para um exemplo prático, analisando o resultado de uma recente pesquisa, feita pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), do Rio de Janeiro, que mostra uma preocupante evasão escolar, chegamos à sala de aula, à passagem do conteúdo. Segundo a pesquisa, 18% dos jovens entre 15 e 17 anos não freqüentam a sala de aula. O principal motivo alegado pelos jovens, e que sobrepuja em muito os demais,  é o desinteresse pela escola – 45%;  seguido de trabalho – 22%;  e dificuldade de transporte – 10%.

Percebemos que o ponto capital está na falta de motivação aos estudos, ponto que recai sobre o processo de aprendizagem. Faz-se necessário pensar em um outro modelo de escola; esse não está despertando interesse dos alunos. A aprendizagem tem que estar próxima a um conteúdo pedagógico mais afinado à realidade dos jovens, mais identificado com suas vidas e mais eficiente em relação ao mercado de trabalho, de preferência visando à escola técnica.

Ao lado de se trabalhar a consciência da necessidade da educação, junto aos jovens e suas famílias, há a necessidade de uma revisão curricular e novos métodos de ensino, o que significa programar para a aprendizagem, na busca de melhorias de ensino.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em abril/2007)

FELIZ ANO DE 2007

Izabel Sadalla Grispino *

Desejo a todos meus leitores um 2007 de paz, saúde e prosperidade. Um ano de luz, de confraternizações e esperanças. Que o homem, neste ano, seja motivado à participação e à solidariedade.

Alargando os votos de um ano feliz, desejo que, no exercício da cidadania, toda a sociedade civil assuma uma participação ativa, consciente, nas questões sociais, co-responsabilizando-se com o Estado, na formação de um mundo mais igual, menos injusto.

Aprendamos a reforçar em nós o sentimento do bem, do amor, dividindo, um pouco que seja, do que temos, para os que nada têm. A luz do sol é farta, nasce para todos. Por que não dividi-la, afastando caminhos rotos?

Aprendamos a reforçar em nós o conceito de humanidade e tentar pô-lo em prática no nosso dia-a-dia. Somos os grãos humanos reprodutores da existência, somente dentro de nós, a ética da vida, sua consciência.

Guardemos a esperança de que, neste ano, a conscientização sobre a educação, como único caminho possível para a redenção dos problemas sociais, tome conte das preocupações gerais da nação. Que haja um grande esforço governamental para oferecer às nossas crianças, aos nossos jovens, uma educação que corresponda às necessidades reais da sociedade. Não apenas uma escola que diplome, mas uma escola que ensine com qualidade, que ofereça mão-de-obra capaz, apta ao serviço a que se destina.

 

MEDITAÇÃO

O Ano-Novo não é novo,

É uma convenção do povo,

As intenções é que são novas,

Nos conceitos que se renovam.

Aprimoremos, pois, nossas ações,

Aprimoremos nossos sentimentos,

Se quisermos ver um dia

A terra girar em paz, no firmamento!

A vida é feita de anos corridinhos,

Na ilusão, ano vai, ano vem,

E, como tal lebre rapidinha,

Vai levando o homem pro além.

O tempo é uma roda-gigante,

Oscila sem parar, pra baixo e pra cima,

É um traiçoeiro amante,

Pela fugacidade prima.

Que Deus alerte nosso viver,

Nos dê da luta a medida certa,

Pensamento que desponte o alvorecer,

Canção divina, salmo da floresta!

Fé na vida, fé no amor!

Que os dias, ao longo deste ano,

Espalhem canteiros de flor,

Paz no campo e no centro urbano.

Louvemos o ano de 2007,

Louvemos Nosso Senhor,

Rezemos pelo homem,

Rezemos pela fome!

 

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em dezembro/2006)

ALUNO SUPERDOTADO

Izabel Sadalla Grispino *

A escola nem sempre está preparada para exercer bem suas amplas funções. Na semana passada, falei da dificuldade no atendimento à criança hiperativa.

Um outro aspecto, que vem despertando a consciência educacional, é o aluno superdotado. Para o professor perceber as características da superdotação não é tarefa das mais fáceis. Muitos não conseguem identificar esse tipo de estudante, que, por aprender com mais rapidez que o colega, se mostra desinteressado em sala de aula. Geralmente, são alunos ativos, que perguntam muito e professores confundem com déficit de atenção e hiperatividade.

Não são só os alunos deficientes que precisam de atenção especial. É preciso estender o olhar para aqueles cujo potencial está acima da média. Para tanto, os professores precisam passar por cursos que os capacitem a detectar alunos talentosos.

Diferentemente do que sempre se pensou, superdotados não são apenas alunos que tiram notas altas em todas as matérias, são alunos com altas habilidades em diferentes áreas do saber, como exatas, artes ou esportes. Um estudante pode ser ruim em matemática e ser superdotado em música, onde revela talento.

Para aprender a detectar talentos, os professores precisam estudar conceitos de inteligência, precocidade, talento e aprender a identificar as características desses alunos e a trabalhar com eles e suas famílias. “Um talento não identificado e não estimulado é um talento desperdiçado”, dizem os especialistas.

A identificação de uma criança superdotada é normalmente feita por entrevistas com a família, testes de Q.I., inteligência emocional e aptidões. A superdotação tem origem genética, mas sua característica só se desenvolve se for estimulada; se não for incentivada ela pode se perder.

Os superdotados passarão, nas escolas, por outro tipo de ensino, por aulas adicionais e suas famílias orientadas para entender o processo e colaborar com a aprendizagem. As aulas serão dadas em salas especiais, sempre em horário extra-escolar. Elas servirão para aprofundar os estudos e estimular as aptidões superiores.

É preciso, contudo não confundir superdotação com genialidade. O aluno pode ser brilhante numa única área e não ir tão bem em outras. Um gênio é sempre um superdotado, mas nem todo superdotado é um gênio. As características do superdotado são identificadas em escalas de observação de comportamento, capazes de um excelente desenvolvimento das altas habilidades desse aluno.

Foram criados pelo MEC, em 2006, Núcleos de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação (NAAH/S), que são centros de apoio a superdotados em escolas públicas.

* Supervisora de ensino aposentada.              
(Publicado em março/2007)

REALIDADE CONFLITANTE

Izabel Sadalla Grispino *

Constata-se em nosso País o estabelecimento de conexões do crime aqui praticado com o crime organizado internacional, deixando a sociedade nas mãos de bandidos de alta periculosidade.

Os descuidos políticos na área da segurança estão sendo dolorosos para o País. Poderes advindos do crime vão se firmando no mundo todo, com forte representatividade no Brasil. São as sombras do mal rondando a terra. Prendem-se à alça da ganância, do terror, da destruição, transformam-se num mercado sumamente lucrativo.

Vive-se no preceito de que vale mais quem tem mais, criando nessa inversão de valores estímulos a contravenção. O gérmen do crime está muito nesses valores invertidos, subvertidos, antiéticos e, sob esse prisma, o seqüestro atua numa sociedade onde os poderes se encontram.

Há, segundo consta, vários esquemas no País visando criar uma grade de proteção contra o crime. Porém, ao que tudo indica, as causas mais profundas, mais reveladoras da violência são de caráter social, como a miséria, o desemprego, a concentração de renda, cada vez maior e sem condições de fomentar o crescimento dessa renda em favor da população mais pobre.

O capitalismo selvagem, o mundo do grosso dinheiro, vêm trazendo comportamentos agregados, com um capital girando em torno de si mesmo e produzindo um consumismo exagerado. Paralelo a esse regime, surge o estabelecimento de poderosas organizações, possuidoras de um portentoso aparelho criminal, enfrentando com grande desigualdade e grande vantagem o desestruturado e arcaico aparelho policial do País.

A descrença é geral, a proteção, praticamente, inexistente ao cidadão. A epidemia de violência demonstra, claramente, que os bandidos estão soltos, dão pouca importância aos encarregados de manter as leis. O que tudo indica é que o crime organizado tem muito dinheiro para alimentar essa negra situação.

Diante de tanto desalento, a imagem da educação surge como o grande lenitivo, o grande socorro. A passagem, dos jovens, dos valores morais, éticos, a formação humanística, a visão de felicidade que advém de uma vida simples, solidária, o apego à religiosidade, são conceitos que, em seqüência, trarão a esperança da reversão.

Elevar o nível de ensino das escolas públicas, aparelhando-as condignamente, ministrando um ensino de qualidade, resgatam compromissos com a sociedade, no sentido da exclusão dos despossuídos Criar frentes de trabalho, dar condições de vida digna aos necessitados, são saídas que, sem dúvida, trarão o equilíbrio social tão necessário. Creio serem esses os melhores caminhos a trilhar, começando já, sem perda de tempo, para que, a médio e a longo prazo, possamos sair dessa assustadora realidade social.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2006)

EXAME NACIONAL DE CURSOS, O “PROVÃO”

Izabel  Sadalla Grispino *

Fui solicitada, por estudantes universitários, a escrever sobre o Exame Nacional de Cursos (ENC), o chamado “Provão”. Os estudantes queriam saber o porquê do Provão e qual sua real finalidade. Já discorri, anteriormente, sobre o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), quando, então, abordei, de passagem, o Exame Nacional de Cursos, o “Provão”: “O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é totalmente diferente do Exame Nacional de Cursos, o “Provão”. O “Provão” não dá conseqüências individuais, é feito para avaliar o curso superior. No Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), as conseqüências são individuais, possibilita o acesso ao ensino superior, embora não dê direito garantido como dá, por exemplo, o vestibular. Vai depender do critério adotado pela escola”.

O Exame Nacional de Cursos, o “Provão”, foi instituído pelo MEC, em 1996, com a finalidade de avaliar, através do desempenho do aluno, a qualidade de ensino das instituições de nível superior. Esse exame tem como função principal induzir a qualidade de ensino dos cursos de graduação. É uma prova aplicada todos os anos nos alunos que estão concluindo o curso de graduação. O exame mede as habilidades e as competências adquiridas pelo aluno durante o curso. O aluno é obrigado a fazer a prova, sob pena de não receber o diploma de conclusão de curso. As comissões que elaboram os exames definem os objetivos, o perfil ideal do graduando, as habilidades exigidas ao longo do curso e os conteúdos que o estudante precisa dominar ao fim da graduação.

O “Provão” visa preparar uma prova abrangente, que verifique mais a capacidade do aluno, desenvolvida no período de formação, o raciocínio, que os conteúdos memorizados, ou as fórmulas decoradas. O que se busca não são as especificidades, mas a formação geral, os conhecimentos e as habilidades fundamentais. Não se restringe ao conhecimento, quer avaliar também a capacidade de o aluno aplicar o que aprendeu.

O “Provão”  está preocupado com a formação acadêmica, com a qualidade dos cursos de graduação. O que se constata é que, freqüentemente, se colocam os profissionais mais inexperientes na graduação, diz o MEC. Os exames devem refletir o que a comunidade acadêmica pensa sobre a formação profissional na graduação.

Além da prova, o formando responderá um questionário-pesquisa sobre o perfil socioeconômico, através do qual é possível saber a avaliação que ele faz do próprio curso. O questionário é uma espécie de levantamento de opinião; traz a opinião do aluno, que se reverte numa informação importante, porque, “quando 60% dos alunos dizem que tal curso é fraco, quem vai planejar o curso terá de levar em consideração esse dado. A opinião dos alunos é um instrumento de análise”, reforça o ministro da Educação.

O Exame Nacional de Cursos, o “Provão”, tem por objetivo complementar as avaliações mais abrangentes das instituições e dos cursos de ensino superior – como análise do corpo docente e da infra-estrutura – visando a melhoria dos cursos de graduação. Ele é parte do processo de avaliação das instituições. Outros itens compõem a avaliação: grau de titulação – especialização, mestrado, doutorado – nível de dedicação dos professores, volume de publicações, adequação dos métodos pedagógicos, nível de proximidade com o mercado de trabalho, qualidade de laboratórios, bibliotecas e correlatos. São, portanto, três aspectos de universo pesquisado: qualificação do corpo docente, organização didático-pedagógica e instalações.

Considera-se que mais importante do que os resultados das provas, no entanto, serão os efeitos do “Provão” sobre as faculdades. Haverá, sem dúvida, um espaço maior em direção à qualidade da aprendizagem. O ensino superior só tem a ganhar com as avaliações. Elas promovem uma salutar concorrência entre as instituições e possibilitam, inclusive, identificar cursos conhecidos como “fábricas de diplomas”.

Os resultados acumulados em 5 anos de Exame Nacional de Cursos (ENC) serão fundamentais para o recredenciamento das instituições universitárias, pelo Conselho Nacional de Educação. Serão credenciadas a cada 5 anos como universidades, centros universitários, faculdades integradas, faculdades, instituições superiores ou escolas superiores. Se por 3 anos consecutivos esses cursos tiverem conceitos D ou E e se o MEC verificar que as providências não foram tomadas, elas podem ser descredenciadas. Em contrapartida, as faculdades que tiverem bons resultados consecutivos poderão obter a concessão para abertura de vagas e criação de novos cursos.

O MEC publicou portaria vinculando os resultados do “Provão” a uma maior autonomia das universidades e centros universitários em criar cursos ou expandir suas redes. Com o objetivo de premiar a qualidade das instituições, as universidades e centros universitários, com 2 anos de conceitos A e B, na maioria dos indicadores de avaliação, podem abrir cursos de graduação fora de suas sedes, sem autorização prévia. Já instituições com conceito A, por 2 anos, podem ampliar seus cursos em até 3 municípios, dentro do estado no qual estão instaladas.

As instituições poderão sofrer um início de processo de fechamento dos cursos se revelarem, em seqüência, mau desempenho do “Provão”. Já há casos de cursos superiores que iniciam o processo de fechamento de cursos que já receberam os piores conceitos (D ou E) nas duas últimas edições do “Provão”. Caso obtenham um terceiro resultado negativo, serão submetidos a processo de renovação do reconhecimento pelo MEC, sob o risco de serem fechados. Se vierem a repetir o mau desempenho, serão visitados por comissões de especialistas para verificar a qualidade de ensino. Com base no relatório dessas comissões, o Conselho Nacional de Educação (CNE) decidirá se renova o reconhecimento dos cursos. Ser reconhecido é condição indispensável para a validade dos diplomas. Também são submetidos à renovação, com risco de fechamento, os cursos com conceito insuficiente em pelo menos 2 ou 3 itens da “Avaliação das Condições de Oferta” – em que especialistas visitam as instituições para analisar os professores, as instalações e os currículos.

O Exame Nacional de Cursos, o “Provão”, teve o mérito de colocar na pauta da discussão a qualidade dos cursos de graduação. Sinaliza, sem dúvida, política de melhoria do sistema. É forte argumento de mobilização dos universitários e de reflexão dos dirigentes escolares para a necessidade de mudanças, de atualização dos cursos, da qualidade do ensino.

*Supervisora de ensino aposentada.            
(Publicado em junho/2000)

O ENSINO TÉCNICO E SUAS OPORTUNIDADES EDUCACIONAIS

Izabel Sadalla Grispino *

A nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) n.º 9.394/96 separa o ensino técnico do ensino médio, até, então, funcionando de modo único, integrado. A Lei separa a parte acadêmica da parte profissional. O ensino técnico e o ensino médio passam a ser duas realidades distintas, pertencentes, contudo, a um mesmo sistema. Uma realidade é o ensino médio tradicional, que prepara para a universidade, e a outra, a educação profissionalizante, que prepara técnicos de nível pós-secundário, objetivando a formação de mão-de-obra especializada, requerida pelo mercado.

O aluno para receber o diploma de técnico terá de freqüentar as duas realidades: o ensino médio e a educação profissionalizante. Faz-se o curso normal do ensino médio e, se quiser ser técnico, complementa-o na área técnica. As matérias técnicas poderão ser lecionadas simultaneamente ao curso regular do ensino médio ou de forma complementar, depois de o aluno tê-lo terminado.

O técnico é um ensino paralelo, não interfere no ensino médio. O programa de habilitação técnica, segundo orientação, será dividido em módulos, cuja definição dependerá das necessidades do setor produtivo, e terá duração variável. Ao final de cada módulo, o aluno receberá um certificado, mas não será técnico. A formação de técnico estará condicionada à conclusão do conjunto de módulos referentes à habilitação escolhida. Só poderá candidatar-se quem estiver cursando o ensino médio ou já tiver concluído o curso. Esse programa modularizado poderá ser feito ininterruptamente ou ser interrompido e prosseguido depois – pode ir e vir. Serão módulos complementares que não precisarão ser feitos na própria escola do aluno, desde que a referida escola reconheça oficialmente a situação.

A nova Lei de Diretrizes e Bases prevê a flexibilização na organização de cursos e carreiras. Por isso, é possível substituir a atual estrutura curricular, baseada em disciplinas e em cargas horárias fixas, por outro modo de organização, como, por exemplo, o sistema de módulos.

As escolas técnicas públicas, particulares, Senai e Senac terão dois tipos de diplomas: o básico, que pede qualquer tipo de escolaridade anterior, e o técnico, para os que cursaram o ensino médio.

As dificuldades socioeconômicas da atualidade empurram uma faixa etária mais jovem para o trabalho e levantam o problema da profissionalização. Em 1971, quando foi promulgada a antiga Lei de Diretrizes e Bases da Educação, Lei n.º 5.692/71, era possível discutir o conceito de “terminalidade” em relação ao exercício profissional. Por essa lei, o aluno, ao cursar o 2º grau, podia, de forma integrada, receber uma formação acadêmica – preparando-se para a universidade – e receber uma educação profissionalizante, obtendo o diploma de técnico. Constatou-se, posteriormente, que nessas condições, a preparação para o trabalho era um engano e uma lei posterior, de n.º 7.044/82, libertou o 2º grau da obrigatoriedade da profissionalização, mas não se definiu sobre o 2º grau como um todo.

Cerca de 100 mil dos 5 milhões de alunos do ensino médio, no Brasil, estão em escolas técnicas federais. Há uma centena delas em todo o País. Dois terços estão voltados para a formação de mão-de-obra especializada para a indústria e um terço para a agropecuária.

A parte acadêmica não ficará de fora da formação do técnico. O que se quer é um técnico com formação da área humana, considerando-se, para tanto, a parte acadêmica como importante na sua formação.

Na reformulação dos currículos dos cursos de graduação das universidades, o Conselho Nacional de Educação (CNE) recomenda uma formação geral sólida, para que o futuro profissional possa superar os desafios de renovadas condições de exercício profissional. Recomenda, ainda, nesse processo de mudança, a criação de currículos menos rígidos, afinados à características regionais, possibilitando formar  um  profissional  mais adequado ao mercado de trabalho regional. A partir do regional, o profissional acompanhando a evolução do conhecimento, alargando seu   campo de atividade, poderá atingir outras regiões, dentro e fora do País. Essa evolução do conhecimento far-se-á mediante uma aprendizagem contínua. O técnico, como qualquer outro profissional, tem que estudar permanentemente. O diploma não significa fim de jornada instrucional.

Vejamos o conceito que o jornal de RH da “Associação Paulista de Administração de Recursos Humanos” dá à aprendizagem contínua: “Muito se tem falado em aprendizagem contínua, mas nem todos sabem o que isso realmente significa e representa para a empresa e para a carreira de um profissional. Aprendizagem contínua é a necessidade que os profissionais têm de estar cada vez mais atualizados e informados, principalmente em um cenário no qual as empresas multinacionais procuram pessoas altamente preparadas e capacitadas”.

O jornal reforça a conceituação, através de pronunciamentos de competentes profissionais. O diretor de RH para a “América Latina da Novartis”, Mauro Ribeiro, diz: “Em um mundo de tantas mudanças é necessário manter-se atualizado constantemente. Atualmente é muito difícil alcançar o nível ideal de conhecimento e habilidade, por isso é extremamente necessário estar sempre buscando”.

A analista de RH da SKF do Brasil, Fabiana Ribeiro, completa: “O profissional, hoje, precisa saber de tudo. Temos que ter experiência de todo o universo da empresa. É preciso participar de todas as áreas e atividades. Precisamos estar à frente e por isso é preciso se informar, buscando sempre o que há de novo no mercado”.

O diretor comercial da “Integral Consultoria & Treinamento”, Fernando de Carvalho Cardoso, conclui: “O aprender contínuo é estar sempre bem informado, prestando atenção à mídia, sabendo o que está acontecendo a sua volta, principalmente, na sua área de atuação... Estudamos a vida inteira para entrarmos no mercado de trabalho, Mas, agora é preciso aprender de verdade para nos mantermos nesse mercado”.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em fevereiro/2000)

PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS DO ENSINO INFANTIL

Izabel  Sadalla  Grispino *

Acompanhando a implantação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), o Ministério da Educação (MEC), com o objetivo de assessorar as escolas, elaborou referenciais para um ensino de qualidade da educação básica: os “Parâmetros Curriculares Nacionais”.

Os Parâmetros não têm caráter obrigatório e servem de orientação às escolas públicas e particulares. A liberdade dada à escola, na formulação do currículo, traduz, ao lado da conquista de uma mais ampla autonomia, uma responsabilidade maior do desempenho do professor. Os Parâmetros, assessorando a competência profissional, vão contribuir para a elaboração de currículos de melhor nível, mais ajustados à realidade do ensino. Eles dão sugestões de currículos, abordam conteúdos atualizados e diversificados, métodos de ensino renovados. A finalidade é melhorar a qualidade do ensino, trabalhar a educação plena e promover práticas pedagógicas que venham garantir a permanência dos alunos na escola, reduzindo as taxas de evasão e repetência.

Os “Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Infantil” propõem critérios curriculares para o aprendizado em creche e pré-escola. Buscam a uniformização da qualidade desse atendimento. Os parâmetros indicam as capacidades a serem desenvolvidas pelas crianças, de ordem física, cognitiva, ética, estética, afetiva, de relação interpessoal, de inserção social e fornecem os campos de ação. Nesses campos são especificados o conhecimento de si e do outro, o brincar, o movimento, a língua oral e escrita, a matemática, as artes visuais, a música e o conhecimento do mundo, ressaltando a construção da cidadania.

A base do parâmetro é transformar o contato das crianças com os educadores em relações de aprendizado. “Nessa relação, é possível desenvolver capacidades motoras, afetivas e de relacionamento social”. Uma outra concepção é o desenvolvimento da autonomia, considerando, no processo da aprendizagem, que a criança tem interesses e desejos próprios e que é um ser capaz de interferir no meio em que vive. Os Parâmetros abordam questões como relação entre cuidar e educar, conteúdos, necessários a essa faixa etária, e  a  função  de  brincar no processo educativo.

O ministro da Educação, ao se referir aos Parâmetros Curriculares do Ensino Fundamental, ponderou: “Passamos a oferecer a perspectiva de que as creches passem a ter um conteúdo educacional e deixem de ser meros depósitos de crianças. Em todo o mundo está havendo a preocupação de desenvolver a criança desde o seu nascimento”.

Dados de 1998, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),  apenas 25% da população de zero a 6 anos freqüentam creche ou pré-escola. São 5,5 milhões de crianças de um total de 21,3 milhões.

A educação infantil é definida na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) como parte da educação básica, mas não da educação obrigatória. A lei define, também, nas disposições transitórias, a passagem das creches para o sistema educacional. O Ministério da Educação (MEC) determinou que, a partir de janeiro de 1999, todas as creches do País deveriam estar credenciadas nos sistemas educacionais.

Conforme a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, cabe aos sistemas municipais a responsabilidade maior por esse atendimento. A Constituição da República diz que “A educação é direito de todos e dever do Estado”. A emenda constitucional n.° 14/96 alterou dispositivos relativos à educação e estabeleceu que a educação infantil é atribuição prioritária dos municípios.

Dois entraves à implementação dos Parâmetros são colocados: no aspecto pedagógico, a formação do professor, e, no aspecto financeiro, a situação dos municípios, alegada, como precária, pelos prefeitos.

Existem no País, segundo dados de 1997 do MEC, 219,5 mil professores de pré-escola. Desses, 16,1 mil não têm o 1.° grau completo. Por lei, os municípios devem reservar 10% de sua arrecadação de impostos para o atendimento de creches e pré-escolas, todavia, essa porcentagem é questionada pelos municípios, que dizem ser ela absolutamente irrelevante à manutenção desse atendimento, quanto mais de sua expansão.

Contudo, espera-se que, com o despertar de consciência sobre a importância da educação infantil na vida do cidadão, os dirigentes municipais, estaduais e federais venham a se compatibilizar e a encontrar soluções, a fim de priorizar, igualmente, esse ensino na educação básica, trazendo igualdade de oportunidade à população de baixa renda, visto que as crianças de maior poder aquisitivo já são atendidas pelo setor privado.

A educação infantil tem-se revelado primordial para uma aprendizagem efetiva. Ela sociabiliza, desenvolve habilidades, melhora o desempenho escolar futuro, propiciando à criança resultados superiores ao chegar ao ensino fundamental. A educação infantil é o verdadeiro alicerce da aprendizagem, aquela que deixa a criança pronta para aprender.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em maio/2000)

AO JORNAL “A GAZETA”, O GRANDE SEMEADOR DE IDÉIAS

Izabel Sadalla Grispino *

Através do jornal “A Gazeta”, deste valioso instrumento de comunicação que Jaboticabal aprendeu a admirar pelo profissionalismo, venho, há vários meses, publicando, semanalmente, artigos de fundo educacional. Este jornal amigo proporciona-me a oportunidade de contatar-me com a sociedade jaboticabalense, levando conhecimento, em temas educacionais, culturais, sociais, religiosos e outros. Estou me propondo, entre outros, a registrar os principais passos da reforma do ensino, na implantação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e a realidade educacional do ensino vigente.

Encontrei neste jornal, com afável acolhida, um livro aberto, de folhas em branco, para serem preenchidas, tendo em vista ilustrar a comunidade, nos mais variados assuntos. Já tive a oportunidade de passar alguns conceitos, ressaltando a idéia de que o bom professor faz a diferença do ensino e de que ele é capaz de compensar a falta de estruturas. Passei a idéia de que a formação, a dedicação e o salário do professor são alguns dos fatores que mais interferem no ensino e de que, sem um ensino de qualidade, jamais resolveremos a questão das desigualdades sociais. Ressaltei a necessidade de cursos de reciclagem para o professor, que, de um modo geral, não está absorvendo as Diretrizes Curriculares e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), emanados pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC). O professorado não está conseguindo ensinar os alunos dentro desses novos referenciais, que abargam, principalmente, a interdisciplinaridade e a contextualização, isto é, a aproximação do conteúdo ensinado com o cotidiano do aluno.

A escola não vem acompanhando as mudanças e tem demonstrado de que os fatores que favorecem o desempenho dos alunos estão mais relacionados ao dia-a-dia da escola do que com as diretrizes elaboradas pelo MEC. Daí a importância de se dar mais atenção ao professor, dar-lhe suporte profissional, porque ele é, sem dúvida, a mola-mestra, não só do progresso, mas da eqüidade social.

Neste novo ano que se inicia, continuarei, com o apoio do jornal “A Gazeta” e com a proteção de Deus, a analisar situações de ensino, lutando para que a luz educacional prevaleça e clareie a consciência nacional de sua importância, lutando para que a vontade política se manifeste com mais verbas para a educação, cuidando melhor de nossos professores.

O jornal merece nossa reverência, porque ele é uma escola aberta, o mestre maior que bate à nossa porta para introduzir conhecimentos, para formar, de modo responsável, mente e corações. Em Jaboticabal, já vem se tornando habitual, nos festejos de fim de ano, saudar o jornal “Primeira Página”, nas pessoas de seus digníssimos diretores e de todos os seus funcionários, que, com persistente idealismo, angariam, cada vez mais, a confiança da população.  O jornal “A Gazeta” cresce com Jaboticabal, coloca-se na vanguarda jornalística. Muita saúde, muito vigor, aos seus dirigentes, para que possam continuar a receber as alegrias de seu jornalismo imparcial, que  vem se tornando marca consagrada. Pessoas que lutam por ideais salvaguardam a humanidade. Onde há uma vontade, há um caminho. Parabéns!

Formulo votos de um feliz Ano Novo a toda população de Jaboticabal. Que Deus lhe dê um ano de paz, de amor, de prosperidade. Quero também agradecer aos meus leitores pela atenção, pelas manifestações de apreço, a mim formuladas, durante a publicação dos artigos.

A todos, meus versos sobre o Terceiro Milênio.

TERCEIRO MILÊNIO, ANO 2001

Izabel Sadalla Grispino

Surge um novo milênio, uma outra aurora,
A ciência comprovando Jesus,
Ventos do infinito indicam que agora
É chegada a hora de viver a luz.

Demos um salto para o espiritual,
Conciliamos ciência e fé,
Confraternizamos real e virtual,
A razão se achegou à Santa Sé.

A face de Deus deixa o lado escuro,
Terceiro milênio é porta de frente,
Mostra o claro que vem pelo futuro,
Ressalta o homem na alma e na mente.

Que saibamos entender o momento,
Que em coro, rezemos à Mãe Maria,
Ligando oração e comportamento,
Livraremos o mundo da orgia.

O homem terá um novo semblante,
Virá aterrorizante avanço,
A ciência criando um semelhante,
A bioética entrando em balanço.

A todos vocês, queridos leitores,
Que esse dois mil e um lhes seja risonho,
Caminhos abertos, muitos amores,
Que se realize seu mais lindo sonho.

 

* Supervisora de ensino aposentada.       
(Publicado em dezembro/2000)

Caixa de texto: Clique para voltar ao sumário* Supervisora de ensino aposentada.

(Publicado em dezembro/2000)

ENSINO A DISTÂNCIA

Izabel Sadalla Grispino *

A educação a distância caminha, no Brasil, lentamente. Esse ensino se faz há muito tempo, mas, a ausência do professor, em sala de aula, tem colocado empecilho à freqüência do curso. Todos querem um professor dando aula, por isso o modelo da aula virtual, em que o conteúdo exposto está à espera que os alunos se interajam, não funciona bem. Eles não dispensam a figura do professor. Há uma forte resistência por parte dos alunos à passagem da aula presencial para a aula a distância.

Porém, surge um novo sistema que vem reforçar a aula virtual, aliando TV, internet, telefone celular, estimulando as faculdades a evoluir, deixando de ser conservadoras. As novas tecnologias de ensino a distância, criadas pela Escola do Futuro da Universidade de São Paulo (USP) com as empresas Ibir Inteligent Business Solutions, de Campinas (SP), e Sector Tecnologia, de Blumenau (SC), revolucionam as aulas via satélite.

Utilizam-se de computador básico, TV, webcom, mesa de edição simples e acesso à internet em banda larga e esses equipamentos fornecem várias possibilidades para montar cursos. O sistema permite ao aluno, junto à presença do professor, se ele estiver acompanhando a aula pela internet no momento em que está sendo ministrada, usar um ícone na tela e interpelar virtualmente e fazer perguntas ao professor. Há, ainda, a possibilidade de assistir a aulas gravadas.

O novo sistema quer conquistar o aluno, dando-lhe várias oportunidades de participar ativamente da aula. Com uma webcam simples, o estudante poderá, também, aparecer ao vivo para os colegas virtuais. Se estiver estudando por meio da TV a cabo, poderá usar o próprio controle remoto para interagir ou o telefone celular, por meio de mensagens de texto, tipo SMS. Os pesquisadores estão desenvolvendo uma nova ferramenta que vai possibilitar a participação do aluno por telefone, com voz e vez de mensagens de texto.

Nessa aula virtual, o professor pode lançar uma questão, por exemplo, de múltipla escolha. Quando os alunos responderem, ele terá em sua tela um gráfico que aponta os erros e os acertos da classe. Tem, assim, uma resposta imediata sobre o aproveitamento dos alunos e a partir, de então, decidir a seqüência do conteúdo.

O foco do projeto Escola do Futuro está, por todo País, em cerca de 90 canais universitários. Mas, a tecnologia pode ser usada por empresas que queiram treinar funcionários ou até mesmo pequenas comunidades que possuem um canal de transmissão. No caso de instituições de ensino privadas, o projeto é vantajoso, segundo os desenvolvedores do sistema. Uma instituição que decida criar duas mil vagas pode economizar até R$ 5,4 milhões em investimento em infra-estrutura. O ponto crucial fica revertido à qualidade do programa, fazendo inclusão social com uma educação eficiente.

A educação a distância atua em vários universos. O Telecurso 2000 tem 500 mil alunos. Temos, atualmente, cerca de 1,5 milhão de pessoas fazendo uso da educação a distância dentro de empresas, como a Petrobrás. Temos 3 milhões de pessoas fazendo algum tipo de curso a distância, no Brasil. O novo sistema ajuda a criar novos cursos em áreas que não eram exploradas.

Esses recursos virtuais, movimentando e estimulando a participação do aluno, têm a propriedade de atrair candidatos a essa modalidade de ensino a distância. As novas tecnologias propiciam uma nova mentalidade e trazem a esperança da sonhada democratização do conhecimento.

* Supervisora de ensino aposentada.
(Publicado em junho/2007)

BASE HUMANÍSTICA DA EDUCAÇÃO

Izabel Sadalla Grispino *

Continuando o assunto sobre voluntariado, constatamos que escolas há que orientam os alunos para a participação voluntária. Muitas já incluem, em seus projetos pedagógicos, atividades de trabalho voluntário. Os exemplos começam a se multiplicar.

Alunos de escolas particulares de alto padrão estão se predispondo, com orientação, a oferecer ajuda, em diversas disciplinas, a alunos de escolas da rede oficial, com dificuldade de aprendizagem, ajudando a tirar dúvidas e a elevar o nível de conhecimento desses alunos. Eles integram a programação da escola contemplada, uma ou duas vezes por semana, em determinado período, participam de atividades extraclasses ou, então, a escola monta um horário especial para esse atendimento.

O entusiasmo atinge o emissor e o receptor: os alunos, com deficiência de aprendizagem, evoluem e os que ensinam fixam o conhecimento, adquirindo uma visão mais ampla do assunto.

Outras escolas incentivam os alunos à assistência hospitalar, às crianças doentes, internadas em hospitais. É o caso de adolescentes, de 16, 17 anos, geralmente do 3.º ano do ensino médio, que se dedicam, como voluntários, a brincar com crianças – na maior parte carentes – internadas em hospitais, exercitando o amor ao próximo.

Utilizam-se de livros infantis, tintas, lápis de cor, teatrinhos de fantoches e outros. Contam histórias, pintam, desenham, encenam peças infantis, organizam jogos, sempre com a supervisão de um técnico em recreação. Trabalham atividades educativas e recreativas.

As crianças doentes sentem-se animadas com o ganho dessas parceiras para brincar. O ganho dos adolescentes é de outra natureza: tornam-se pessoas mais solidárias, com sentimentos mais elevados, com um olhar voltado ao infortúnio humano. A presença deles, no hospital, contribui para a humanização do atendimento, diminuindo o impacto da internação da criança.

Os resultados, segundo consta, são surpreendentes. As crianças aceitam melhor o tratamento, curam-se mais depressa. Muitas choram quando recebem alta, por não querer se afastar dos novos amiguinhos, mais velhos.

Um outro grupo dedica-se ao atendimento de idosos. Os adolescentes buscam sentido nesse trabalho, ganham experiência, avançam para a maturidade emocional e engrossam a ação solidária da sociedade.

Na abrangência do trabalho voluntário, outras luzes surgem na educação, quais sejam, os cursinhos comunitários. Alunos da classe pobre, oriundos de escolas públicas de má qualidade, poucas chances têm de ingressar numa boa universidade. Ainda recentemente, esse dado foi comprovado, quando as universidades públicas de São Paulo anunciaram isenção da taxa do vestibular para alunos carentes, alunos que cursaram o ensino básico em escolas públicas e que pertencem a famílias de baixa renda.

As universidades decidiram sobre a isenção, “apesar de terem tido uma experiência considerada insatisfatória, quando nem todas as isenções foram utilizadas”. A Universidade Estadual Paulista (Unesp) aumentou o número de candidatos isentos, porém poucos beneficiados passaram no seu vestibular. A USP também divulgou que os isentos não tiveram bom desempenho.

As barreiras desses alunos para atingir um nível razoável de conhecimento são grandes. Trazem defasagem de longa data, que vai, no tempo, se acumulando, e ainda não só não podem pagar um bom cursinho preparatório para o ingresso a uma boa universidade, como não têm base suficiente para absorver o conteúdo por ele ministrado.

Atuações altruístas surgem na área educacional e vêm criando oportunidades de um ensino complementar de bom nível aos alunos, como são os cursinhos comunitários. Estes constituem uma rede alternativa de ensino, mantida por voluntários, que investe, especialmente, na auto-estima dos alunos. O Educafro, por exemplo, é uma rede que agrupa quase 70% dos cursinhos comunitários dirigida pelo frei David dos Santos, um fervoroso defensor do aluno necessitado.

Os cursinhos comunitários são uma nova opção à população estudantil de baixa renda. Em geral, surgem da própria comunidade, que se organiza e monta um núcleo, ou de grêmios estudantis, onde todos os funcionários são pagos.

Abrir um cursinho comunitário exige muita vontade e trabalho, pois todos os seus integrantes são voluntários. A mensalidade equivale a 10% do salário mínimo, valor simbólico comparado aos grandes cursinhos. Esses cursinhos têm se revelado de grande utilidade e têm trazido resultados animadores, em termos de melhora da qualidade de ensino. Muitos alunos, hoje estudando em universidades, passaram por cursinhos comunitários. Torcemos para que o exemplo se prolifere, para que, daqui há algum tempo, não precisemos nos deparar com o resultado divulgado, no início de setembro de 2005, do Ibope, sobre analfabetismo funcional, mostrando que 75% da população não consegue ler e escrever direito.

A solidariedade é, sem dúvida, um caminho de reabilitação da escolaridade, evitando os profundos desníveis sociais. Reabilitação não só da parte que recebe a ajuda, mas, e muito, da parte que estende a mão e influencia o vizinho, para o comportamento cristão do pão repartido.

A preocupação em desenvolver uma base humanística e solidária entre os estudantes dos vários graus de ensino, hoje, é uma constante, um conhecimento a favor da cidadania. É um trabalho de educação que tem, a médio e longo prazo, perspectivas de sensibilizar alunos para que se envolvam em trabalhos voluntários.

É preciso pensar no conjunto da população, porque ninguém pode ser feliz vivendo no seio de uma comunidade desventurada. O ambiente geral é reflexo ou de uma sociedade bem constituída, bem repartida, ou de uma sociedade onde o desequilíbrio traz profundas marcas de dor.

Vamos educar  nossos alunos, os responsáveis pelo mundo que se formará amanhã, vamos conscientizá-los em direção à eqüidade social! Eqüidade em trabalho, em capacitação profissional, em realização pessoal, na linha construtiva do ensinar a pescar. Não é dar gratuitamente, é dar condições de vida própria, de vida de qualidade!

* Supervisora de ensino aposentada.      
(Publicado em setembro/2005)

EDUCAR PELO CAMINHO DA RELIGIOSIDADE

Izabel Sadalla Grispino *

Fui solicitada, num encontro educacional, a proferir uma palestra sobre “Educação e Religião”. Após meditar sobre o tema, percebi a amplitude de abordagem que contém.

O ensino religioso, em si, é um aspecto complementar da educação e de importância capital. Ele alcança a educação da alma, da formação do caráter, da noção de solidariedade, dá ao homem a dimensão superior da vida. O importante não é a religião em si, é o senso religioso, sentimento carregado de amor, de justiça, de compreensão.

É preciso reconhecer que o progresso científico-tecnológico não foi acompanhado de um desenvolvimento centrado na pessoa humana. A própria escola foi se tornando uma entidade cada vez mais informativa, deixando de lado a formação do educando, na abrangência de sua educação integral. Hoje, voltamos a insistir, junto ao conhecimento, em uma escola cidadã, formadora de caráter, da participação comunitária.

Quando a escola fala em transversalidade, está falando em temas transversais, assuntos sociais que se incluem no currículo escolar. Ela observa a sociedade, o meio-ambiente, em seus amplos aspectos, ressalta os pontos que os vêm estrangulando, danificando, e se organiza em projetos educativos, socioculturais, em ações de intervenção social. Torna-se um agente ativo de prevenção. Ela se previne, se arregimenta, para afastar agressões inoportunas e violentas.

A escola não pode simplesmente refletir a sociedade; cabe a ela ser um elemento transformador e, ao lidar com mentes em formação, é a instituição mais apta para esse papel. Sabemos que a célula-mater da sociedade é a família, como nos ensinava Coelho Neto, mas a escola é sua grande coadjuvante. É preciso desestruturar o comportamento do ganha-fácil, provocar uma mudança radical no conceito de que, para se alcançar o que se quer, vale tudo. Para essas mudanças, a ciência pouco interfere. São mudanças de valores constitutivos da alma, mudança de mentalidade, o que não é fácil de se conseguir.

Vivemos um novo universo cultural, do prazer imediato, do descartável – usa-se e joga-se fora – da desvalorização dos sentimentos, da esperteza corrupta, do desrespeito generalizado. Respeito é um valor pedindo socorro. O que se presencia é a hipocrisia, a ironia, o deboche. Rompem-se os laços sociais. Aquele que, ao passar pelo outro, ergue os olhos ensejando um cumprimento, dizer um bom dia, uma boa tarde, é visto como ingênuo ou menos importante na escala social. É preciso “se valorizar”, “mostrar-se mais que o outro”, e, para tanto, caminha-se na arrogância, na individualidade, no afastamento das relações sociais, no preceito de que “eu sou mais eu”. Isola-se no egoísmo, no “dá lá, toma cá”.

Há estudos evidenciando a “cultura do individualismo”, tão disseminada na vida social. O professor Francis Kukuyama, no livro “A grande ruptura”, diz que a mesma sociedade que não admite limites em sua inovação tecnológica também “não percebe os limites em muitas formas de comportamento pessoal e a conseqüência é o aumento de crimes, famílias desfeitas, o malogro dos pais em exigir obrigação dos filhos, a recusa do vizinho de ter responsabilidade pelo outro e a retirada dos cidadãos da vida pública. Gosto, prazer, capricho, passam a impor o seu desejo cego”.

Os conceitos axiológicos, a formação da ética, da cidadania -- valores que a sociedade desesperadamente necessita – dizem respeito à alma, em seus componentes de amor, de verdade, de fraternidade. São atributos inerentes a Deus, onde o conhecimento pouco ou nada interfere.

Viver Deus é viver o amor, lato sensu, isto é, na extensão maior. O que verificamos é que muito se fala Deus, muito se reza Deus, mas pouco se vive Deus e esse pouco vem trazendo conseqüências terríveis para a vida humana. Aprendemos, com o sentido de religiosidade, que se somos filhos de um mesmo Pai, temos que nos chamar de irmãos, temos de ser solidários, aprender a dividir, a somar, não a diminuir.

O amor é, também, um aprendizado. Quem não recebeu amor em casa, quem foi hostilizado institucionalmente, dificilmente levará amor à sociedade; engrossará o caótico social. Temos que nos alertar para o amor, para esse grande alicerce da alma, combater sua ausência desde muito cedo, em casa e nas salas de aula.

Essa imagem é configurada na minha poesia: “Refúgio para o mundo infantil”.

REFÚGIO PARA O MUNDO INFANTIL

Saudade eu tenho da candura, da lealdade,
Do sentimento elevado que se via,
Saudade das mãos dadas, da sobriedade,
Do andar calmo que o mundo nos oferecia!

O ar, hoje, é pesado, envolto em hipocrisia,
Dominado por um ideal vazio, sem par,
Amizade ganha peso de joalheria,
Valor se amolda ao tamanho do paladar!

Confiante, bati à porta da instrução,
Esperando encontrar construção mais humana,
Triste foi ver que, no trato do coração,
Instrução, nesse ponto, é o que mais engana!

Diplomado ou rico se moldam nas mesmas barras,
Engrossam o saber, acumulam fortuna,
Mas, se igualam em pobreza, de áridas terras,
Deixando, no cultivo da alma, a maior lacuna!


* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em outubro/2005)

“PRÁTICA PEDAGÓGICA”: UMA PEDAGOGIA COM POEMA

Izabel Sadalla Grispino *

O livro “Prática Pedagógica” tem merecido o olhar da crítica especializada com saldo bastante positivo. Dentre as manifestações por escrito, cito trechos de um artigo, um tanto extenso para ser transcrito na íntegra, do emérito educador ribeirão-pretano Divo Marino, que também já morou em São Carlos e foi no passado professor titular de arte da Escola Estadual “Álvaro Guião”.

Sob o título sugestivo de “Uma pedagogia com poesia”, Divo faz considerações sobre o livro, registra passagens, com comentários auspiciosos, animadores. Inicia o artigo dizendo: Professora que, semanalmente, publica artigo especializado de educação, no matutino “A Cidade”, histórico órgão de imprensa de Ribeirão Preto, Izabel Sadalla Grispino lançou seu novo livro “Prática Pedagógica” (Estruturando Pedagogicamente a Escola). Escrever sobre um livro, continua ele, que propõe estruturar pedagogicamente a escola, pede um resumo do processo histórico da educação brasileira, centralizada em políticas públicas do período republicano do Estado de São Paulo.

Inicialmente, a influência da cultura francesa e do Positivismo dos primeiros líderes republicanos...  A realidade do antigo curso ginasial até 1942 era retratada no diploma que coroava o seu término: “Bacharel em Ciências e Letras”. Durante o clima de renovação que emoldurou a Revolução de 1930, a educação modernizou-se, seguindo as diretrizes de histórico “Manifesto dos Educadores”... Criou-se, então, em 1934, a Universidade de São Paulo (USP), “Faculdade de Filosofia Ciências e Letras”, a primeira do País com a função geradora de mestres para o ensino secundário e normal.

Este lembrete histórico demonstra que Izabel Sadalla Grispino, cuja biografia atravessa os anos da decadência da educação pública, acertou em escrever um livro que busca dar estrutura à escola, com um receituário científico e bem de acordo com a sua visão idealista de Educação, tida como fenômeno social. A autora divide seu livro em capítulos, aqui ilustrados com citações endereçadas ao debate. No Prefácio, pág. 17: “Até décadas atrás, a nossa escola pública tinha como clientela a população das camadas altas e médias mais escolarizadas. Assim, boa parte do estímulo ao ensino vinha mais da própria família e dos círculos de convivência social que do ambiente escolar. A realidade modificou-se. A escola pública, de agora, é freqüentada pela classe pobre e muito pouco faz para retê-la, com aproveitamento, no recinto escolar”. No item “A Escola que educa para o pensar”, sobre o enciclopedismo do currículo, a autora diz, na pág. 27: “Queremos formar a escola do cotidiano, da resolução dos problemas enfrentados pelos alunos, uma escola que sirva para o dia-a-dia. Não é bem o diário, mas a ligação do conhecimento com sua aplicação diária. A mudança pretendida é afastar-se de conteúdos desvinculados da realidade... No capítulo: “Principais Passos da Reforma do Ensino”, no item “A Reforma do Ensino”, pág. 75: “Para que a reforma do ensino venha a ocorrer, para se alcançar a sonhada educação de qualidade é essencial investir na qualificação docente, assistir o professor nas mudanças que venham a ocorrer”. (Perfeito, acrescenta Divo). No capítulo “Educação Infantil”, no item de igual nome, sobre a descoberta da ciência de que o cérebro é muito mais elástico do que se imaginava e tem sua capacidade definida nos primeiros anos de vida, encontramos, na pág. 227, “Descobriu-se que o melhor período para desenvolver o potencial da criança é de zero a 3 anos; o melhor período de aprendizagem ocorre dos 2  aos 10 anos. Ao entrar na pré-escola, metade do processo de desenvolvimento do cérebro da criança já está concluído”.

Estas e tantas outras citações provocam profundas reflexões. O livro em si conduz a mudanças de mentalidade, mudança no atuar.

Divo termina seu artigo, com as seguintes considerações: Consciente em conhecer, já em 1950, a preciosidade que é a educação do pré-escolar, quando pesquisei milhares e milhares de desenhos espontâneos escrevi um livro editado nacionalmente sobre a arte infantil e criei as primeiras escolinhas de arte criadora infantil do Estado de São Paulo, na Escola Norma do I. E. Otoniel Mota. Depois de muitos anos, quando secretário municipal da Educação, em 1983-84, criei as primeiras “EMEIS” (Escolas Municipais de Educação Infantil), fato que demonstra quanto é lenta a evolução da Pedagogia  e  da  Prática  de  Ensino em “nuestra América”.

O livro “Prática Pedagógica” provoca indagações e debates sobre temas educacionais e é muito útil como guia teórico-prático para o professorado. Está adornado pelas poesias da autora sobre diferentes temas educacionais, valorizando, pela Arte, a mensagem contida na obra.

Medidas pontuais, experimentais, demagógicas, de exposição em vitrines ou em estatísticas da ONU, como biombos, escondem milhões de analfabetos sem escolaridade e milhões de analfabetos “funcionais” em um País que reserva as suas mais preciosas verbas para o pagamento da dívida. Quando teremos uma escola para todos?  Por isso mesmo, sempre é louvável um livro sobre educação que defende o real interesse do sofrido povo brasileiro, como é o caso de “Prática Pedagógica” (Estruturando Pedagogicamente a Escola), de Izabel Sadalla Grispino”.

Voltando à minha pessoa, tenho recebido cumprimentos de louvor pelo livro de vários educadores de São Carlos e de Araraquara. Um me foi particularmente expressivo, o de Lederci Gigante de Oliveira, uma ex-colega de supervisão de ensino, mestra em Pedagogia, professora universitária. Lederci é referência. Ao me parabenizar pelo livro, disse-me: “Izabel, gostei muito do livro, vou aproveitá-lo para minhas aulas na faculdade”.

Agradeço aos manifestantes. Recebo as congratulações como força e estímulo para o prosseguimento.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em agosto/2004)

MALABARISMOS DIDÁTICOS

Izabel Sadalla Grispino *

O professor, como já dissemos em outras oportunidades, é a alma do processo de aprendizagem. Devotar-lhe atenção, valorizá-lo, são luzes para a educação.

Pesquisas constatam que as notas dos estudantes caem, em até 20%, quando seu professor nunca passou por uma faculdade. Se o professor não alcança, não atinge a percepção, não consegue encontrar o caminho de uma educação de qualidade, como desenvolver no aluno a capacidade de ler e de interpretar? A leitura e a interpretação de textos são requisitos básicos para se aferir o grau de aprendizagem do aluno e suas possibilidades de adquirir conhecimento em outras matérias.

Já é chavão dizer que nesses aspectos o ensino brasileiro é decadente. Dados do Ministério da Educação mostram que essa capacidade, entre nossos alunos, vai muito mal: 91% terminam o ensino fundamental abaixo do nível adequado, não conseguindo compreender textos elementares. Faltam apenas 9% para que a porcentagem seja total! O que estamos esperando?!

Acrescente-se a esse dado um outro bastante agravante. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios – Pnad 2003 – divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o nosso País conta, aproximadamente, com 16 milhões de analfabetos (indivíduos maiores de 15 anos). Em Nova York – ano de 2000 – na maior reunião de dirigentes mundiais de todos os tempos, 191 países da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovaram as 8 Metas do Milênio, divulgadas pela campanha “8 Jeitos de Mudar o Mundo”. Dentre essas metas, “Educação básica de qualidade para todos” foi classificada em 2.º lugar, ficando abaixo, apenas,  da meta “Acabar com a fome e a miséria”.

A ONU colocou a educação como um dos mais importantes desafios da área de responsabilidade social, para se atingir as metas desejadas. A educação irá se encarregar de promover os avanços pretendidos. Os 8 Jeitos de Mudar o Mundo foram assim dispostos: 1 – Acabar com a fome e a miséria; 2 – Educação básica de qualidade para todos; 3 – Igualdade entre sexos e valorização da mulher; 4 – Reduzir a mortalidade infantil; 5 – Melhorar a saúde das gestantes; 6 – Combater a aids, a malária e outras doenças; 7 – Qualidade de vida e respeito ao meio ambiente; e 8 – Todo mundo trabalhando pelo desenvolvimento.

Percebemos o quanto a educação de um povo está intimamente relacionada às metas pretendidas. É ela  o fio condutor da qualidade de vida, em todos os setores e uma educação de qualidade requer, nas escolas, professores qualificados. O mais triste, entre nós, é que não faltam só professores bem formados, faltam, em escala crescente, simplesmente professores para preencher os quadros existentes.

Recentemente, lemos nos jornais que o Ministério da Educação (MEC) busca profissionais dispostos a dar aulas em escolas públicas de ensino médio, para suprir um déficit considerável. Lançará uma convocação nacional para contratar professores nos Estados, especialmente, das disciplinas de matemática, física, química e biologia. Espera encontrar professores aposentados, ou que dão aulas em escolas particulares e mesmo profissionais de áreas afins, como economia ou agronomia, que se interessem em assumir as salas de aula.

Nos Estados do Nordeste, a situação é crítica. Falta de professores, atraso de salários e falta de equipamentos vêm impedindo o aumento das redes escolares. Contudo, a ausência de professores é um problema em todo o País, dizem os representantes do MEC. Uma projeção feita pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas em Educação (Inep) aponta que, em curto prazo, o déficit de professores pode chegar a 250 mil. O cálculo foi feito com base no número de turmas de licenciatura existente no País, a quantidade de formados nos últimos 12 anos e a expectativa de conclusão nesses cursos até 2010. Em algumas disciplinas, como física e química, a situação é pior, com a previsão de que seja formado apenas um terço dos professores necessários.

Chegamos num ponto em que, ao invés de lutar pelo aperfeiçoamento pedagógico dos professores, temos que lançar mão de profissionais sem o devido preparo para o magistério! O remendo continua persistindo! Pretende o Ministério da Educação (MEC) que “os Estados comecem a chamar pessoas que podem estar interessadas em trabalhar como professores, mesmo que não tenham a formação totalmente adequada. A preferência inicial será dada àqueles que têm os cursos de licenciatura, que não estão na rede pública, mas têm interesse”.

Em seguida, serão chamados matemáticos, físicos, biólogos e outros que têm o bacharelado na área, mas não a licenciatura. As outras alternativas são formandos em licenciatura e pessoas graduadas em áreas que incluem as disciplinas em que faltam professores.

Diante do quadro exposto, não há tanto que se espantar com o noticiário de jornais do resultado do último vestibular da Fuvest. Candidatos que apresentaram redações pré-fabricadas, ostentando referências a teóricos, a fatos históricos importantes, em bom português, mas, absolutamente, fora do tema proposto. São redações-modelo que os candidatos levam preparadas, mas sem nenhuma ligação com o tema pedido.

A impressão que fica é que os alunos foram treinados para camuflar, com estilo e erudição e não preparados para argumentar, desenvolver o raciocínio, o espírito crítico, a observação. Continuam no método tradicional da memorização. Alunos que não se atêm ao hábito da leitura, da redação, da interpretação.

Num País onde professores usam de malabarismos para fazer valer suas aulas, o que esperar dos seus alunos?!

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em abril/2005)

ASSOCIAÇÃO DO ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO

Izabel Sadalla Grispino *

Mensagens que ressoam. Comunicações que atingem os diferentes ângulos da alma humana e provocam reencontros afetivos. A vontade de contribuir, de abraçar, molham a terra e as sementinhas espalhadas começam a vicejar.

Após ter publicado, dias atrás, o artigo “O atendimento à criança autista”, recebi da cidade de Araraquara um telefonema do emérito educador Francisco da Silva Borba, ex-reitor da UNESP e atual professor de pós-graduação de lingüística da UNESP-Araraquara.

O ilustre professor externou um pronunciamento qualitativo sobre meus artigos, referendando plenamente os conceitos emitidos sobre o atendimento ao autista. Retratou sua vasta experiência profissional e pessoal sobre o assunto, sendo ele um dos fundadores da Associação de Atendimento Educacional Especializado (A.A.E.E.), em Araraquara, onde uma filha sua, autista, hoje com 30 anos de idade, recebe atendimento.A filha avançou muito no seu desenvolvimento, mas foi prejudicada, principalmente na fala, pelo atraso no atendimento inicial da síndrome.

Se hoje o atendimento ao autista é dificultado, pelo desconhecimento da síndrome e pela pouca disposição das instituições em oferecê-lo, imagine como não era há 30 anos atrás! No meu artigo eu dizia: “O importante é reconhecer o autista precocemente... A medicina mostra que o diagnóstico tardio é danoso. Quanto mais cedo se detectar o autismo melhor, de preferência no primeiro ano de vida, pelo menos, antes dos 3 anos, quando o tratamento produz resultados compensadores. A criança que começa a se tratar depois dos 5 anos tem um prognóstico diferente, aqueles que ainda não falam nessa idade, dificilmente desenvolverão a linguagem...”

Por essa e outras razões, foi deveras auspicioso tomar conhecimento de uma instituição de ensino de padrão, em Araraquara, facilitando e acolhendo, com rara competência, as crianças com necessidades especiais. Seu patrono, Francisco da Silva Borba, é uma grata referência sobre a qualidade da insigne Associação. “A A.A.E.E. é uma sociedade civil de caráter educativo e assistencial, fundada em 1992 por um grupo de pais de crianças e jovens excepcionais. Por não ter fins lucrativos, foi reconhecida como de utilidade pública, pelo decreto municipal n.º 6.713, de 21/10/1994. Seu objetivo básico é desenvolver programas de ajuda, adaptação, reabilitação, integração social, educacional e profissionalização de jovens excepcionais. Tais programas estarão a cargo de pessoal especializado, sendo tão completos e abrangentes quanto permitirem os recursos da Associação”.

Esses dados foram fornecidos pela entidade, que oferece programas de atendimento integrado: Psicopedagogia e Pedagogia; Fonoaudiologia; Fisioterapia e Educação Física Especial; Terapia Educacional.

Os que têm interesse sobre o assunto, os que necessitam de ajuda no atendimento aos filhos, a Associação atende igualmente crianças de toda classe social, seja abonada, seja carente, cada família paga de acordo com suas possibilidades. Visite-a e confira, você mesmo, a força educativa que os seus avantajados métodos produzem nas crianças portadoras de deficiência, crianças atendidas humanamente, por devotados e competentes profissionais.

Como em todo processo educacional, na educação especial o estímulo precoce faz a diferença. Sobre a síndrome de Down, por exemplo, o que se sabe é que não existem graus de Down. Há, contudo, portadores da síndrome que mal conseguem falar e outros que chegam à universidade, angariando um diploma do ensino superior. As diferenças nos seus desenvolvimentos foram motivadas pelos estímulos que receberam desde a infância. Cada um tem seu potencial próprio e a forma como esse potencial é trabalhado, desde o nascimento, é que vai dar significado ao seu desenvolvimento. O que essas crianças precisam é serem aceitas, principalmente pelos pais, pelos professores e depois pela sociedade. Se bem estimuladas, atendidas com carinho e entusiasmo, alcançam um progresso animador.

Recebi um cartão de boas-festas da Associação de Atendimento Educacional Especializado, que realmente me tocou: Natal 2005, Ano-Novo 2006. Fotografia de crianças deficientes, abaixo os dizeres: “Não queremos apenas existir, queremos viver!”.

Exalto de coração essa benfazeja Associação de Educação Especial. Que consiga ir avante, apensar das dificuldades e que hoje e sempre continue sendo reconhecida como valiosa entidade de utilidade pública.

* Supervisora de ensino aposentada.       
(Publicado em janeiro/2006)

A ESCOLA INCLUSIVA

Izabel Sadalla Grispino *

A política oficial, já há algum tempo, desde 1996, prevê a inclusão dos portadores de deficiência, na rede regular de ensino. Contudo, em agosto de 2001, o ministro Paulo Renato Souza, regulamentando a Lei de Diretrizes para a Educação Especial, assinou resolução, pela qual as escolas públicas do País deverão atender estudantes com necessidades especiais.

Infelizmente, essa é mais uma mudança, na estrutura de ensino, imposta a uma rede pública desaparelhada, despreparada para recebê-la. É um “Deus nos acuda”, uma perspectiva nada animadora, conforme já se constata em avaliações. A falta de informações ou o despreparo para lidar com a educação inclusiva faz com que os próprios professores, inconscientemente, discriminem os alunos. Isolam-nos, não os motivam, acabando por marginalizá-los, no processo de ensino. Professores que deixam os alunos com deficiência visual acentuada, ou cegos, sentados ou bem na frente da classe ou bem no fundo, na intenção de protegê-los, e acabam por excluí-los do convívio social da classe. Professores que, inadvertidamente, citam, conforme relato de pesquisas, o aluno deficiente como exemplo e que acaba por diminuí-lo perante os colegas, dizendo: “Se até ele consegue, vocês podem conseguir também”.

Para que essa educação venha obter sucesso, é preciso dar estrutura de aprendizagem. É preciso que seja uma inclusão responsável para não comprometer o avanço dos alunos portadores de deficiência. É importante treinar os professores, produzir material de apoio, principalmente para portadores de deficiências visuais e auditivas, assim como adaptações de títulos didáticos para o sistema braile. As escolas devem possuir as chamadas  salas de recursos, equipadas, para facilitar a aprendizagem. Possuir professor de braile, acontecendo, por vezes, ter a sala, mas não o professor.

O que se nota, na maioria das escolas da rede pública, é ausência de infra-estrutura. Ausência de instalações especializadas, de rampas, carteiras anatômicas e, principalmente, faltam professores capacitados para lidar com o aluno deficiente.

Uma outra barreira a se vencer, em relação aos alunos portadores de deficiência, é o preconceito. Preconceito da sociedade, da escola, dos pais e até mesmo dos professores. Quando o processo de ensino da educação inclusiva é bem conduzido, administrado por professores competentes, habilitados para a área, ele consegue resultados animadores. Consegue formar indivíduos ajustados, produtivos, capacitados para exercerem tarefas que vão desde as mais simples às mais complexas. A sua inserção, em salas regulares, ajuda-os a vencer, a se integrar melhor na sociedade.

O que mais se necessita, para o sucesso da educação inclusiva, é o apoio a ser dado ao professor, à sua capacitação. Permanecendo, apenas, em instituições especializadas, os alunos deficientes acabam perdendo o convívio social, sem saber como lidar com as pessoas em sociedade. Instituições que só atendem alunos deficientes, adotam, costumeiramente, métodos “mecanicistas”, que tendem a nivelar as crianças. Na inclusão, adota-se uma linha alternativa e mais democrática de ensino. Falta, sobretudo, à rede pública aprender a desenvolver projetos que abram oportunidades educacionais adequadas a essas crianças.

A Educação Inclusiva surgiu na Europa na década de 1950 e, hoje, já é uma realidade. Segundo dados estatísticos, a rede estadual paulista atendeu, no ano de 2001, 19.215 alunos com necessidades especiais em salas regulares, de um total de 6,1 milhões de estudantes. Das 5.580 escolas, apenas 695 praticam a inclusão. Mais de 15.000 alunos são assistidos por instituições especializadas, por causa do alto grau de deficiência.

Neste particular, ressalta-se a atuação das “Associações dos Pais e Amigos dos Excepcionais” (Apaes),com seu atendimento primoroso. Fui supervisora de ensino de algumas Apaes e todas elas primavam pela competência, pelo devotamento aos alunos.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que, apenas, 2,2% dos brasileiros com deficiências físicas e mentais recebem atendimento educacional. Dentre os 17 milhões, só 374 mil são atendidos pela rede pública ou por instituições privadas, em parceria com o governo federal.

Algumas escolas particulares de ensino regular têm projetos bem sucedidos de inclusão de estudantes especiais. Promovem orientação pedagógica específica, resultando em trabalho diferenciado. São escolas que, em atenção às diferenças e às necessidades dos  alunos, mantêm em classe, no máximo, 15 alunos, permitindo ao professor atendimento individual, acompanhar de perto as dificuldades de cada um, colocando somente um ou dois alunos especiais por classe. Escolas há que adotam, como método estimulador da afetividade dos alunos, a presença de animais na escola: pôneis, cabritos, ovelhas, coelhos, tartarugas, patos e outros. Os animais favorecem a integração entre os alunos.

Há escolas que oferecem atividades de inclusão social. Dão cursos de Preparação e Qualificação Profissional, em que os alunos são encaminhados para o mercado de trabalho. Ensinam o ofício de padeiro, confeiteiro, de atendimento ao público, de auxiliar de escritório, de ajudante de cozinha, entre outros. Para a inserção da mão-de-obra dos portadores de deficiência, no mercado de trabalho, há muito preconceito e desinformação. O preconceito é, ainda, a maior barreira, na colocação de pessoas especiais, no trabalho.

Empresas que empregam portadores de deficiência dizem dar a eles tratamento igual e as responsabilidades são cobradas como de qualquer outro empregado, sem paternalismo e que a correspondência é muito boa. Eles são aproveitados em livrarias, supermercados, lanchonetes, videolocadoras, doceiras, escritórios, especialmente, de advocacia.

A escola de ensino regular, ao receber o aluno portador de deficiência, ao trabalhar o preconceito, ela está difundindo o sentido de igualdade de oportunidades a esse aluno; está desenvolvendo, entre os alunos, a formação humanística e, sob esse prisma, a integração virá bem mais forte e mais consistente.

* Supervisora de ensino aposentada.        
(Publicado em junho/2002)

A BIBLIOTECA ESCOLAR

Izabel Sadalla Grispino *

A biblioteca é um recurso didático indispensável no processo de aprendizagem. A adoção, pela escola, do método construtivista coloca a pesquisa na vanguarda da metodologia. Além disso, como despertar o aluno para a imperiosa leitura, como criar o hábito de ler, sem a existência de sua matéria-prima?

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